Objetos do Brasil: o Programa Sílvio Santos

O Programa Sílvio Santos assenta num pressuposto curioso, que também já justificou coisas em Portugal como o “Agora ou Nunca”: toda a gente quer dinheiro e está disposta a tudo para o conseguir. No entanto, ele fá-lo da forma mais despudorada que alguma vez se viu:
SÍLVIO SANTOS – Quem quer dinheirooooo?
AUDIÊNCIA COMPOSTA INTEIRAMENTE POR MULHERES – Eeeeeeeeeeeeeu!
SÍLVIO SANTOS – Quem quer dinheiroooooooooooooooooo?!
AUDIÊNCIA COMPOSTA INTEIRAMENTE POR MULHERES – Eeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeu!
Enquanto grita estas palavras de ordem, Sílvio Santos vai percorrendo à sua vontade um corredor entre duas colunas de espectadoras que parecem mais selvagens do que qualquer audiência que a Oprah consiga angariar. Quando quer perguntar alguma coisa a alguém, ele escolhe a pessoa que mais lhe agrada no momento. Há sempre um microfone a aparecer-lhe miraculosamente na mão, que ele aponta só para a interlocutora – sim, porque ele tem um microfone só para ele, que traz sempre fixo e em riste por baixo do pescoço, preso com uma coisa metálica que, por esta altura, já lhe deve entrar pela pele adentro. Se ELE OPINAR que a resposta da mulher está certa (e basta OPINAR, mas tem que ser ELE), tira um maço de notas do casaco e dá-lho. Sílvio Santos tem os bolsos mais bem recheados de toda a televisão mundal, mas nunca ganhar dinheiro foi tão humilhante em toda a história das atividades económicas. Ele ri-se e troça da ignorância das concorrentes de ocasião e, com requintes de crueldade próprios de um padastro num conto de fadas, ele humilha a Maísa, uma criança que se tornou uma figura televisiva precisamente por ser humilhada por ele e, de vez em quando, replicar (se bem que isso só sirva para que ele a humilhe mais um pouco).
No Programa Sílvio Santos, a audiência aplaude vídeos com homens a assobiar, anúncios de produtos de maquilhagem produzidos pelo próprio Sílvio Santos, travestis a cantar e desfilar, dinheiro, dinheiro e dinheiro. É um momento televisivo em que tudo pode acontecer, porque, desde que cumpra os requisitos de beleza e/ou de riqueza, nada é de tão mau gosto que nele não se possa ver. É pura poesia pop, arte contemporânea trash, um programa “larger than life” que ultrapassará sempre qualquer ficção imaginável. E, além disso, contém um subtexto sexual intrigante: Sílvio Santos, um homem de microfone em riste, a atirar maços de dinheiro ao calhas para uma audiência de mulheres ávidas, que se atropelam e empurram para conseguirem pagar as compras da semana. Ou seja, Sílvio Santos conseguiu o que muita gente sonhou e não alcançou: ele ejacula dinheiro. E, no final, ainda se ri. Com dentes cirurgicamente brancos, evidentemente.
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