18h15
Eu espero um ônibus. Já faz noite. O primeiro aparece com uma caixa na mão. “Moço, compra uma bala”. Dentro da caixa, embalagens de rebuçados coloridos. Digo que não. Reparo então: ele tem os olhos marejados de lágrimas. Vira-se para trás. “Anda, Henrique”. O irmão aproxima-se. Pequenino, quatro anos no máximo. Eles afastam-se, o maior claramente liderando. Está frio em São Paulo, eles não estão mal agasalhados. Têm camisolas, o mais novo tem um casaco vermelho, estão bem lavados. Se são moleques de rua, alguém toma bem conta deles, ainda que seja só eles mesmos. O maior vê algo no chão, aponta, o mais novo apanha. O que é? Não se vê, mas o maior faz que sim com a cabeça. É coisa boa, alguém jogou fora, alguém perdeu, não interessa, agora é deles. Penso que lhe devia ter perguntado porque chorava e dado uns trocos, mas agora é tarde. Eles estão lá longe, entre a estação de serviço e a cafetaria com as paredes cobertas de revistas finas, e eu penso que estes são dias que o Henrique nunca mais vai esquecer: os dias em que, bem abrigado, andava pela rua a vender balas com o irmão mais velho.
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Brasil via Alemanha
A ver a fila que se fazia para o avião em Frankfurt, percebi: isto é outra gente.
Canção do Asilo (a partir de Gonçalves Dias)
Minha terra não tem palmeiras
Lá não canta o sabiá
Não tem esfiha nem coxinha
Maniçoba ou vatapá
"É assim" é nosso "então"
O "OK" é "entendi"
A saudade que lá existe
É a mesma que existe aqui
Não encontro prazer lá
E não sei se o há aqui
Minha terra é um sonho em pó
Acordei, logo esqueci
Se esta terra tem primores,
Parabéns, mostrem-mos lá.
Uma das coisas de que me orgulho mais de ter feito no Brasil
Uma das perguntas que me fazem mais aqui começa por "lá fala.
Canções do exílio: "Meu Mundo Caiu"
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