Insuficiências

Conheci um dono de padaria português. Na verdade, conheci vários. Confirmam-se os rumores, eles são muitos e estão por todo o lado, suprindo as necessidades do café da manhã de toda uma nação – sim, porque também conheci um que vendia o seu pão francês lá mesmo no amazónico Pará. Diz-se “pão francês”, curiosamente, e não bijou, trigo, de Mafra ou de Avintes. Por Sampa, o máximo que encontrei foi um pão bem gostoso que parecia broa, assim consistente, cheiinho, mas chamavam-lhe pão italiano. Adiante.

No Rio Grande do Sul, o pão francês é o “cacetinho”, ou seja, um pequeno cacete, o que em São Paulo é o mesmo que uma pilha eléctrica é em Espanha. Isso mesmo, uma pila. Ou, mais precisamente, uma pilinha. Portanto, o que não falta por aí são hordas de gaúchos a pedirem pilas em padarias. O Brasil, definitivamente, é um país divertido.

É muito normal que os portugueses das padarias tenham bigode, para além de imagens católicas (não do candomblé, não espíritas) hasteadas nos estabelecimentos. Curiosamente, o dono de padaria que conheci ontem não tinha bigode, não tinha imagens nas paredes e também não tinha um dedo, o médio direito, provavelmente porque lho exigiram na Polícia Federal para estender o visto de residência.

Sem brincadeira, a insuficiência deste senhor, jovem, bom gestor, passava bem despercebida. Ele era de Fafe, e, curiosamente, tive na Faculdade um colega de Fafe que era conhecido também por uma insuficiência que passava despercebida. Digamos só que um habitante do Rio Grande do Sul chamar-lhe-ia um pão. Seja como for, lembrei-me do homem hidrocéfalo que vi na Feira Nordestina do fim de semana que passei no Rio. Imaginem o ambiente: Alceu Valença tocando, um público apertando-se em amálgama de cores, protuberâncias e pernas, o forró rolando para uma audiência que passou o dia em praias munidas de estruturas metálicas para fazer exercícios abdominais e inchar os músculos dos braços – e um homem hidrocéfalo, com a camisa suja, passeia-se pelo meio, fumando e com cara de poucos amigos. Realmente, amigos não devia ser uma coisa fácil para ele fazer.

O Brasil é um país de gente bonita, gente feia, gente de todas as lindezas. Alguns são donos de padaria. E alguns são portugueses. E pronto.

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