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As duas máquinas

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Infelizmente, isto não é uma inocente homenagem a Goya.

São Paulo teve manifestações brutais esta semana que estão a ser alvo de muita atenção pelo mundo fora. A causa delas foi o aumento da tarifa dos ônibus e metro de R$3 para R$3,20, ou seja, um aumento de 15%. Mas elas representam um pouco mais do que isso.

Para que quem não é daqui entenda, o sistema de transporte público de São Paulo funciona de uma forma um pouco esquizofrénica. Nunca vi um metro que tivesse uma rotação de trens tão rápida, mas, por outro lado, o tamanho da rede é minúsculo em relação ao tamanho da cidade. SP é uma das cidades mais congestionadas do mundo e os ônibus sofrem nos engarrafamentos, se bem que desconfio que uma cidade como Lisboa arranja às vezes complicações maiores com um volume de trânsito muito menor. O metro e os ônibus, apesar de muito cheios nas horas de rush, são relativamente confortáveis, mas não existe integração entre viagens – ou seja, uma viagem que implique metro e ônibus implica o pagamento de duas tarifas (ainda que uma acabe diminuída, mas implica).

Ou seja, num estado em que o salário mínimo é de 755 reais e num país que discute a distribuição dos lucros do pré-sal e os biliões gastos nos estádios da Copa do Mundo, custa a engolir que seja a classe menos endinheirada a suportar o aumento da inflação no transporte público.

Claro, o Governador diz que a subida foi menor do que a inflação e o prefeito Haddad sempre admitiu que as tarifas iriam aumentar (e iriam aumentar mais do que o costume porque o anterior prefeito, Kassab, não quis ajustá-las em ano de eleição). Por outro lado, Haddad criou a primeira encarnação de passe mensal e ilimitado. Mas esta subida acabou por servir como a gota de água que fez transbordar o copo. O poder brasileiro tem frequentemente desvios de autoritarismo e, pior, é um autoritarismo que acontece sem muitas vezes ter uma razão aparente. A polícia acaba servindo como um braço visível desse impulso repressivo.

Entre muitas coisas, uma manifestação é um símbolo, em que duas máquinas se confrontam: uma máquina de manifestar e uma máquina de controlar. Essas máquinas são bem complexas e bem maiores do que as pessoas que as representam no momento e espaço concreto. Trata-se de manifestantes e policiais, sim, mas também de opinion makers das duas facções, anarquistas e comerciantes preocupados com as suas lojas, cidadãos comuns e políticos.

A polícia justifica-se com a radicalidade de alguns manifestantes, agressões contra PM’s e atos de vandalismo para justificar a carga. Argumentos que perdem um pouco a razão quando a polícia é encontrada a partir as janelas dos seus próprios carros para culpar terceiros.

Além de achar que balas de borracha e bombas de lacrimogéneo disparadas a rodo contra protestantes pacíficos não são uma solução proporcional para lidar com pedradas ou sprays para pichar paredes, tenho uma pergunta a martelar-me a cabeça: quem transformou ao longo do tempo uma manifestação num evento violento? Foram os manifestantes? A carga policial de ontem está a justificar maiores mecanismos de defesa – e de agressão – para a próxima manifestação na segunda feira. Portanto, a violência da máquina de controlar justifica a violência da máquina de manifestar e vice-versa. A polícia impediu os manifestantes de entrarem na Paulista, limitando sem razão o seu direito de se manifestar. A polícia prendeu pessoas por terem, não gasolina ou granadas, mas simples vinagre (usado para suportar o gás lacrimogéneo). A polícia fez ontem os atos que os meus amigos Cícero Oliveira e Ana Reber, bem descreveram.

“A tropa de choque avançou pelas laterais do cortejo, que subia pacificamente em direção à Avenida Paulista. Na altura do Mackenzie, ela fez um bloqueio e, entre gritos de “Sem violência!” e “Não reajam”, começou a atirar bombas de gás lacrimogêneo. A multidão recuou, concentrando-se, então, na Praça Roosevelt. A tropa de choque (que havia se dividido e encurralado dos dois lados – Avenida Ipiranga e Consolação – os manifestantes) jogava bombas, balas de borracha, a cavalaria. De repente só havia gente correndo desesperada, gente, aliás, que nunca tinha participado de nenhuma manifestação (a média de idade ali era claramente de 20, 25 anos), que não sabia que gás lacrimogêneo fazia arder a garganta e chorar.”

“Os manifestantes gritavam e pediam paz. Estudantes com olhos cheios de lágrimas, gente machucada…foi muito triste e me lembrou aquele discurso, de que as pessoas que lutavam contra a ditadura eram terroristas. Por que protestos em qualquer outro lugar do mundo são legítimos e aqui são taxados de baderna?”

A violência ontem levou a mídia a mudar o discurso: depois de focar no vandalismo de terríveis pichadores, centrou-se hoje na malvadeza da terrível polícia. Ontem, a Folha de São Paulo pedia fotografias de vandalismo; hoje pediu relatos de violência policial. Haddad, sentindo o seu eleitorado desertar, já veio condenar a violência. Vejamos o que as máquinas vão dizer na segunda feira. Por agora, até uma dança mereceu rojão.

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Uma daquelas coisas que dá gosto ler quando se é roteirista

Desafio da Beleza é um dos melhores reality

— Jesus (@Juliadidit) May 27, 2013

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Perseguindo o Anão Chinês – escrever o Desafio da Beleza

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Escrevi este texto sobre a primeira temporada do Desafio da Beleza para uma revista portuguesa. Como hoje estreia a segunda temporada, no canal GNT, faz todo o sentido publicá-lo aqui. Será que foi desta que o anão chinês entrou?

Em 2012, a produtora Moonshot, onde trabalho, teve dois projetos a serem escritos, gravados e editados simultaneamente. Um é a série de ficção “Sessão de Terapia”, versão brasileira de “In Treatment”, ou, mais precisamente, da israelita “Be’tipul”. Outro é o reality show sobre maquiagem “Desafio da Beleza”. A ficção tinha 45 episódios. O reality tinha 13. 13. Como as séries da HBO ou da AMC.

O “Desafio” adapta um formato que um produtor francês fizera para a China. Tivemos total liberdade na nossa versão, mas, depois de uma primeira entrega de espelhos, ou “outlines”, a reação foi pronta: eu e os meus colegas Edson Fukuda e Fabio Farias fôramos demasiado bem educados. Não com os concorrentes, com quem fizemos questão de ser mauzinhos, inventando provas, vantagens e castigos bem ruins, mas com o formato. Este programa, disse então o meu chefe, tem que ter algo inovador em todos os episódios.

Isto não foi surpreendente. Na verdade, foi uma benção. Hoje em dia o termo “reality” define mais um modelo de produção do que propriamente um compromisso absoluto com a realidade. A experiência Big Brother provou que as novelas da vida real têm um grande problema: são da vida real, e a vida real é chata. A longevidade do BBB aqui, afinal, explica-se pela forma como tem integrado com sucesso soluções de programas de variedades (concertos, visitas de celebridades, etc). Para satisfazer o pedido do meu chefe, tínhamos que recorrer a técnicas de ficção.

Séries como ER, House ou Mad Men acompanham dois universos temáticos diferentes, mas naturalmente próximos: a profissão das personagens e a sua vida pessoal, e a forma como as duas se relacionam. Da mesma forma, um reality de competição integra a participação de concorrentes num concurso, a sua vida pessoal enquanto ele progride e, claro, a forma como as duas se relacionam. Se pensarmos na vida real como material narrativo, isto é drama na pureza máxima da definição de David Mamet: “a missão do herói para ultrapassar aquelas coisas que o impedem de alcançar um objetivo específico e premente”.

A tarefa, ao início, era assustadora. Como ser original com um formato que é tão conhecido? Mas a solução estava no próprio problema: toda a gente sabe como um reality de competição é e o que nele acontece e segundo quais regras. Então, estas podem ser esticadas e moldadas e, ainda assim, permanecer compreensíveis para o público.

Partimos então para os roteiros de pré, que são a bomba que se atira à água para pegar o que vem à tona e criar a história final. O 1º episódio era original por si mesmo, porque era um casting enorme do qual sairiam os 12 selecionados. Deixamos o 2º redondo, só para mostrar que sabemos fazer isto e não somos doidos nenhuns.

No resto, pirámos. No episódio que decorre num teatro, pusemos as luzes a apagarem-se sobre o eliminado como se fosse um ator cujo espetáculo desiste dele. Incluímos mensagens vídeo secretas dos apresentadores. Acordamos os concorrentes de surpresa, a meio da noite, para maquiarem num fashion shoot ao nascer do sol no Rio de Janeiro. Incluímos uma sequência de sonho. Arquitetamos uma prova dentro de um táxi em split screen. Fizemos um episódio sobre noivas em formato de fábula Altmaniana sobre estas que, POR ACASO, são maquiadas por nossos concorrentes. E assim por diante. Mas nada me deixou tão contente como o 4º episódio.

O brainstorming nesse dia estava já longo e o ar nas nossas cabeças saturara. Chegáramos àquele ponto do cansaço em que não apetece pensar mais. Mas era preciso dar a volta ao episódio. Nele, os maquiadores tinham de rejuvenescer mulheres com idade mais avançada.

Fiquei a matutar nisso. Tempo. Voltar atrás. Tempo. Voltar atrás. E o McKee saltou-me da lembrança. Essa seria a “controlling idea” do episódio: tempo voltando atrás.

Gostaria que tivessem estado lá para verem a cara dos meus colegas quando eu disse “vamos contar esse episódio de trás para a frente”.

Claro que não fizemos um simples rewind, mas montámos uma série de flashbacks e flashforwards, começando com o tom geral da avaliação final dos jurados, sem revelar a decisão, para depois partir para o início do dia dos concorrentes, e assim por diante. Sabíamos que o público entenderia: como disse antes, as regras do formato são conhecidas. Mas tivemos sempre um roteiro linear de reserva, e duas versões do episódio chegaram a ser editadas. Um dos editores jurou que, se a versão que idealizáramos passasse, ele correria nu em volta do estádio do Pacaembu. Ele não cumpriu a promessa, mas o episódio passou. No final, até alguns concorrentes chegaram a mandar-nos mensagens de felicitações no Facebook.

Ainda assim, houve uma coisa que faltou no “Desafio”. Enquanto estávamos ainda na fase de soltar m**das para o ar, pensámos num anão chinês que em todos os episódios faria uma aparição. Foi a única ideia louca que não conseguimos encaixar, em grande parte porque não sabíamos onde arranjar um anão chinês em São Paulo. Mas vai haver sempre um outro reality no futuro, não?

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Sobre o que roteiristas conversam

Iniciando a série “Perguntas que todo mundo quer ver respondidas, ou não”, copio aqui uma conversa que tive ontem no Facebook com um colega meu, com o qual estou a preparar um projeto.

MEU COLEGA
novidades?

EU
escrevi meu ultimo texto no meu blog em meia hora quando n tinha mais que fazer antes do almoço e já é meu texto mais curtido de sempre, mas acho que vc n quer saber isso

MEU COLEGA
li o começo
sobre o Rio
mas fico feliz q vc goste mais de SP
hahahaha

EU
acho que amanhã poderemos já começar a organizar o trabalho

MEU COLEGA
certo
vou viajar quinta
volto sábado

EU
beleza
onde vais?
para eu ir antes
e fazer xixi

MEU COLEGA
hahahahaaha

EU
ahahah

MEU COLEGA
um primo meu nunca viu o mar
vou com ele pro guarujá
e volto

EU
que bonito isso

MEU COLEGA
só o tempo dele molhar os pés

EU
ahahahah
porra, mano, deixa o homem tomar banho pelo menos, né??

MEU COLEGA
meu
será feriado
eu não gosto de praia com gente

EU
o gajo nunca viu o mar, meu!
deixa ele tomar banho!

MEU COLEGA
já tive q ir no corinthians com ele
já fiz meu sacrifício

EU
vc ja tinha ido no corinthians?

MEU COLEGA
nunca
uma vez fui na quadra da gaviões com uma amiga pra comprar cocaína
mas só isso

EU
então! ee te levou lá! vc n viu o corinthians e foi embora depois de 10 minutos!
vc viu o jogo!

MEU COLEGA
fui no lugar q fica o memorial, no parque são jorge

EU
deixa o cara tomar banho, porra! senao te envergonho na internet. ponho o pessoal que está curtindo meu post todo te condenando

MEU COLEGA
mas não entrei no memorial
me recusei a pagar 8 reais pra ver a história do corinthans
ele entrou, eu fiquei esperando do lado de fora

EU
vc é horrível, insensível e mau

MEU COLEGA
pelo contrário
1a vez dele em SP
e fui com ele em TODOS os lugares
q ele pediu
até no médico, já q ele ficou doente depois de comer na Liberdade

EU
mas que primo é esse?

MEU COLEGA
do MT

EU
mas ele tem algum problema? é tipo cadeirante?

MEU COLEGA
não
ele é veterinário mesmo

EU
ah, então está tudo explicado

MEU COLEGA
ele já fez tudo q queria
só falta o mar

EU
mas que idade ele tem?

MEU COLEGA
25

EU
ele já fez tudo o que queria aos 25?

MEU COLEGA
sim
já está se preparando para o pior
mostrei pra ele todos os programas de doente do discovery home & health

EU
mas ele é doente?

MEU COLEGA
não
quer dizer
tirando a intoxicação alimentar do camarão
ele não tem nada

EU
qual intoxicação alimentar do camarão?

MEU COLEGA
aí já não sei
olha isso

EU
porque estou vendo uma festa de adolescentes em 1992?

MEU COLEGA
pq a debutante dança freneticamente e usa vestido bufante

EU
mas isso n é nada de mais!

MEU COLEGA
dezenas de comentários nas últimas hora
isso deve ser importante
ah, e a zeze polessa está prestando depoimentos hj na polícia
td indica q a promotoria ira acusá-la de homicídio culposo

EU
n vai dar certo
espera
“td indica”
o que é o tudo que indica?

MEU COLEGA
http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2013/01/policia-apura-conduta-de-zeze-polessa-em-morte-de-motorista-no-rio1.html

EU
nada indica que ela vai ser acusada, meu

MEU COLEGA
hahahahaa
viu isso?

Seguiu-se uma troca de comentários sobre questões de Direito Internacional Privado, em que o meu colega queria saber por que lei seria julgado se gravasse no Qatar um vídeo de insultos à Preta Gil e o subisse para um servidor na Malásia. Espero que tenham gostado.

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SP vs. RJ

SP-RJ

A verdade resumida é que eu gosto de São Paulo e o Rio de Janeiro não me seduz assim tanto.

Eu até consigo curtir o Rio e estar lá bem. Mas, depois de alguns dias, dá-me logo a vontade de voltar. Não consigo ficar muito tempo. Aquilo pode ser maravilhoso, mas não é para mim.

Às vezes, perguntam-me porquê. Às vezes, eu próprio me pergunto porquê. Como é que um gajo passa de crescer no campo até morar no centro da 4a maior área metropolitana do mundo? E porque é que ele não se sente adequado quando deixa esse ninho de cimento e vai até uma cidade com uma paisagem miraculosa, rodeada por morros verdíssimos, com uma das orlas costeiras mais conhecidas do planeta e alegria carimbada à nascença em qualquer criança que lá nasce?

Poderia ser porque eu nunca fui muito de praia e em qualquer rua do Rio de Janeiro eu tenho a impressão que estou em Vila Praia de Âncora. Uma Vila Praia de Âncora com 6 milhões de pessoas, mas, ainda assim, uma Vila Praia de Âncora, semeada de lojas de toalhas de praia, calções de praia, bronzeadores de praia e óculos escuros dos chineses de praia.

Curiosamente, tenho um amigo de Vila Praia de Âncora que mora no Rio de Janeiro. Ele parece-me bastante bem lá, o que só prova o meu argumento.

Poderia ser porque me faz falta um pouquinho de depressão nas pessoas à minha volta. Essa depressão desobriga-me de me comportar de um determinado modo. E no Rio de Janeiro eu sinto sempre que tenho a obrigação de sorrir e de estar animado e zen. Ora, eu não quero sorrir e estar animado e zen. Eu quero estar mal humorado e só fazer pausas para me rir inapropriada e negramente das pessoas. Este é o meu segredo escuro, por isso não o contem a ninguém.

Num monólogo para um programa que não deu certo (quem sabe por causa do próprio monólogo), defendi uma tese que me saiu meio que de improviso, mas da qual cada vez me convenço mais: o Rio de Janeiro é como maconha. É leve, convivial, encantatório. Mas São Paulo é como uma droga dura. Pode destruir-nos lentamente, mas não nos conseguimos livrar dela.

E é assim que chegamos à prova fenomenológica definitiva de que eu, português de Monção, passado por Coimbra e Lisboa, sou uma pessoa de São Paulo. É que, entre Adoniran Barbosa, poeta da rua paulistana, e Cartola, bardo do amor carioca, prefiro Adoniran. Fico feliz por morar num mundo que nos deu os dois, Cartola cantando “Acontece” comove-me, sinto-me esmagado pela humanidade na sua música. Mas uma diferença é chave para mim: se recusado por uma mulher, Cartola escreveria uma melopeia sobre o amor mal correspondido que se tornaria imediatamente um património da condição humana. Já Adoniran era malandreco, tortuoso e com defeitos. Quando teve os seus avanços recusados por uma morena num salão de bilhar na São João (onde eu moro), perguntou-lhe o nome. Ela respondeu “Iracema”. E ele disse “Iracema… eu vou te matar!”. E então ele fez um samba em que uma mulher chamada Iracema atravessa a São João em contramão… e é atropelada.

Entre o poeta que chora e o poeta que mata, prefiro o segundo. Entre a cidade que dança e a cidade que mata, prefiro a segunda. E eu não imponho esse argumento a ninguém, mas eu não abdico dele.

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Retratação

Fui injusto para Haddad. Aparentemente, ele ter tomado posse no 1 de Janeiro e, mais ou menos pelo mesmo dia, os sem abrigo à frente da minha casa terem desaparecido foi mesmo uma coincidência. Foi uma falha minha não ter percebido logo que os “seguranças” de cacetete que agora ficam sentados ao longo de algumas quadras do Minhocão foram contratados pelos comerciantes da área, mais o condomínio do meu próprio prédio, que, pelos vistos, estavam muito incomodados por haver pessoas a procurar o abrigo do viaduto gigante que atravessa a cidade. Foi uma falha minha não ter assumido logo que o espaço público está a ser guardado por seguranças privados, que usam a coação física para selecionar quem pode usar a rua e de que forma. E falhei também por pensar que alguém poderia achar isto mau. Pelo fato, as minhas desculpas.

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Voltar a São Paulo: as novidades

Haddad tomou posse, substituindo Kassab na prefeitura de São Paulo. Segundo as notícias, ele vai ter de subir os transportes 30 centavos, porque o Kassab não fez a atualização que deveria ter feito o ano passado. O fato de ter havido eleições no ano passado não é pura coincidência.

Cheguei ontem e reparei que não há mais sem-abrigo a dormir por baixo do Minhocão. Mas, aqui e ali, há uns tipos sentados em cadeiras de praia. Perguntei ao porteiro do meu prédio se ele sabia o que tinha acontecido. Os sem-abrigo foram postos a andar ontem ou anteontem. Provavelmente, meteram-nos num ônibus e levaram-nos para Interlagos. Já não seria a primeira vez. A diferença é os tipos nas cadeiras, que agora estão lá para fiscalizar que mais ninguém se venha abrigar por baixo do viaduto. O fato de o candidato que ganhou as eleições ter tomado posse no 1 de Janeiro também não é pura coincidência.

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2013?

Que uso se pode dar a esta complicação chamada tempo?

O calendário juliano foi implementado em 46 e vigorou durante 1536 anos.

Enquanto ele organizava as datas do Império Romano e da Cristandade, os árabes entraram na Península Ibérica (711). Até à inclusão do Algarve (1249), Portugal, em todo ou em parte, foi árabe.

Foram 538 anos.

Claro que, na época, Portugal seguiu o calendário islâmico e, segundo este, a ocupação terá durado uns 554 anos. Mas, para facilitar, digamos 538 anos.

O que são 538 anos?

Há 538 anos, Portugal ainda não tinha chegado à Índia, ao Brasil, ao Cabo da Boa Esperança. Nem a linha do Equador tínhamos passado ainda. Os tupis do Brasil ainda não tinham conhecido capitanias, bandeirantes, o Deus católico, europeus ou pão de queijo.

O calendário juliano foi substituído pelo gregoriano em 1582.

Isto foi há 431 anos.

O que significa que o calendário que todo o mundo hoje segue está em vigor há menos tempo do que o tempo que Portugal foi árabe.

Segundo o calendário juliano, hoje estaríamos ainda no dia 19 de Dezembro de 2012.

Ou seja, festejar o ano novo não é celebrar bem uma “coisa” ou um “fato”.

Festejar o ano novo é celebrar um fait-divers que decorre do sistema que o papa Gregório III e académicos como Christopher Clavius ou Luigi Giglio impuseram em 1582.

O ano novo só é celebrado em todo o mundo porque a colonização europeia levou o calendário gregoriano a todo o mundo. Como a ocupação árabe, por seu lado, trouxera o calendário islâmico para a Península Ibérica.

Hoje, os tupis estão quase extintos e o Brasil tem europeus e pão de queijo. Portugal, por seu lado, já não tem nem um átomo do ouro que ganhou durante os Descobrimentos.

Mas, pelo menos, todos sabemos quando chegamos atrasados.

Este texto teve o apoio do Calendar Converter.

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O Pequeno Livro Sagrado do Menor Slam do Mundo

Uma das variações mais divertidas que eu já experimentei do slam foi posta em prática em São Paulo pelo grande Daniel Minchoni. Chama-se Menor Slam do Mundo, é mensal e os poemas estão limitados, não aos 3 minutos normais, mas a 10 segundos…

Há uns dias, na final anual – vencida pelo não menos grande Victor Rodrigues – foi lançado O Pequeno Livro Sagrado do Menor Slam do Mundo. O formato dele está mesmo a calhar para um flipbook, daqueles que se folheiam as páginas e fazem um filminho. Quando eu disse isso, o Minchoni falou algo sobre pornografia. Portanto, a edição do ano que vem promete. A deste ano, seja como for, já está online! É só clicar na imagem aí em cima para ler alguns poemas dos melhores (e menores) poetas do futuro. E, já agora, três meus também.

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O tempo e o homem

O programa do Jô passa. Um ator fala sobre ter trabalhado numa ilha grega porque faltavam homens para a agricultura e ele acabou contratado. Ele não é o que fez aquela série em Portugal com a Tônia Carrero? Já não me lembro, não o reconheço mais. Não interessa. São Paulo está cheia de luzes de Natal, o que me faz sentir ainda mais calor e me deixa sempre meio tonto. As árvores aguento. Até os gorros aguento, porque eles ficam no topo da cabeça para a foto, tiram-se depois e pronto. Mas as luzes e as figuras de Pai Natal e as renas, isso faz-me sempre suar mais. Semana passada a temperatura andou pelos 40º aqui e no Rio – lá sempre mais quente, mas lá há praia e blablablá. O ator no Jô tem o cabelo comprido. Ele não parece ter calor, mas também já ouvi dizer que há quem goste de baixar muito a temperatura nos estúdios. Talvez o do Jô seja assim. O da Xuxa, acho, é muito frio, um gelo mesmo, talvez para não atrapalhar as danças e tudo o mais com manchas de suor.

Pergunto-me se faço bem em escrever isto, se a temperatura em estúdios deve ser tabu para roteiristas. Disseram-me que Angola agora em Portugal é um assunto tabu. Agora poderia falar de bullies, mas não gosto dessa palavra e prefiro falar em brutos. Há dias em São Paulo um rapaz começou a ser chateado por duas bestas num carro enquanto subia uma rua da Vila Madalena a pé. As bestas chamaram-lhe viado, o rapaz respondeu e, por aquilo que entendi, mandou-os à merda, o que, na minha opinião, é muito justo. Os gajos saíram do carro e deram-lhe uma carga de porrada. Partiram-lhe a cara, ficou com os olhos pisados e a testa aberta. Primeiro fiquei a pensar no que leva duas bestas a querer sair de um carro para malhar num homem por gostar de outros homens. E depois pensei que o que o rapaz fez é o que todos deviam fazer aos brutos desta vida: mandá-los à merda e levar a porrada que for preciso.

Lembro-me do meu avô. Disse-me para não me meter em pancadaria, mas, se algum dia me viessem bater, que eu desse também. O rapaz homossexual foi bem mais homem do que as bestas que lhe deram porrada. E assim eu penso: o que deve ser um homem? Eu acho que, se as mulheres se discutiram e se decidiram no século XX, agora é o momento de o homem se discutir e se decidir também. O que é um homem, penso. E só uma resposta me parece possível: um homem tem que ser um guardião sério daquilo que acha justo. Isso não significa ser conservador. Significa pensar sozinho o que acha que o mundo deve ser, saber aplicar o peso e a medida certos para o conseguir e assumir as consequências das suas ações. Isso vai desde mudar uma lâmpada em casa até andar à porrada porque não quer ser pisoteado, ou desde trabalhar nas colheitas de uma ilha grega com escassez de braços até ajudar os filhos a educarem-se.

Um homem tem que fazer o mundo continuar a funcionar para ajudar o mundo a ir para a frente. Por alguma razão os gentlemen aprendiam boxe.

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