The Invention of Lying e Adaptation

Qualquer argumentista, dramaturgo ou alguém que alguma vez tenha lido um manual, sebenta ou rabisco sobre a construção do texto dramático conhece a importância da palavra subtexto. Um literato poderá chamar-lhe uma nuance da metáfora; um psicólogo irá logo decerto sacar para fora o id, ego e superego; e alguém mais preocupado com os reflexos quebradiços entre arte e realidade dirá que não é mais do que uma versão do que acontece no mundo, onde ocultamos a verdade crua do que dizemos e fazemos, até porque, na maior parte das vezes, essa verdade nos escapa. A comédia é a arte do conflito por excelência, por isso, nunca seria de esperar que nela nascesse uma obra como The Invention of Lying, onde Ricky Gervais cria um mundo onde a mentira não existe e, mais longe do que isso, onde toda a gente tende a dizer tudo o que lhe vai pela alma. Ou seja, The Invention of Lying é, à primeira vista,  um filme sem subtexto – ou melhor, um filme onde todo o subtexto é concentrado na personagem principal, a única em toda a Humanidade que consegue mentir (ainda que não saiba que nome dar a isso). O modo como o filme contorna essa quase armadilha que colocou a si próprio é um dos seus aspectos interessantes – vejam o jantar de Anna com Brad Kessler. Outro é o modo como a personagem principal, ao inventar a mentira, inventa também o entretenimento e a religião. Não era mau reler os situacionistas, não. Adaptation, curiosamente, também trata do entretenimento e da vida, traçando o paralelismo entre a construção de ambos. Quando o vi há 8 anos, pareceu-me que o último acto fazia uma concessão àquilo que condenava no primeiro – os clichés superficiais da história holywoodesca – mas compreendo agora que o metadiscurso sobre guionismo nunca poderia estar completo se assim não fosse. O jogo de espelhos é levado a tal ponto, a progressão da escrita está tão enrodilhada na progressão do tempo diegético (e não só) que uma não poderia existir sem a outra. É, com certeza, o antecessor directo na cabeça de Charlie Kaufman de Synechdoche, New York, onde o tempo é o tema e matéria ficcional (nas palavras de Rogert Ebert ao considerá-lo o melhor filme da época, “it isn’t about a narrative, although it pretends to be. It’s about a method, the method by which we organize our lives and define our realities”), é o filme definitivo sobre a experiência de escrever um argumento e, talvez, o filme definitivo sobre o acto de escrita em si mesmo.

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