Objetos do Brasil: o chuveiro elétrico


Ao contrário de alguns visitantes desprevenidos das terras de Vera Cruz, nunca tive nenhum problema com o chuveiro elétrico, que considero até muito eficiente. Na generalidade dos países que conheci (ou seja, em todos menos o Brasil), juntar as ideias de água e eletricidade não era coisa muito recomendável. Isto, reconheço agora, é medíocre e limitador. Afinal, sempre permitiria adiantar algumas tarefas matinais. Enviar um e-mail ao mesmo tempo que nos ensaboamos. Secar o cabelo da nuca enquanto ainda lavamos o da frente. Pôr as torradas a tostar enquanto nos esfoliamos.

No Brasil, ainda não se leva a torradeira para o banho. Porém, um dia alguém ligou o foda-se e disse “porque não?”. São as frases que iniciam toda as grandes revoluções da vida moderna. Assim nasceu a democracia grega. Assim nasceu a revolução egípcia. E assim nasceu o chuveiro elétrico.

O chuveiro elétrico, está bom de ver, é um chuveiro que aquece a água através de uma resistência elétrica, não precisando de gás. Foi uma solução inteligente para aquecer a água a multidões e multidões que não podiam pagar a instalação de outros sistemas mais dispendiosos, incluindo esquentadores. Ou seja, uma espécie de Bolsa Família só para o momento do banho. As implicações políticas são óbvias: o chuveiro elétrico permitiu que o pobre se começasse a sentir classe média logo no quentinho do duche. Hoje, o chuveiro elétrico é transversal à sociedade brasileira. O seu uso é como comer rissóis: por muito rico e chique que se seja, de vez em quando passa-se por ele.

Lembro-me da primeira vez que usei um chuveiro elétrico como se fosse hoje. Imaginem a situação. Jorge Vaz Nande pendura a toalha na porta e, nu, fica a olhar para aquele estranho e volumoso objecto branco sobre a sua cabeça, preso à parede por um tubo e dois parafusos, do qual sai um grosso cabo elétrico que parece rir-se para ele como quem diz “ahah vou-te foder”. Ele estica a mão com medo, já sentindo o frio da manhã no corpo, mas com receio de que a água demore tanto a aquecer na geringonça e o atinja com tanta crueza que ele não consiga reprimir um grito efeminado. Enche-se de coragem e roda a torneira. A água cai, de início fria… mas, em segundos, bem mais depressa do que com qualquer esquentador fajuto, ela fica quente. Nobremente quente. Regiamente quente. Jorge Vaz Nande põe-se por baixo da torrente e leva com ela na cara, logo experimentando a excitação das suas terminações nervosas. Enquanto ele pensa, rindo, em todas as vezes que um esquentador mau o deixou agarradinho a um fraquejante fiapo de mornura, ele repara que a água está a ficar demasiado quente. Ele olha para a parede, procura a torneira de água fria – mas ela não existe! Isto é um chuveiro elétrico, só tem uma torneira! O que fazer? O que fazer?! Sentindo a cara a ficar queimada, chegando-se já ligeiramente para o lado, Jorge Vaz Nande tem uma ideia- abrir ainda mais a torneira. É a única ação possível, a única que faz sentido – e funciona! A água fica, de repente, no seu ponto certo e Jorge Vaz Nande pode-se lavar, pensando que só falta inventarem chuveiros elétricos para as torneiras da cozinha, para assim ele não precisar de levar a louça suja para o banho.

Já agora, se procurarmos “chuveiro elétrico wikipedia” no Google, este remete-nos para a história dele logo no primeiro link. O segundo link é a definição de “lavagem vaginal”. Apesar de o Brasil ser um país onde a higiene pessoal é muito valorizada, ainda não consideramos este um objeto do Brasil. Porém, quem sabe, talvez um dia falaremos sobre o tema.

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