Justificação dum Pente 4

E, de um momento para o outro, os sentidos perdem-se porque alguma coisa desapareceu. Dormir: porquê? Ir comer: com que fim? O que fazer nos finais de tarde e depois do jantar, aqueles tempos que já tinham donos e fins bem, bem precisos? A questão em causa não é, como a poria um adolescente, a da utilidade da vida, mas a da finalidade daquilo que ela tem de ocupação do tempo. Entretenimento, conhecimento, vaidade: se quisermos ver até ao tamanho mínimo, tudo é passatempo avulso a precisar de justificação, como um preso num tribunal. Eu posso fazer desaparecer o cabelo só porque o cabelo comprido não serve para nada. Eu posso fazer um manifesto anti-sol só porque trabalho numa cave e não tenho uso para a luz natural. Eu posso fugir e isolar-me só porque não tenho utilidade para a companhia. Tudo isso é possível. Porém, este porquê não é um que se responda: é um porquê que se encontra. E, no caso do meu cabelo, foi muito difícil encontrá-lo num momento em que me vi ao espelho pelos meus próprios olhos, sozinho.

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