Parar (5)

Ontem à noite, comi uma fatia de presunto. Não é algo que costume comer, mas o meu jantar foi algo reaquecido no micro-ondas e dei essa dentada descomprometida enquanto o prato rodava na luz. Não o esperava, mas senti intensamente o salgado e o azedume ligeiro de algo que já está fora do ponto ideal. Sabia que parar traz o paladar de volta, mas bem que poderia ter tido essa sensação com algo melhor do que presunto. Enfim.

O meu apetite não tem aumentado. Paro no meio da tarde para um iogurte e uma fruta, e é isso. Carboidratos, não vou por esse caminho: parando ou não, sou bem suscetível a inchamentos. De qualquer forma, aproveitando a melhoria do fôlego, ontem fui correr no minhocão. Os ténis de corrida que já deveriam ter em volta de 10 anos deram os seus estertores finais – ou melhor, talvez os tenham dado já há algum tempo e eu guardei cadáveres como se fossem vivos – e foram-se desintegrando pelo caminho, e dois terços do caminho foram andando, não correndo, mas fui, e acho que isso já é alguma coisa.

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Parar (4)

É difícil explicar  o porquê do vício para quem nunca o teve. Ao longo da minha vida, vi duas explicações que me satisfizeram. Uma foi em This Must Be The Place, de Paolo Sorrentino, quando uma mulher que chora em silêncio pelo filho desaparecido diz “You never took up smoking because you remain a child. Children are the only ones that never get the urge to smoke”.

Há uma verdade nisto. O vício mata-nos um pouco de cada vez que o praticamos, não no sentido do extermínio de saúde, mas da mais pura sensação imediata. Uma névoa escura invade-nos e a agitação interna é silenciada, aplacada. De cada vez, nós deixamos de ser um pouco nós e podemos descansar de nós mesmos. É por isso que as campanhas de sensibilização são ineficazes: a morte não assusta, porque o vício implica estarmos permanentemente num malabarismo com ela. Ela está sempre presente, e essa consciência do nosso fim também faz parte da condição de ser adulto.

A outra explicação foi de David Sedaris em Letting Go. “as if he’d been allotted a certain number of cigarettes, three hundred thousand, say, delivered at the time of his birth. If he’d started a year later or smoked more slowly, he might still be at it, but, as it stood, he had worked his way to the last one, and then moved on with his life”.Eu adicionaria que talvez o fim do nosso período de vício não seja ditado pelo número de doses tomadas, mas pelo total de tempo. O meu tempo com isto, para isto, acabou, penso eu.

Parar (3)

Dois dias já se foram. Ontem à noite senti a mesma aflição de quando se tem um pedaço de carne enfiado num dente sem conseguir tirar. Recorri ao mesmo expediente a que recorria adolescente, aflito com os exames finais do Secundário: afundar o rosto numa almofada e gritar até não conseguir mais. Deixar que a voz solta canse o corpo. Funcionou. Porém, estava também a acabar um trabalho do mestrado. Muita coisa na cabeça. De repente, mexendo nos livros da estante, encontro um meio maço perdido da C. Sem pensar, tiro um, ponho na boca, acendo. Apenas um, e apenas um foi mesmo. Só um dia e um único cigarro lightíssimo já me deixou de cabeça tonta e meio enjoado. Não senti a tentação de repetir, o que me surpreendeu e agradou. Até dormir, não senti mais nada. Hoje, no trabalho, o dia correu tranquilo, muito mais do que ontem. O mau humor passou, mas a desconcentração permanece um pouco. Pela noite, a C. aqui, ela não quis fumar para não me tentar, mas dividimos um depois de jantar e, uau, senti um sabor mau, desagradável. Continuo com os chicletes (comprei uma caixa para o trabalho, outra para ficar em casa) e no trabalho ainda tenho lascas de coco secas, para entreter a boca com o crocante sem ingerir calorias desnecessárias.

Parar (2)

Passaram umas 12 horas. Daqui a pouco vou almoçar. Sinto uma agitação no corpo, como algo que está prestes a cumprir-se. A concentração continua difícil, mas a introspeção resolve. Sem tentações para desistir: a curiosidade por experimentar os efeitos da ressaca é maior ainda. Disse aos meus colegas que parei e que não se surpreendam se eu os mandar a todos tomar no cu. Eles riram, eu também.

O caminho de bicicleta para o trabalho foi ligeiramente mais fácil. Um certo limite na respiração ao pedalar, não o senti. Também não senti a fome enorme que sentia pelo meio da manhã quando parei no ano passado, mas conto comprar algumas coisas no supermercado só para guardar aqui na geladeira do trabalho caso me dê a fome. Fruta, umas bolachas, nada de muito calórico: não vale a pena facilitar o aumento de peso também. Porém, ontem comprei uma caixa de chicletes, que tenho aqui em cima da mesa, e a moça da padaria perguntou-me se não ia querer o que sempre comprava, e eu sorri quando lhe disse que não.

É preciso imaginar um filão de veneno, principalmente se surgir vontade. O objetivo é aguentar até sexta-feira e zerar o corpo. Depois disso, é outra coisa, é manutenção.

Parar (1)

Foi há umas duas horas, mais ou menos, que acabou. Não quero comprar mais. Não sinto problemas físicos, mas estou um pouco cansado de estar dependente de uma substância. Já tentei parar antes; foi há um ano ou dois? Aguentei-me durante um mês, o semedão reduzido a uma vez por dia. Percebi que era possível e também que comprar é a fronteira do falhanço, muito mais do que pedir um ocasionalmente. Diminuir não funciona, isso eu já sabia: sempre que tentei, algo acontece, algum imprevisto e, de repente, lá regresso à mesma quantidade. Então, parei. É isto parar? Parece mentira, mas tenho os Morphine a tocar na janela ao lado. Sinto-me nervoso, a boca seca, e o chá gelado não parece resolver. Tenho um trabalho do mestrado por acabar, mas é como se tivesse tomado uma injeção de Maluquinol e não consigo parar de olhar para as coisas à minha volta, uma após outra, como se tivessem uma importância singular recentemente adquirida: olha um sofá; olha uma televisão; uma mesa; uma bola antiestresse. Tudo pode ser um pretexto para fazer outra coisa, ser outro, mas a minha vontade tem que ter algum significado contra o mundo. São 1h40 e está-me a apetecer um café: vou à padaria,  vou tomar um expresso, mas não vou comprar. Não posso comprar, e o jeito de me distrair vai ser olhar para dentro e entender o desejo e a falta e a dor. Se outros conseguem, eu também consigo.

A Grande Ilusão e o mítico humanismo europeu

Em tempos de extremos que emergem, de nacionalismos que se extremam e coisas más no geral que aparecem, A Grande Ilusão lembra-nos um certo ideal da Europa com homens de honra. Digo “homens”, porque mulheres aqui há poucas, quase nenhuma – o que aparece são oficiais, que iam para prisões especiais e se guiavam por um código de conduta particular, então, talvez fosse fácil falar. Homens que se travestiam para alimentar o desejo, que recebiam harmónicas dos carcereiros e que cantavam A Marselhesa na prisão. Também há aqui homens para quem um travelling ainda era uma questão de moral. Renoir faz-nos perguntar: se todos sabemos do valor de todos e somos cordiais uns com os outros, guerrear porquê?

A História passa por aqui. Em fúria, prisioneiros queimam o presente da rainha que pensavam ser vodka e, afinal, é livros, mas um grita “não devem queimar livros”, como alguém talvez tenha gritado (ou não, pois o medo pode muito) na Alemanha em 10 de Maio de 1933, quatro anos antes de o filme estrear. Um oficial deixa-se ser alvejado por outro, para permitir que os seus correligionários fujam, e, enquanto morre, os dois conversam uma conversa onde está todo o existencialismo que, 9 anos depois, seria chamado de Humanismo.

Por fim, há quem discuta e faça as pazes de costas para os Alpes. E, nalgum momento, diz-se que “as fronteiras não existem, são uma invenção do homem”.

Cajón del Maipo

Imaginei dois homens se perseguindo. Um tem uma arma. O outro corre. Atravessa o rebanho de cabras. O da arma aponta, tem o outro na mira, mas um bode mal disposto ataca-o com uma bela cornada pelo flanco. O homem armado fica em mal estado, mas consegue desvencilhar-se do bode. O perseguido corre em ziguezague e espanta três cavalos na direção do armado, que apenas por uma sorte incrível não é pisoteado. Pedras se soltam do chão. Os homens escorregam. O perseguido torce o pé e cai. Finalmente, eles ficam frente a frente. Parece que não há escapatória. O perseguido resigna-se: vai morrer. O armado dá um passo em frente para se apoiar melhor. Grande erro: o chão está cheio de água, e o pé afunda-se na lama. O perseguido levanta-se a custo e foge na direção das montanhas cobertas de neve. O armado ainda dispara, mas falha. A última coisa que vê antes de perder os sentidos é um cavalo preto num galope zangado. Vem na sua direção.