Red Hot Chili Peppers em São Paulo, ou o turista rock

Sabem aquela coisa de turista e viajante serem diferentes? O turista frequenta, o viajante está. O turista quer conforto, o viajante quer experiências. O turista passa férias, o viajante passa riscos. Etc, etc, já entenderam. Basicamente, ponham um japonês de máquina fotográfica ao lado do Bill Bryson e está feita a distinção.

Ia mostrar agora a batalha de lama durante o show dos Greenday no Woodstock de 94, mas não simpatizo especialmente com Greenday, porque acho que eles castraram o rock e foram o peido que espoletou essa série de bandas de pop proto punk que andam por aí aos caídos, como os Blink 182. Por isso, vai o vídeo de Primus do mesmo festival.

A espiral confusa e autofágica que o público faz e o fato de estarem pouco a cagar-se se a lama os suja desde que estejam no meio desse círculo moshante quase xamânico era normal. Grunge, início da era Clinton, anos de escuridão republicânica, extravasar a depressão criada pela felicidade synth pop dos anos 80.

Agora, vejamos este vídeo do show de ontem dos Red Hot Chili Peppers em São Paulo.

Este vídeo foi tirado da área VIP. Só por si, já é uma descoberta do caralho. A ideia que um dia um promotor de concerto pensou, “se nós criarmos uma área cercada à frente, conseguimos meter lá toda a gente que está disposta a pagar mais do dobro do bilhete normal só para ter esse conforto, para tirar fotos e ouvir melhor o som”, foi tão boa como se Van Gogh tivesse cortado a orelha para ficar mais bonito. Rock é liberdade e energia – não é a porra de uma grade que te impede de ir para onde queres e te dá mau som se estiveres mais atrás. A ideia de um show como experiência terminou. Parece que vendemos uma simulação do que o rock foi em pílulas leves que qualquer um pode tomar, em vez do real deal.

Mais: contem o número de pessoas que estão a gravar o show com o celular/câmera. Dezenas. E isto só na área VIP. Eu, que estava na pista comum com o povo que só pagou 200 reais, queria moshar. Moshei pela primeira vez aos 15 anos em Vilar de Mouros. Cheguei a casa com a cara coberta de pó, funguei uma mistela negra durante 3 dias, mas, porra, senti-me vivo. E ontem mesmo os putos fixes com metade da minha idade que estavam ao meu lado só mosharam um bocadinho, durante a By The Way. Nem na Give It Away arrancou grande coisa. Ao menos não gravaram nada com o celular.

Ou seja: de 94 a 2011, alguma coisa aconteceu que transformou os ouvintes de rock em turistas de rock e tornou os Red Hot Chili Peppers, que no Woodstock de 99 foram acusados de incitarem ao estupro de mulheres e invasões e destruição de propriedade só por terem tocado a “Fire” do Jimi Hendrix, num espectáculo em que não se participa, antes se fotografa a partir da pista VIP. Um espectáculo equilibrado, em que se sabe o que vai ter, e que não é mau, mas não surpreende. Porque não tem descontrolo. E o descontrolo importa muito nestas coisas.

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