A pior viagem da minha vida

1. SÁBADO: SÃO PAULO
Cheguei ontem de uns dias em Minas Gerais. Comi muito bem e sinto o estômago inchado até agora. Penso que, quando voltar ao Brasil no início do ano, depois de passar o Natal em Portugal, vou recomeçar a correr para abater a barriga.

Eu não sei ainda como os nutrientes acumulados no meu corpo serão preciosos nos meus próximos dias.

Converso no Skype com a minha mãe. Ela pergunta-me quais voos eu vou apanhar. Há uma semana, antes de partir para Minas, deixei já a mala de Portugal semifeita, bem ao contrário do meu hábito de deixar tudo para a última hora. O papel com o itinerário está prontinho, impresso em cima da mesa. Pego, leio e reparo em algo que não reparara meses antes quando comprei o bilhete, algo que sempre evitei fazer ao marcar passagens: o meu voo da Latam vai chegar a Heathrow, mas, para ir para o Porto, vou ter de ir até Gatwick, outro aeroporto de Londres, e apanhar um da British Airways. Apesar de ter quatro horas entre um e o outro, fico inquieto.

Faço pesquisas. Um site, já não sei se da British Airways ou do próprio aeroporto, recomenda os buses da National Express para fazer o translado e reservar 3 horas para fazer a viagem.

Esboço mentalmente o plano de chegar a Heathrow, pegar as malas e, se estiver apertado de tempo para apanhar o National Express, aproveitar o Wifi do aeroporto para chamar um Uber que me leve até Gatwick.

À noite, vou até Guarulhos e tento fazer o check-in na maquininha antes de despachar as malas, mas a maquininha não deixa. O rapaz da Latam diz-me que é por causa da mudança de voo e de aeroporto que vou ter de fazer, e manda-me direto para o balcão, onde sou atendido por uma moça muito simpática. Ela diz-me que, realmente, eles não têm serviço de transfer entre os aeroportos, mas que as quatro horas entre um voo e outro chegarão para pegar a bagagem e fazer a viagem. Para ser mais prático ainda, já me faz o check-in para o segundo voo.

O que nem ela nem eu esperávamos era a tempestade Ana. Mas isso vem mais à frente.

2. SÁBADO-DOMINGO: O VOO PARA HEATHROW
Embarco por volta das 23h30 no voo da Latam depois de uma das maiores filas de embarque que já vi. Esqueci-me de pedir no check-in um lugar no corredor, que sempre prefiro, e acabo sentado numa das cadeiras centrais, entre uma moça com longuíssimas unhas de gel e uma mulher de meia idade com cara de índia que tinha as instruções da tela de entretenimento em francês. O voo corre bem, com pouca turbulência, e, para variar, consigo até dormir umas horas boas, talvez porque não tomei café depois do jantar ou talvez porque os episódios de Friends que estava a ver me deram sono.

O avião chega a Heathrow às 12h30 de domingo, uns maravilhosos 45 minutos antes do previsto. Fico contente e penso que o futuro está a sorrir para mim. Porém, nada acontece, e o avião fica parado na pista. Os minutos transformam-se em quartos de hora, os quartos em meias horas, e nós parados, sem poder sair. O comandante explica que estão à espera de autorização da torre para estacionarem e que, por causa das condições meteorológicas, ela poderá demorar. Olho pela janela: o dia está feio e chove. Imagino que a tal tempestade Ana, sobre a qual tinha ligo fugazmente antes de partir, tenha deixado o aeroporto com muitos aviões em fila para estacionar. Ligo o celular. O meu TIM pré-pago não faz roaming, como já esperava, e a distância do terminal impede-me de acessar o Wifi do aeroporto. Reparo que a moça das unhas de gel está a conversar no Whatsapp e peço para mandar uma mensagem para a minha mãe, só para ela não ficar nervosa com a falta de notícias.

3. DOMINGO, 14h40-15h40: HEATHROW E O TÁXI
Pelas 14h40, finalmente conseguimos chegar ao terminal. Na saída da manga, digo a um rapaz da Latam que tenho um voo em Gatwick às 17h10 e já tenho o check-in feito. Será que ainda consigo pegar? Sei que é longe, mas não sei ainda que são uns belos 70km. Ele diz-me que sim e que posso pegar um bus direto da National Express ou, se precisar, um táxi lá fora.

Corro para as malas, mas a esteira demora um pouco para arrancar. Pego o celular e tento acessar o Wifi. Por alguma razão técnica, apesar de conseguir ligar-me à rede, nada funciona. Não há nem aviso para abrir uma conta em algum site estranho que me dê acesso. Esqueço o Wifi. Finalmente, uma mala aparece na esteira, mas a outra demora e demora e demora…

Agitado, reparo que algumas malas foram retiradas pelo funcionário do aeroporto e colocadas numa fila ao lado da esteira. Vou fuçar, e encontro a minha segunda mala. Olho o relógio: são 15h40, e o meu voo de Gatwick sai às 17h10.

Sem Wifi para chamar o Uber, vou para a fila de táxis. Pergunto se dá para pagar com cartão de crédito – dava – e entro pela primeira vez na minha vida num daqueles táxis engraçados de Londres, com um grande espaço traseiro, onde dá para colocar as malas e ainda sentar mais umas três pessoas em bancos que dobram. Quase uma minilotação. Estou preparado para pagar uma pequena exorbitância, mas tudo bem, pelo menos vou apanhar o avião e reencontrar a minha família, que não vejo há meses, nesse mesmo dia. Para Gatwick, passamos por uma autoestrada, e há avisos de que colocaram sal na via para derreter a neve. O trânsito está pesado, mas anda: o famoso “compacto, mas fluido” que escutei algumas vezes nas notícias das rádios portuguesas.

Pergunto ao taxista a que horas vamos chegar, e ele diz-me que às 16h40. Como tenho malas para despachar, começo a pensar que já não me vão deixar embarcar, mas conforto-me com o pensamento de que já fizera check-in em São Paulo e que isso valeria para alguma coisa.

Mal sabia eu que sair de Heathrow seria o meu grande erro no meio de toda esta história.

4. DOMINGO, 16h43- 20h30: GATWICK
Às 16h43, o taxista deixa-me em Gatwick. Entro no terminal e corro até ao check-in da British Airways, onde três moças de uniformes azuis conversam e riem. Esbaforido, digo que venho de Heathrow e que tenho um voo para apanhar. Uma delas mexe no computador e, com cara desolada, diz-me que “computer says no”: apesar de o voo ainda não ter saído, já não conseguiriam despachar as malas. Por dez minutos – dez fodidíssimos minutos. Pergunto se não dá mesmo para fazer nada. Com voz condoída, lamenta-se que não e recomenda-me ir até ao balcão de Sales and Reservations.

Este balcão fica ao fundo do terminal, depois dos check-ins. Uma fila de pessoas espera para ser atendida por três funcionários com expressões muito cansadas. À minha frente, estão vários indianos cheios de bagagens a caminho de um intercâmbio em Vancouver. Ao meu lado, um casal de espanhóis fora expulso do avião porque o rapaz tivera um ataque de ansiedade e o comandante não esteve para o aturar. No balcão dos que pagam mais, uma italiana rabugenta resmunga algo do estilo “Claro, temos que aturar, não é? Qualquer país tem algo assim. Na Índia, temos que aturar as vacas na rua, porque tem que ser. E aqui temos que aturar as companhias aéreas!”. Até a espanhola do ataque de ansiedade ao meu lado soltou um “¡Pues, que pesado!…”.

Depois de esperar uma hora, sou atendido por um moço louro, de óculos redondos e que se chamava Harry. Conto-lhe a minha história. Ele conferencia com a sua colega e diz-me que a culpa é da Latam: apesar de o avião ter aterrado 45min antes da hora, o fato de só ter conseguido sair do voo deles horas depois do previsto torna-os responsáveis por custearem as minhas despesas de estadia e alimentação e por marcar um novo voo para eu seguir para o Porto. E nesse momento percebo que virei uma pequena e insignificante peça num jogo do empurra entre duas companhias aéreas. Digo “bem, vocês são parceiros da Latam. Você pode entrar em contato com eles por mim?”.

“Infelizmente, você mesmo é que terá de fazer isso. É uma pena, porque eles não têm balcão aqui em Gatwick. Mas vou-lhe dar o contato deles”. Harry pesquisa “Latam” no Google, dá-me o número deles para a Inglaterra e diz-me que, se precisar, que volte ali para falar com ele.

O meu celular continua a não querer entrar nos Wifis dos aeroportos de Londres. O TIM, claro, é como se não existisse. Em vez de pagar uma batelada num telefone público, decido comprar um “SIM card” (inglês para chip de celular/cartão de telemóvel). Encontro um desk de uma operadora inglesa e a moça vende-me um com um monte de minutos para falar e 10 gigas de dados.

Eu mal sabia, mas, mais tarde, este SIM card vai salvar-me.

Vou fumar um cigarro e aproveito para ativar o SIM card. Estou a ficar cansado de carregar as malas e arranjo um trólei, coisa que não fizera antes porque em Gatwick é preciso colocar uma moeda para soltar o bicho e, na correria, não tivera tempo de procurar 1 euro na mochila. Volto ao terminal, ligo para o número de Latam e fico muito surpreendido por não ser atendido por pessoas na Inglaterra e sim pela mesma linha de SAC do Brasil. Expliquei a minha situação ao atendente, mas ele diz-me que não consegue fazer nada e dá-me um número de São Paulo para ligar. Tento ligar, mas por alguma razão, o SIM card dá ruim e uma voz inglesa pré-gravada diz-me que não tenho mais créditos. Mas o pacote que comprei não dava não sei quantos minutos internacionais?! Bem, deixa. Tento ligar os dados de internet, mas também não consigo. Tenho então a idéia de ligar o laptop, que carregava na mochila e tinha alguma bateria, ao Wifi do aeroporto. Consigo, e converso no Facebook com a minha mãe e a minha namorada, a quem passo o número da Latam de São Paulo. Ela fica uma hora a tentar que alguém me ajude, mas dizem-lhe que não podem fazer nada. Entretanto, confirmo também que a Latam tem um balcão em Heathrow.

São umas 19h e começo a pensar que de Gatwick não me vou safar. Olho para o lado e vejo Harry saindo. Chamo-o.
“Harry, os números de telefone não funcionaram. Estou a pensar que o melhor para mim será voltar para Heathrow e conversar com a Latam lá, cara a cara. Diga-me com sinceridade, se você estivesse na minha situação, o que você faria?”.
Harry solta um sorriso de empatia e diz-me que eu estou certo. Agradeço, mas penso “em Guarulhos havia pessoas da Latam até à meia noite, mas será que aqui há?” Porém, é a melhor alternativa que tenho até agora, então é isso que vou fazer.

Sem nenhum interesse em pagar mais uma fortuna num táxi, vou até o balcão do National Express e compro um bilhete para o próximo bus para Heathrow, às 20h05. Está muito frio, algo como 1 grau centígrado, e, enquanto espero, aproveito e tiro da mala um par de meias, que calço sobre as que já tinha, e uma camisa, que visto sob os dois casacos que já tinha.

Todos os indianos que estavam no Sales and Reservations apanham esse mesmo bus e o motorista demora uma meia hora só para carregar as malas de todos os passageiros. Além disso, ele para nos terminais 5 e 4 de Heathrow antes de chegar ao meu, o 3. Por isso, só cheguei realmente ao terminal às 21h30. A coisa boa foi que, enquanto viajava, tive a brilhante idéia de desabilitar o chip brasileiro e consegui finalmente fazer o SIM card funcionar. Por fim, tinha acesso à internet sem ter que depender de Wifis públicos e instáveis.

5. DOMINGO, 21h30-00h: DE VOLTA A HEATHROW
Entro no terminal. Há um monte de pessoas sentadas e deitadas pelo chão. Como eu, são vítimas da tempestade Ana, dos overbookings, dos atrasos e dos aeroportos sobrelotados. Vejo um balcão da Latam, mas o que temia aconteceu: está fechado e só abre amanhã. E não abre às 7, 8 ou 9 da manhã, mas a umas terríveis 15h30.

O que fazer? Desistir, ir para um hotel e amanhã à tarde voltar ao aeroporto para exigir à Latam que me reembolsem e me ponham a caminho de Portugal? Com esta gente toda deslocada e a precisar de voo, quando poderei esperar chegar? Na 3ª feira? Na 4ª? Estou cansado, a última coisa que comi foi o café da manhã no avião que me trouxe até Londres. Não quero arriscar ficar a saltitar de avião pela Europa, quero ver a minha família.

Mudo então o meu plano. Vou comprar um novo voo. Não sei como ou por qual companhia, mas não saio deste aeroporto sem um voo marcado.

Quase todos os balcões de check-in estão fechados, mas no da Royal Jordanian há dois funcionários, um homem amaneirado e uma moça bonita. Pergunto-lhes se há algum lugar no aeroporto onde consiga comprar bilhetes para o Porto. Dizem que não, que terei de esperar a manhã seguinte, mas aconselham-me ir para o piso superior, onde há um internet café e poderei tentar comprar online. Subo pelo elevador e encontro um grupo de portugueses que também ficaram apanhados pela tempestade. Entre eles há um casal que está preso em Londres desde as 5 da manhã da noite anterior.

Não vou ao internet café – afinal, tenho um laptop e um celular com dados – e sigo até ao único coffee shop aberto. Fico em pé, do lado de fora, encostado ao balcão onde as pessoas tomavam cappuccinos. O meu celular está com bateria baixa e, com todo o descaramento, sem nem entrar no estabelecimento, ligo-o na estação de carregamento gentilmente disponibilizada para clientes pagantes.

Com o laptop na frente e celular na mão, corro todos os sites de venda de bilhetes de que me consigo lembrar: Skyscanner, Mytrip, Travelgenio. Em Portugal, a minha mãe chama a mulher do meu padrinho, que tem uma agência de viagens, e pede-lhe para ver o que encontra de bom. Não temos sorte: caros ou baratos, só encontramos voos para 3ª feira ou que demoram mais de um dia. Lembro-me do Gotogate, um site de viagens finlandês onde já uma vezes comprei viagens boas. Entro e – milagre! – encontro um lugar num voo da TAP às 10h10 de amanhã, saindo do London City Airport e chegando ao Porto às 15h com escala em Lisboa. O preço, considerando a pouca antecedência, é bem aceitável, e o fato de ele não sair destes bodiantes Heathrow e Gatwick parece-me um bom presságio.

Clico para comprar, preencho tudo o que é de preencher, mas o site co.uk não me aceita o cartão de crédito brasileiro. Tento de novo – volta a não aceitar. Estou em pânico e com pressa. O laptop, onde conversava com a minha mãe e a mulher do meu padrinho, fica sem bateria e apaga-se. Fico só com o celular na mão. Ponho o número do cartão de crédito da minha mãe, mas o site pede uma autenticação estranha qualquer e também não aceita. Ainda tento o meu de novo, e sou recusado de novo, antes de pôr o do meu pai. O site diz-me que lhe mandou um código de autenticação para o telemóvel. O meu pai manda-me o código pelo Facebook, eu insiro… e o bilhete é comprado! O número da reserva é enviado para o meu email, e eu escuto anjos a cantar!

Ainda fico desconfiado – afinal, esse assento vago não aparecia à mulher do meu padrinho de maneira nenhuma -, mas, depois de meia hora sem chegar um email fatídico cancelando-me a reserva, considero que tenho uma viagem comprada.

Mais relaxado, vou fumar um cigarro. Vejo dois dos estudantes indianos que estavam à minha frente na fila em Gatwick e meto conversa. Digo-lhes que estou no meio de uma viagem interminável, e eles dizem-me que passam pelo mesmo. Conversamos um pouco e percebo que eles são bem mais novos do que parecem: ainda no secundário, vão fazer esse intercâmbio para ajudá-los no seu intencionado curso superior de Informática. Eles são simpáticos e, antes de nos despedirmos, peço para tirarmos uma foto juntos.

6. SEGUNDA-FEIRA, 00h-1h10: O UBER
É tarde já. Decido que não vale ir à meia noite para um hotel para apanhar um avião às 10h10. Afinal, para que me serviu ter feito Interrail aos 23 anos se não para me ensinar a dormir em estações? O melhor é aproveitar o pouco trânsito, ir já para London City e tomar um café, dormitar um pouco, carregar o celular e o laptop, enfim. Os braços doem-me por carregar as malas de um lado para o outro e decido chamar um Uber. Pergunto a dois funcionários do aeroporto onde será o melhor lugar para apanhar um, e eles dizem-me para ir até à cabine do estacionamento em frente, onde eles normalmente param.

Chamo o Uber. Tanveer, que na foto parece indiano e sorridente, aceita a missão e vem. Porém, apercebo-me que, apesar de eu ter dado a indicação do GPS, o Uber não marcou o lugar exato onde estou. Tento ligar para Tanveer para avisá-lo, mas o número memorizado no app é o brasileiro e não sei o número do SIM inglês que comprei. Na rua gelada, ao lado dos taxis, não há ninguém a não ser um homem de capuz a alguns metros de mim. Aproximo-me.
“Senhor, desculpe: por acaso o senhor tem um telefone com número inglês?”.
“Tenho sim”.
“Eu comprei um SIM, mas não sei o número dele. Eu poderia ligar para o seu telefone para você me dizer o meu número?”.
O homem não esboça nem um esgar de estranheza, mas é muito prestável e de imediato faz o que lhe peço. Coloco o número no app do Uber e consigo ligar para Tanveer.
“Tanveer? Sou Jorge, o seu passageiro. Eu não consegui ligar antes, mas estou perto da cabine roxa do estacionamento”.
“O quê? Porque não disse antes? Eu já estou aqui à espera no desembarque. Para chegar aí vou demorar uns 10 minutos… talvez seja melhor cancelar! Você vai para onde?”
“Para o London City Airport”.
Com o olho nos 60km de viagem, Tanveer diz que, tudo bem, então ele vem até mim.

Apesar da agitação ao telefone, Tanveer é bem simpático. Diz-me que gosta do Cristiano Ronaldo e que veio muito jovem da Índia, mas não sei se percebi bem esta última parte, porque, pouco depois, quando lhe digo que no Brasil o pessoal tem uma fixação por beijar, ele responde-me dizendo que as mulheres deles tem uma coisa por fazer sexo por trás. “Perdão?”. “Sim, elas gostam de sexo por trás! É uma característica delas!”. “Mas das indianas, você quer dizer?”. “Então, as nossas mulheres, do Dubai, da Arábia, de Marrocos”. Deixei o tópico passar e, portanto, acabei por não perceber nem de onde Tanveer era nem quem são essas mulheres obcecadas por sexo anal.

Durante a viagem, Tanveer diz-me que não sabia que a TAP saía de London City. É um aeroporto pequeno, diz ele, saem mais voos fretados e domésticos. Fico desconfiado que comprei um bilhete tipo Ryanair, onde só posso levar uma mala de cabine. Vejo o site da TAP e parece que é isso mesmo. “Bem”, penso, “devo conseguir despachar as malas por uma taxa extra”. Toco na medalhinha de São Cristóvão que sempre levo ao peito e repito: “pelo amor de deus, que consiga despachar as malas por uma taxa extra”.

7. SEGUNDA-FEIRA, 1h10-1h45: LONDON CITY AIRPORT
Tanveer deixa-me na entrada de um aeroporto pequeno e isolado, com nenhum movimento em volta, e parte. Não sei, mas a coisa não me cheira bem. Entro. À minha frente está um corredor longo com máquinas de check-in. Do meu lado direito, umas portas automáticas de vidro, através das quais vejo um lobby normal de aeroporto, com balcões de check-in e cafetarias. Neste momento, isto parece-me o eldorado, mas está tudo fechado e não se vê vivalma. “Bem”, penso, “pelo menos fico sentado”. Aproximo o trólei das portas, mas elas não se abrem. “Não…”. Olho com atenção: à minha frente, um letreiro diz que o aeroporto só abre às 4h30. “Puta que pariu…”. Ok, foco. Preciso ir ao WC e tem que haver um por aqui. Sigo o corredor das máquinas de check-in até ao fim, mas ele só leva até uma sala larga com caixas de banco automáticas e máquinas para comprar bilhetes de transportes. Nada de WC.

O corredor não tem ar condicionado e a noite está gelada. Impossível aguentar horas à espera que o aeroporto abra.

De repente, abre-se uma porta e um segurança alto aparece na minha frente.
“O que o senhor está a fazer aqui?”
“Eu não sabia que o aeroporto fechava à noite”.
“Peço desculpa, mas não pode ficar aqui. Razões de segurança”.
“Há algum lugar em volta onde possa ficar?”
“Não. E não pode ficar aqui”.
“Posso pelo menos usar o seu WC rapidamente?”
“Não”.

Este é o momento em que levo a mão ao rosto e, com a voz fraca, não consigo dizer mais nada a não ser “amigo… estou no meio da pior viagem da minha vida”. Na voz do homem, percebo que ele se condói. E ele diz-me uma coisa que depois me vai ecoar algumas vezes na lembrança: “you’ve got to brave it”. Tens que enfrentar a situação, ser valente.

Ele tem razão. Levanto a cabeça e ele diz-me que, ali ao lado, há o Travelodge. “É tipo um hotel, devem deixá-lo ficar pela recepção. Dá uns 10 minutos de caminhada”.
“Mas eu tenho estas duas malonas… posso levar o trólei até lá?”
“Não posso deixá-lo levar o trólei até lá. Mas pode pegar o bus aqui na frente, ele deixa-o lá”.
“Ele aceita euros?”
“Só libras. Há uma máquina lá dentro onde pode sacar”.

Vou até ao caixa automático e, com o cartão de débito português, levanto umas 20 libras. Saio e acendo um cigarro, mas logo chega um bus. Jogo o cigarro fora, entro no bus e pergunto ao motorista se passa no Travelodge. Ele diz-me que não, mas o 747 passa. Saio, acendo outro cigarro e também não o consigo fumar até ao fim, porque logo vem o 747. O motorista é um indiano novo, e diz que, sim, passa no Travelodge. Ponho 10 libras na janelinha que nos separa e ele abana a cabeça.
“Não aceito dinheiro, você vai ter que ir lá dentro comprar o bilhete e pegar o próximo”.
A frase bate-me como um bofetão de cansaço na cara. Olho em volta, desorientado, para as malas, para o aeroporto, para o bus quase vazio, para ele, que me encara com pena.
“Você só vai até ao Travelodge?”.
“Sim”.
“Entra aí”.
Se não houvesse um vidro entre nós, daria um beijo neste homem.

8. SEGUNDA-FEIRA, 1h45-4h20: O TRAVELODGE
O Travelodge fica só a uma paragem de bus do aeroporto. Aos tropeções, carrego as duas malas até à entrada. Penso que estou a perder a força e que tenho de comer alguma coisa. É um hotelzinho simples para viajantes. De fora, vejo que tem um lobby pequeno e, graças a deus, uma cafetaria. A porta de vidro abre-se e um rapaz na recepção pergunta-me se eu estou lá hospedado.

“Então, amigo, eu não estou… eu vim para o aeroporto, mas não sabia…”
“… que ele fechava à noite”, diz o rapaz a rir-se.
“Será que eu posso ficar um pouco aqui até ele abrir?”
“Sim, mas fique aqui nos sofás do lobby. A cafetaria está a ser limpa”.
“Poderia tomar um café?”

O homem que limpava a cafetaria ouve a conversa e resmunga “o que é isto, a Amnistia Internacional?”. Não sei se ele pensou que eu estava a pedir caridade ou se a cafetaria é exclusiva para os hóspedes. Mesmo assim, ele lá acaba por oferecer-me um café e eu aceito a oferta.

Ainda estou a precisar ir ao WC e, entretanto, o recepcionista desapareceu. Pergunto ao homem da cafetaria se há uma casa de banho que possa utilizar e ele diz-me, quase gritando, “Peça ao recepcionista! Não tenho nada a ver com isso!”. O recepcionista aparece, abre a porta do WC e consigo, finalmente, fazer xixi.

Reparo que há uma máquina com chocolates e salgados e penso que deveria comer alguma coisa. Não que tenha fome, mas já sinto dor nos braços de carregar as malas: preciso de energia. Compro umas bolachinhas salgadas e um Kinder Bueno, mas só a custo consigo comer o chocolate. A adrenalina tirou-me a fome e não me deixará dormir enquanto não estiver a caminho de Portugal. Sento-me no sofá e fecho os olhos, mas não consigo dar mais do que umas piscadas.

Entretanto, um rapaz de barba bate no vidro lá fora e indica-me que a porta automática está travada e não abre. O recepcionista aparece, abre a porta e ele entra, junto com uma moça de cabelo curto. Ele é Borja, espanhol; vem de São Francisco e vai para Bona. Ela é a Svitlana, ucraniana; mora na Inglaterra e vai para Zurique. Estão na mesma situação que eu, fazendo tempo para que abra o aeroporto que ninguém sabia que fechava. Dali a pouco, entra um homem magro de cabeça rapada. É o Jorge, português. Anda a viajar há semanas e acabou por ficar retido em Londres sem conseguir um último voo que o levasse para casa. O Borja e a Svitlana já têm reservas, o Jorge anda a percorrer os aeroportos londrinos a ver se consegue um bilhete milagroso. Acho que todos nos sentimos melhor, não tão sozinhos, e ficamos umas horas a conversar sobre os países de onde somos e aqueles onde moramos, sobre as diferenças de línguas, sobre as nossas profissões, sobre aviões cancelados, overbookings e as malditas companhias aéreas.

Pelas 4h15, decidimos ir até ao aeroporto. Antes de sair, agradeço mais uma vez a gentileza ao recepcionista e digo-lhe que ele é uma pessoa muito boa. E falo alto, para que o mal-humorado na cafetaria ouça.

O Jorge adverte do frio que está lá fora, mas, neste momento, consigo até enfrentar um furacão. Oferece-me ajuda com uma das malas, mas eu recuso: quero ir para casa abraçar a minha família e carrego tudo o que for preciso. “Brave it”, disse o segurança do aeroporto, e eu vou brave it até ao fim.

Ambas as malas têm rodas, mas só uma tem pega de mão, e a que não tem começa-me a pesar pelo meio do caminho. Pouso-a na calçada, esbaforido. O ar gelado atrapalha-me a respiração. Penso em aceitar a ajuda do Jorge, mas ele e os outros já estão mais à frente. Brave it, meu. Enfio um dedo numa argola de ferro que a mala tem em cima e faço as rodas dela girarem. O dedo começa a doer. “Brave it” – troco de dedo. O segundo dedo começa a doer – “brave it”, e troco de dedo outra vez. Chego ao aeroporto cansado, com os dedos e os braços doridos, mas vivo e pronto para deixar Londres.

Mas ainda tenho que perceber como vai ser a questão das malas.

9. SEGUNDA-FEIRA, 4h30-10h10: DE VOLTA A LONDON CITY
As primeiras funcionárias a chegarem ao aeroporto asseguram-me que não vai haver problema com as malas: pago uma taxa a mais e poderei despachá-las sem problema. Só tenho de esperar até que o balcão da TAP abra 2 horas antes do voo, ou seja, às 8h da manhã. “Puta que pariu o esperar”, penso. O Borja e a Svitlana vão esperar que o balcão da British Airways abra às 5h, o Jorge vai esperar que o desk de venda de bilhetes abra às 5h e eu vou esperar que a TAP abra às 8h. Enfim, já estive pior. Respiro fundo. O Borja diz “eu agora só vou descansar quando tiver o cartão de embarque impresso na mão!” e eu penso que é uma bela idéia. Faço o check-in numa das máquinas da entrada e, quando vejo o cartão de embarque sair dela, sinto-me como um mineiro que acaba de descobrir um filão de ouro.

O Jorge pergunta-me se eu consigo ver se ainda há bilhetes para algum voo hoje. Abro o Gotogate, mas eles já só têm lugares para amanhã. Penso “ainda bem que eu comprei ontem…”. Ele vai tentar no balcão da British. Acaba por comprar um bilhete para amanhã mesmo e despede-se: vai alugar um quarto no Travelodge e esperar por lá. Aproveito para ir ao WC e para me sentar num coffeeshop, onde carrego a bateria do celular, tomo um café e como um sanduíche, a minha primeira proteína em umas 18 horas. O Borja e a Svitlana também vão resolvendo as vidas e partindo, mas antes ainda tiramos uma foto juntos.

Enquanto espero dar as 8h10, vejo o lobby do aeroporto encher-se de pessoas, formando uma fila quilométrica que começa no raio X no piso superior, desce a escada, dá várias curvas através de um caminho de separadores instalado pelos funcionários e termina na porta de entrada. Pergunto-me se duas horas vão chegar para enfrentar essa fila e chegar a tempo ao avião ou se me vai acontecer o mesmo que em Gatwick. Respiro fundo. “Brave it”. A adrenalina baixou, e fico a saltitar num e noutro pé para não deixar o sono vencer. Vou lá fora, fumo. Compro uma garrafa de meio litro de água que bebo inteira em 5 minutos.

De repente, o logo da SwissAir dá lugar ao da TAP no painel sobre o balcão do check-in, e eu sou o primeiro a chegar. As malas – obrigado, Deus e São Cristóvão – não são um problema e consigo despachá-las.

Vou então enfrentar a fila gigante de raio X. Fico impressionado: não paro um único segundo e chego às máquinas nuns brevíssimos 20 minutos. Uma mulher com cara de poucos amigos diz “Isto aqui não é Heathrow ou Gatwick! Somos um aeroporto rigoroso e não deixamos passar as coisas pequenas! Tirem tudo das malas!”. Como se fosse um atleta numa prova olímpica, em poucos segundos tiro o cinto da cintura, o laptop da mochila e enfio os liquidozinhos que levava numa sacola plástica que me tinham dado antes. Passo pela máquina e ela não apita, mas uma moça aparece na minha frente e resmunga “senhor, o que você tem no bolso?!”. Olho e tiro a minha tapadeira de olhos, que uso para dormir no avião. Ela mexe nela para ver se não esconde nada perigoso e devolve-ma sem dizer nada. Depois de recompor a mochila e a roupa, viro-me para uma funcionária, a mesma com quem tinha conversado sobre as malas quando o aeroporto abriu, e digo-lhe com sinceridade “minha senhora, esta é uma das melhores operações de segurança que alguma vez vi”. Ela sorri.

Só me resta ir para a área de embarque e esperar o meu voo. Arranjo um lugar em frente a um painel com os horários e logo me sobressalto: o tempo lá fora parece estar a piorar de novo, há vários voos atrasados e o da Lufthansa que sai 5 minutos antes do meu aparece como cancelado. “Por favor, não me cancelem o voo… por favor, não me cancelem o voo…”. Tenso, arranjo um método para descansar um pouco sem perder de vista o painel: fecho os olhos e durmo um micro-sono enquanto conto mentalmente até 60. Aí abro os olhos de novo e vejo o que mudou nesse minuto. É difícil: enquanto eu faço isto, um rapaz inglês ao lado conta aos amigos o seu método para ter milhões de views no Youtube, conversa que faria dormir mesmo quem não está acordado há 24 horas.

O voo da TAP aparece. Parece estar no horário, mas não tem o portão escrito. Fico temeroso que na próxima atualização de horários ele apareça com atraso ou cancelado. “Por favor, não cancelem o voo… por favor, não cancelem o voo…”. De repente, pelas 9h45, o portão aparece, e o horário continua o mesmo. Vou para lá quase a correr e espero para entrar. A fila é longa e não anda, mas, neste momento, acho que qualquer fila me pareceria longa, e é isso mesmo que repito para me acalmar. “Neste momento, qualquer fila te pareceria longa. Não desconfies de tudo. Vai tudo correr bem. Brave it”. De repente, a fila começa a andar. Não há nem manga nem shuttlezinho para nos levar até ao avião, mas ele está mesmo ali, a poucos passos. A chuva cai-me na cabeça, mas nem a sinto.

10. SEGUNDA-FEIRA, 10h10-14h15: O VOO PARA LISBOA
Quando ponho o pé dentro do avião, digo ao comissário de bordo que tenho uma ligação para o Porto às 14h. “Dá para apanhar! Estamos um pouco atrasados, mas vamos conseguir recuperar o tempo lá em cima. De qualquer forma, a TAP tem muitos voos Lisboa-Porto. Se não der, não vai ter problema em remarcar”. Eu sei que ele tem razão, mas remarcar voos perdidos não é a coisa que mais me apetece neste momento. Enfim, oremos.

Sento-me no meu lugar com satisfação. Depois de um dia a correr de aeroporto em aeroporto, finalmente estou dentro de um avião com destino ao meu país. Ponho a tapadeira sobre os olhos e preparo-me para dormir umas horas, mas apercebo-me de uma coisa estranha: a porta do avião continua aberta, com o comissário a olhar para fora, para a escada ainda montada. Mas o que é isto agora?

Funcionários com coletes fluorescentes aparecem de vez em quando e vão falar com os pilotos na cabine. Finalmente, o comandante diz o que se passa: por faltar uma documentação técnica qualquer, não estão a deixar o avião sair. Ele espera que o pessoal de terra da TAP consiga resolver a situação nuns 50 minutos. Lembrei algo que o Borja me tinha dito: que uma vez lhe cancelaram o voo quando o avião já estava em movimento, prestes a decolar. Tento dormir um pouco, mas na minha mente ecoa-me a frase “por favor, não cancelem o voo… por favor, não cancelem o voo…”, e continua a ecoar até que, com mais ou menos uma hora de atraso, o avião sai do chão, atravessando as nuvens de chuva com destino a Lisboa. Neste momento, por fim, eu apago de sono.

11. SEGUNDA-FEIRA,14h15-16h: LISBOA
Depois de sonhar com uma escultura branca cujas formas iam mudando devagar, chego a Lisboa 15 minutos depois do horário da partida do meu voo para o Porto. Penso “Bem, vou remarcar, aproveito para ir ao WC e comer alguma coisa”. Sigo para a área dos voos de ligação e – surpresa – tenho que passar por um raio X de novo. Como se não fosse suficiente, há uma fila gigantesca e lentíssima. Entro nela contrariado, mas logo vejo uma moça da Groundforce lá na frente a orientar as pessoas. Aproximo-me dela.

“Menina, desculpe… eu já passei por um raio X em Londres, acabei de perder a minha ligação para o Porto e preciso remarcar”.

“Olhe, lamento, mas tem mesmo que passar aqui, e agora eu só consigo dar prioridade a quem vai para Marraquexe. Mas dou-lhe um conselho: se, ao sair, o balcão da TAP estiver muito cheio, vá direto até ao do portão”.

Guardo o conselho no bolso. Cansado, suado e meio desorientado, reentro na fila mais à frente do lugar onde estava – bem mais à frente, aliás. Decido então cometer um delito que em São Paulo quase me daria pena de prisão: furar a fila. O homem à minha frente queixa-se que acabara de passar por um raio X em Inglaterra, e eu puxo conversa com ele, dizendo que eu também, e que, sim, é um absurdo, e esta fila tão longa, um horror, uma ineficiência e etcetera e tal. As pessoas imediatamente atrás pensam que somos amigos de longa data e ninguém me incomoda.

Sim, companheiros, furo esta fila, e furo-a com uma categoria de príncipe! Poderia dizer que não me orgulho disso, mas estaria a mentir: orgulho-me tanto que penso nisso e quase rio sozinho.

Quando chego ao raio X, o homem pergunta-me se tenho líquidos.
“Tenho uns pequenos por aqui, estão numa sacola que me deram em Londres”
“É melhor tirar então, para evitar ter que revistar a bagagem”
Abro um dos fechos da mochila, remexo e remexo, mas não encontro o raio da sacola. Encolho os ombros. “Olhe, amigo, não sei”.
“Pronto, então passe”.

Passo o raio X e já nem tiro o cinto da mochila. O balcão da TAP está cheio, mas sigo o conselho que a moça me dera e sigo até ao portão da Ponte Aérea Lisboa-Porto. Três rapazes estão atrás de um computador ao lado de um portão e explico a minha situação. Um deles tecla no computador.
“Senhor, você até devia passar para o voo das 17h, mas vou conseguir pô-lo no das 16h”. Olho o relógio: só faltavam 40 minutos.
“E as malas vão seguir nele também?”
“Sim, senhor”.
“Amigo, você não imagina a felicidade que me está a dar. Estou a viajar há quase dois dias seguidos”.
“Obrigado, senhor. Eu entendo. Ontem saí daqui às duas da manhã por causa dos voos atrasados. A tempestade Ana atrapalhou tudo na Europa toda”.

Só tive tempo de ir ao WC e logo me chamaram para o embarque. O moço que me rasgou o bilhete diz-me “boa viagem, senhor Nande”. Desço para o shuttlezinho. Passo os dedos pelo cabelo, seco depois de quase dois dias de ares condicionados, ventos gelados e chuva. Subo a escada, sento-me e, depois de poucos minutos, o meu avião para o Porto decola.

12. 16h-17h: O VOO PARA O PORTO
O voo é tranquilo e rápido. O céu está limpo e, quando estou a chegar, consigo ver a espuma das ondas do mar e sinto o sol de Inverno a aquecer-me a cara. Penso no meu fim de semana, nas pessoas todas que me ajudaram e nas que não me ajudaram. Penso na minha namorada e nos meus pais, que se sentiram impotentes e preocupados e não dormiram enquanto me tentavam auxiliar por todos os meios que conseguiam. Fico com lágrimas nos olhos. Lembro-me do segurança de London City a dizer-me “brave it”, mas, não consigo, caem-me lágrimas dos olhos cansados, e é isso mesmo; neste momento, acho que mereço.

O avião aterra no horário e vou para a esteira. As minhas malas são as primeiras a chegar. Passo pela alfândega e não me mandam parar. Neste momento, não preciso pedir favores a ninguém, não preciso comprar mais bilhete nenhum, não preciso ir para mais filas. Só preciso atravessar a porta do desembarque, encontrar os meus pais, que não vejo há meses, beijá-los e abraçá-los. Preciso dizer à minha namorada que tudo correu bem, que estou em casa. E preciso lembrar-me do que aconteceu, porque não quero esquecer nada, nunca. Por isso escrevo isto.

13. MORAL DA HISTÓRIA
A verdade triste é que, em viagens, saber a língua ajuda muito, mas, acima de tudo, é de dinheiro que precisas para te safares. E, quantas mais materializações dele tiveres à disposição, melhor. Vivo, débito, crédito, crédito de vários países: tenta ter todas as que conseguires e não esqueças nenhuma.

Nunca te distraias enquanto compras um bilhete de avião. Mesmo que já tenhas comprado dezenas e raramente te tenham surgido pacotes com conexões em aeroportos diferentes da mesma cidade, isso pode acontecer. E não é bom.

Evita escalas em Londres ou em lugares com probabilidade grande de serem acossados por tempestades que atrasem os voos de toda a Europa.

Café, cigarros e frio matam e não podem ser defendidos. Também são do melhor que há para ficar acordado e alerta. Tira as tuas próprias conclusões.

Blanche Dubois dizia que sempre dependera da bondade de estranhos. Isso não é bom, mas ninguém está imune a passar por necessidades. Por isso, na próxima vez que um estranho te pedir um favor, pensa que pode ser só um rapaz que quer muito chegar a casa.

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Os cães

Devia ter uns 16 anos e voltava para casa à noite. Não sei porquê, decidi fazer um caminho alternativo e subir por uma ruazinha em vez de seguir na estrada principal. A meio da subida, vi uma matilha. Os donos dos cães deixavam-nos soltos à noite e eles juntavam-se para matar umas galinhas, comer lixo e foder. Os cães viram-me também, e eu soube que, se voltasse para trás, eles correriam atrás de mim. Então, segui em frente. Começaram a latir muito, mas eu não olhei para eles. Fixei um ponto no fim da rua e, de cabeça erguida, continuei, caminhando normalmente. Quando atravessei no meio deles, os cães enlouqueceram e eu senti medo, mas não parei, não corri e não desviei o olhar. O barulho era ensurdecedor e dois atiraram-se a mim de boca aberta. Senti os dentes deles na pele do meu braço, mas eles não fecharam a mandíbula, não me morderam. A volúpia deles era a de me assustar e o atrevimento acabava aí. Saí do outro lado da matilha, e os cães pararam de latir. Quando dobrei a curva, olhei para trás, temendo que me perseguissem. Não o fizeram. Nessa noite aprendi uma lição e sei exatamente qual.

Dilma andou de bicicleta na calçada


Dilma não é uma presidente competente. Ou melhor, não é uma política competente. Ela sabe resistir, mas não é ágil. Foi reeleita por um triz, não soube lidar com um Congresso adverso, não conseguiu impor políticas, perdeu eleitores, autoridade e voz.

Nada disso é base para um impeachment.

Estamos acostumados a ouvir falar em impeachment de políticos quando eles cometem abusos latentes de poder, como sonegação de dados, corrupção, apropriação indevida de bens públicos. As chamadas “pedaladas fiscais” de Dilma, por muito que sejam expedientes irregulares para lidar com um desequilíbrio nas contas públicas – do qual, diga-se, ela é responsável -, parecem uma desculpa esfarrapada para a oposição derrubar um partido que está há 14 anos no poder. É um pouco como se a presidenta fosse pega andando de bicicleta na calçada e castigada com uns meses de prisão. A pena não combina com a violação, e quem contesta o impeachment percebe isso muito bem.

Chamar o impeachment de golpe é exagerado. O processo está a seguir como deve, com o STF dando chicotadas regulares ao Congresso. Mas o mérito dele é, sim, errado. A oposição recorreu a ele como se fosse mais uma arma do arsenal, e não a bomba atômica que ele realmente é, o que revela também que ela é tão incompetente fazendo política quanto a presidente.

Ninguém sai bem deste processo. Ele é a prova de que os políticos brasileiros vivem numa redoma, jogando o seu jogo sem pensar em quem os elegeu e, até, no futuro do próprio jogo. O precedente aberto vai paralisar os próximos presidentes, temerosos de que qualquer ato de gestão possa vir a ser interpretado como uma irregularidade e castigado por um Congresso recheado de deputados calculistas e mais preocupados com o que podem ganhar do que com o futuro do país. A menos que o sistema político brasileiro seja reformulado de cima a baixo, isso vai irremediavelmente acontecer.

E há uma outra questão, mais imediata, a pensar: o dia seguinte. Pouco depois de eu ter chegado ao Brasil, Tiririca foi eleito deputado, e lembro-me da enorme polêmica que se criou sobre se um palhaço mereceria ser deputado. E os suspeitos de corrupção, Temer e Cunha – eles merecem ser presidentes? Onde está essa polêmica então?

Presidente fraca contra os brutos

dilma
A história é feita pelos vencedores e, neste momento, os vencedores estão à direita do PT. Não importa que o percurso do indiciado Eduardo Cunha seja dos mais sinistros na política brasileira, não importam os exageros alucinados de Bolsonaro ou Feliciano na defesa de visões trogloditas. O país só tem olhos para o fim do que há agora. As manifestações do 13/3 são anti-corrupção ou anti-Dilma? Ninguém sabe já muito bem. Não importa mais. As pessoas estão mais interessadas em sair do impasse em que se encontram. E, digam o que disserem os defensores do PT, Dilma tem muita culpa desse impasse.

No segundo mandato, Dilma mostrou que não está à altura de lidar com a crise econômica, muito menos com a deserção política dos aliados. É surpreendente, para uma mulher que sempre pareceu tão forte, mas revelador: Dilma sabe resistir, mas não sabe mexer-se. Foi ineficaz no jogo político e deixou que um congresso adverso e oportunista a encostasse ao canto. Ela passou esse segundo mandato paralisada politicamente, e a renúncia não seria surpreendente.

Ironicamente aguentando Dilma no cargo, parece-me, está o mesmo pedido de impeachment que a tem ocupado e desgastado. Exagerado e com uma base muito discutível, ele sempre foi mais um instrumento de pressão contra ela do que um processo urgente para repor a justiça, mas hoje ele é uma razão forte para ela não abdicar do posto. Dilma disse que pedirem a renúncia dela é admitir que o impeachment não tem base, e o contrário também é verdade: ela resiste a renunciar, porque fazê-lo agora seria admitir que o impeachment tem base.

No Brasil e no mundo, hoje e sempre, líderes e partidos vêm e vão e, enquanto isso, os povos sofrem mais ou menos. Nada de novo, portanto. O preocupante é o que pode ascender ao poder depois que este status quo passar.

Lula foi forçado a depor usando uma lei que só deveria ser usada se ele se tivesse recusado a fazê-lo antes, e, sabemos agora, assim aconteceu com a maioria dos alvos da Lava Jato, assim revelando como mera desculpa a justificativa de Sergio Moro de que se tentava evitar o tumulto social que daria a marcação de um depoimento agendado do ex-presidente. O Ministério Público pediu a prisão preventiva de Lula sem que houvesse base jurídica suficiente e, em bloco, juristas e políticos ligados à oposição e ao Governo reprovaram. Talvez alguns só tivessem percebido então o tamanho do monstro que ajudaram a criar. Dois dias depois, a Polícia Militar entrou numa reunião de um sindicato que fazia um ato de solidariedade a Lula.

Não se trata de pôr em causa os méritos da investigação, das provas e dos argumentos jurídicos contra Lula. Trata-se de pensar no que foi revelado. A articulação próxima do judicial com a política, o atropelo dos direitos processuais básicos de acusados e ações intimidatórias da polícia (sempre com a desculpa de manter a estabilidade social, de evitar tumultos – em suma, de paternalmente defender a sociedade dela mesma) são mecanismos típicos das ditaduras. Fala-se muito em “golpe”, e talvez na sombra ele esteja a acontecer mesmo. Se Dilma é uma péssima jogadora do jogo político democrático, os seus adversários parecem não ter nenhum problema com atropelar as suas regras.

As manifestações do 13/3 superaram, segundo o Datafolha, as das Diretas Já. Nelas, Aécio Neves e Geraldo Alckmin, políticos de direita controversos, mas relativamente moderados, foram vaiados em São Paulo. Já o quase extremista Bolsonaro foi aclamado como “mito” em Brasília. O ódio específico contra o PT – não contra os corruptos, não contra os políticos, mas contra o PT- vem do quê? Não entendo, e também não entendo este afã por figuras de força bruta que não trazem nada de novo ou construtivo além do ódio. Se o objetivo de tudo isto é abrir um novo caminho no Brasil, com correções de falhas antigas, ele está irremediavelmente condenado a falhar.

Ir de bicicleta dobrável para o trabalho em São Paulo

Isto é só um complemento às dicas preciosas da Sabrina Duran.

Lisboa, um dia de 2008. Chego a casa frustrado por perceber que é impossível enfrentar a subida até à Graça, onde moro, com a bike que comprei. Penso que poderia ter gasto um pouco mais e comprado uma dobrável, que, se dobrada, é considerada bagagem e, portanto, pode entrar a qualquer hora nos transportes públicos.

Corta para São Paulo, 2016. Na última Black Friday, comprei uma Durban One, uma bike dobrável bem simples, de uma marcha. Passei um mês pedalando para a produtora e reduzindo a caminhada de 20min para metade. Mas vou gravar um programa em breve, o que significa um percurso até ao estúdio de caminhadinha-metrô-trem-caminhada. Então, decidi testar essa integração da dobrável com os transportes.

Veredicto: funciona.

Assim que cheguei ao metrô, no momento em que punha a dobrável do outro lado da porta de quem passa de cadeira de rodas ou com carrinhos de bebês, um funcionário avisa-me: “tem que estar embalada”. Já sabia disso. Passo na catraca, tiro da bolsa o saco de lixo que pedi ao porteiro no dia anterior e ponho a bicicleta dentro. Sim, o saco de lixo serve como “embalagem”. E o resto do percurso de trem será assim.

A dobrável no saco, esperando o trem parar.

A dobrável no saco, esperando o trem parar.

Isso da bicicleta ser embalada parecia-me frescura da CPTM e do Metrô, mas dou o braço a torcer, faz todo o sentido. Uma bicicleta tem metais saindo, correia com óleo, rodas com poeira. É uma exigência absolutamente razoável para que, no aperto, ninguém suje a calça nela sem querer.
A Durban dentro do trem.

A Durban dentro do trem ocupa o espaço de uma mala de viagem.

Há outras regras de “etiqueta de usuário ciclista” que eu poderia não ter seguido, porque a bike dobrada e embalada deixa de ser “bicicleta” e passa a ser “bagagem”, mas a verdade é que elas também acabaram por me facilitar a vida. É mais confortável pegar o último vagão, porque normalmente tem menos gente. E é bom esperar todas as pessoas embarcarem ou desembarcarem, porque evita bater com a bike em alguém e faz a tarefa de carregá-la bem mais confortável.
No trabalho, a bike ficou num cantinho, sem incomodar ninguém.

A bike ficou num cantinho do trabalho. sem incomodar ninguém.

Em suma, o tempo das caminhadas foi reduzido, carregar a bike no metrô não foi complicado e, no final, deu tudo certo. E, só para desfazer possíveis enganos, apesar de não ter alergia a me mexer, não sou nada “Geração Saúde”. Odeio academias, fumo e como tudo o que dizem que não se deve comer. Mas acho que a vida deve ser prática, e a bicicleta dobrável sem dúvida torna a vida na cidade bem mais prática. Por isso, é importante dizer que usá-la não é para superpessoas.

A loucura dos outros (contínuo)

(07-02-2016, Domingo de Carnaval)
e o Thiago França dedicou uma música aos moradores de rua do Anhangabaú, e eles festejaram lá mesmo na frente do palco, sem camisas, um ou outro com os sacos pretos meio cheios de latinhas, e as pessoas limpas começaram a dançar em volta, e os da rua dançavam também, um tinha um balde na cabeça e passava uma escova pelo balde imaginário, e outro olhava calado e bêbedo as mulheres limpas que não costumava ver assim porque nos outros dias elas não chegam tão perto, e outro era gordo e tinha um boné caído sobre os olhos e o rapaz limpo abraçava-o e os amigos tiravam fotos rindo, e o homem posava porque nos outros dias ninguém lhe tira fotos, e então o gordo tentou abraçar todas as pessoas limpas para lhe tirarem mais fotos, mas algumas não quiseram e fugiram. Quando o Thiago França acabou o show, toda a gente foi embora, mas não os homens da rua, porque eles ainda pegaram nos sacos pretos e acabaram de enchê-los com as latas que as pessoas limpas tinham deixado no chão do no vale do Anhangabaú.

(03-02-2016)
O farol está verde para os carros. Uma moça estilo compro-artesanato-na-rua-com-o-dinheiro-que-meu-pai-me-dá atravessa a faixa sem ligar muito para o moço estilo leio-a-Veja-toda-semana-e-gosto-de-bebidas-com-energético que subia a rua de carro e já estava bem próximo dela. Ela ainda manda um sorrisinho e acena para o moço, mas ele não trava, ou não consegue travar, e passa encostadinho nela. O sorriso dela cai e, em protesto, bate com força no carro. O motorista avança uns metros, para não arriscar um pontapé, talvez, e grita “vaca!”. Ela manda-o tomar no cu. Ambos seguem os seus caminhos,

O aborto

Depois da excelente entrevista de Drauzio Varella sobre o aborto:

Eu não gosto quando alguém aborta. Se isso acontecesse na minha vida privada, eu preferiria trazer a criança ao mundo.

Mas a nossa opinião sobre o aborto não tem a ver com o que queremos para a nossa vida. Tem a ver com o que queremos para a vida dos outros.

Proibir o aborto não para o aborto. Os dados que o artigo da BBC indica (“uma brasileira morre a cada dois dias por conta de procedimentos mal feitos e um milhão de abortos clandestinos seriam feitos no país todos os anos”) comprovam isso.

Ou seja, a proibição só entrega a mulher que aborta à clandestinidade e a arriscar a saúde e a vida nas mãos de pessoas que não pode processar se o fizerem mal (porque se arrisca a ser ela própria presa e condenada).

E proibir o aborto não tem nada a ver com a questão “uma mulher deve poder abortar?”. Tem a ver com a questão “uma mulher que aborta deve ser presa?”. Gostaria que o Brasil entendesse isso, como Portugal entendeu há alguns anos.

Se você acha que não conhece ninguém que tivesse abortado, pergunte a uma amiga, à sua mulher, à sua namorada, e talvez se surpreenda ao descobrir que alguém bem próximo de você o fez. Muito provavelmente, você vai descobrir que a situação que levou essa pessoa a se submeter a uma intervenção clandestina não foi fácil, que ela não o fez feliz e contente, que, na verdade, o fez com muito custo e sacrifício.

E depois pense: essa pessoa merece ser presa? Se você acha que não, não deve ser presa ou punida porque já foi punição suficiente submeter-se a essa provação, então, seja qual for sua opinião sobre o aborto na sua vida privada, você é favorável a uma despenalização. E é isso que está em causa.