Objetos do Brasil: a catraca


Uma das coisas mais fáceis de acontecer no Brasil é multidões. Pois se há coisa que o Brasil tem são pessoas, 190 milhões delas, sempre prontas a juntar-se e fazer coisas disparatadas, como eleger palhaços para altos cargos de governação. Mas deixemos de falar da Dilma e do Serra e falemos do que realmente importa aqui. Mesmo para o observador mais desprevenido, não deixa de surpreender o magnífico sentido de ordem que os brasileiros têm, principalmente os paulistas, que se colocam em fila seja lá para o que for. Mesmo que estejam a apanhar um avião em Frankfurt. E não seja preciso fazer fila. Mas eles fazem, e isso só é de louvar. A menos, é claro, que se seja de Goiânia, como um amigo meu, que tem vontade de dar um tiro a alguém sempre que vai no supermercado. Isso para não falar que, sempre que percebem que sou português, uma das primeiras coisas que qualquer pessoa me pergunta é se em PT usamos mesmo a palavra “bicha” para dizer “fila”. Nesse momento, procuro o meu amigo de Goiânia e começo a carregar a carabina.

Para que essas filas não saiam fora do controlo, há um objeto conhecido muito singelamente por “catraca”. A função da catraca é tornar lenta uma fila que sem catraca seria rápida. Encontram-se nos ônibus, no metrô e em qualquer outro tipo de transportes, com a vantagem que, se se apanhar o ônibus num terminal, é preciso passar por uma catraca para entrar no terminal e outra dentro do ônibus. Sim, cada ônibus tem uma catraca, para além de um cobrador, que tem como função garantir que o número de voltas à catraca coincide com o dinheiro em caixa no final do dia. Ou seja, nos ônibus não só se paga como ainda é preciso passar por uma máquina que impede que se chegue àquilo por que se paga. Claro que muita gente tem o Cartão Único, o que significa que não precisam de dinheiro, passam o cartão numa máquina e giram elas próprias a catraca. Nesses casos, o cobrador não tem nada para fazer e, por isso, pode adormecer tranquilamente no seu banquinho no embalo do ônibus. Cobrador de ônibus é, aliás, a segunda profissão que conheço onde é aceitável que se durma durante a jornada de trabalho, mas os deputados da Assembleia da República Portuguesa sempre têm a desculpa de não terem uma catraca por que olhar.

Já passei por catracas para ir a concertos, casas nocturnas, para ver jogos de futebol na praia, para ir ao teatro. No meio disto tudo, porém, tem uma coisa boa: ao contrário do Metro lisboeta, em que é preciso passar o passe novamente no leitor da catraca para se poder sair, o Metrô paulista só requer que se empurre a catraca do lado de dentro. Isso realmente ajuda a que a fila, que sem catraca seria rápida, não seja tão lenta como poderia ser – a menos, é claro, que se seja homem, se vá com pressa e se esbarre com as jóias da família na porra da catraca. Nesse caso, a fila fica lenta de novo.

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