Estudo para personagem

Eu gostaria muito de te ter aqui, mas há uma força que nos obriga a andar.

Dantes, para as vacas ganharem força para puxar pedra e assim, dava-se-lhes vinho por uma garrafa. Mas tinha que se ter cuidado, senão a vaca mordia e partia a garrafa. O meu pai chegava-lhes com o dedo, punha-lho na boca para lhes apartar a pele e punha-se a garrafa de lado enquanto outro lhes agarrava o focinho para elas beberem. Mas o meu pai não lhes dava vinho, dava-lhes urina de homem. E farinha, milha.

Eu tenho uma uma coisa, sonho muito. Sonho que estou nalgum lugar, depois acordo. Mas dantes desesperava, agora não. É o que Deus quer, é assim.

Tinha na Bela e aqui muitos campos, que era uma coisa que gostava muito. Agora não os vejo.

Eu estou a pensar uma coisa, que tenho sonhado muito com eles. Ó Jorge, levas pressa? Quero-te perguntar, tens comido nuns campos lá em cima? Tu e a São… Não? Devem ser sonhos.

Quando fui para a tropa, levei presunto, cozido e lampreia seca fumada. Cozia-se a lampreia com presunto, passava-se em açúcar e enrolava-se. Depois ficámos lá todos a comer.

Fiz a tropa no Porto. Pesava 120 quilos quando me pesei na balança. Estive lá 12 dias. Quando nos mandavam encerar o chão, espalhávamos a cera, pegávamos numa passadeira, um deitava-se no fundo e os outros puxavam. Eu era sempre o que ia para o fundo.

Quando me quis ir embora, o meu tio pagou ao Sargento Vasconcelos, que era de Valença. Como não era tempo de guerra… Tinha de se ir a uma Junta. Na Junta estava um coronel, um tenente-coronel e um major e quem mandava naquilo era o major. Mas o sargento tinha-os na mão. Perguntaram-me “de que se queixa?”. Eu respondi “da veia da urina”. Fui-me embora ter com o meu tio.

Depois disso é que fui tirar a carta a Lisboa para começar a conduzir camiões. O teste foi na Graça. Eles queriam-me passar a perna e puseram-me num lugar difícil para dar a volta, mas eu fiz a manobra só com um braço.

Quando eu estava em Lisboa, uma vez estava com fome lá pelo Areeiro. Entrei num café, viro-me para o homem que lá estava e digo “dê-me um trigo com presunto, se faz favor”. O homem virou-se para mim e disse “você deve ser lá de cima, de Coura, Monção, por aí”. E eu “sou de Monção, como soube?”. “Porque aqui não se diz ‘trigo’. Se falar assim ainda se riem de si”. E eu “ai os filhos da puta”.

Hoje já vai ser um dia de sonhos.

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