As pequenas diferenças

Parece mentira, mas já estou em São Paulo há 21 dias. O primeiro mês do meu visto está quase a esgotar-se, o que parece justo, já que uma parte substancial dele foi passada a tentar registrar esse mesmo visto na Polícia Federal – ou PF, para os amigos. Por outro lado, PF é também um sistema de restaurante (Prato Feito, diferente da comida a peso), para além, é claro, das Produções Fictícias. A Ana hoje percebeu um padrão nas minhas ocupações: Cabra, Bode Expiatório; Produções Fictícias, FICs. Estou mortinho por descobrir o que vai emparelhar com a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro.

Tenho-me lembrado muito desta conversa durante estes 21 dias. É tudo um bocadinho diferente em São Paulo, apesar de ter tudo o que Portugal tem menos a língua. Um x-acto é um estilete, uma rotunda é uma rotatória, um rissol é um risoli. Pastéis de bacalhau rareiam, mas há coxinhas. Ninguém pergunta se queremos factura, mas nota fiscal paulista. Não há c’s e p’s nas palavras. As vogais são abertas como uma fronteira sem PF. Há cromos do Mundial, mas chamam-lhes “figurinhas” e aos Sábados centenas de pessoas vão para baixo do MASP trocar zagueiros por goleiros. Bebe-se muita cerveja, mas nos cafés, que se chamam lanchonetes, é preferível comprar uma garrafa grande e dividir. E nas caixas automáticas, que não servem para todos os cartões, não dá para carregar o telemóvel, que se chama celular,  mas nas caixas de supermercado e nas bombas de gasolina já dá.

Na 3ª feira da semana passada, cansado de ser estrangeiro, apeteceu-me ir jantar a um lugar (e não digo “sítio” porque sítio aqui é fazenda) onde não tivessse que aprender nada. Um lugar onde não tivesse de me confrontar com termos como bauru, virada, açaí, catupiry. Um lugar que fosse um vazio cultural, onde comer fosse quase intuitivo, mecânico e sem prazer. Mas onde encontrá-lo? Felizmente, perto de nós, há-de sempre haver um McDonald’s.

Fui no da Rua Augusta e entrei. Tudo muito normal e calmo: os vermelhos, os amarelos, os brinquedinhos e as coisinhas todas para atrair crianças para os poliinsaturados desde o berço. Há Big Tasty? Há, e chama-se mesmo assim: não preciso de dizer “le Big Tasty”. Pego no meu hambúrguer, pego na minha cola (que cá é mais “coca”), pelo nas minhas batatas (que cá são mais” fritas”) e sento-me. Ah, o prazer de comer comida igual em todo o mundo, com aquele inconfundível sabor a fritonguice a jorrar de todos os poros, das pontas afiadas das batatas, dos molhos enfiados no pão, e empurrar tudo com um grande golo de…

Falta-me a palhinha.

Tudo bem, não há-de haver problema, há mais no balcão. Levanto-me, ando até lá e pergunto à menina Olhe, por favor, queria uma palhinha. Ela não percebe. Não faz mal, é do barulho, há mais gente a ser servida nas caixas ao lado. Quero uma palhinha, por favor, e neste momento já puxo pelo sotaque brasileiro. Ela continua a não entender. Então, fecho uma mão, estico o mínimo e o polegar, mínimo para baixo e boca no polegar, e digo, com as vogais todas abertas e sem c’s nem p’s pelo meio, Uma palhinha! Para beber! e a moça exclama Ah! Um canudo! Aqui tem!

Um canudo. Um canudo. Um canudo. E aí eu lembrei-me do “mostrar” e de como o PT-BR do Consulado de Lisboa é ainda mais diferente do PT-PT. Quando em PT-BR consular vos dizem que é necessário “mostrar” o protocolo na PF depois de chegar, isso significa preencher uma GRU na Internet, pagá-la num banco ou casa lotérica, tirar duas fotos 3×4, preencher um formulário chato, tirar fotocópias ao passaporte, chegar na fila pelas 7 da manhã, entrar e entregar tudo para depois ter que esperar até às 15h com uma senha que não se pode perder para tirar impressões digitais, reaver o passaporte e um talão que comprova que já se está legal. Isso, claro, se não houver um problema nos documentos com o nome da mãe, porque, nesse caso, é preciso ir ao consulado português pedir uma nota consular e perder mais uns dias de trabalho numa sala com o único atractivo de se poder conversar com uma data de bolivianos que por cá andam a tentar a sorte.

Saí do McDonald’s com as mãos sujas de gordura. Saí da Polícia Federal com as mãos sujas de tinta. Essa é a conclusão possível: isto deixa marca.

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