O butelo


Um amigo meu, português, mas que passou os últimos meses comigo no Brasil, regressou ao solo luso na semana passada e fez aquilo que, pelos vistos, está inscrito no nosso ADN: comer todas as comidas que, por dificuldade de execução ou por falta de ingredientes, lhes estiveram vedadas na estadia no exterior. Foi o mesmo instinto que me levou a devorar uma chamuça meia hora depois de ter chegado; a comer uma francesinha em cada uma das vezes que parei no Porto; e o levou ontem a perseguir um butelo.

Um butelo é o enchido que se exibe aqui em cima, típico de Bragança e confeccionado com pedaços de carne de porco com osso. Confesso que nunca tinha ouvido falar de tal coisa até que ele me enviou um e-mail dizendo “vou malhar um butelinho com cascas, simplesmente o melhor prato da gastronomia mundial”. Disse-lhe que não sabia o que era um butelo. Ele respondeu dizendo que o meu conhecimento da alta culinária tradicional portuguesa era medíocre – eu, que até comia a crista do galo cozida quando a minha avó fazia cozido! audácia! – e anexava a receita. Relatei-a com muito interesse à senhora minha mãe, que reagiu da seguinte forma: “Grande coisa! O butelo dele é o nosso pedro!”. Ao que parece, o mesmo enchido era executado aqui no noroeste, também usando o bucho e, como variante, a bexiga do porco, mas o nome diferia. Portanto, um pedro do Minho é um butelo de Trás-os-Montes. Dada a incidência de emigração da região trasmontana para o Brasil, percebe-se porque há tantos nomes estranhos naquela terra.

Do que tenho visto, já não se faz o pedro pelo Minho, mas os trasmontanos não desistem do butelo nem do seu acompanhamento predilecto, as “cascas” ou “casulas”, ou seja, vagens de feijão. Parece interessante e revela bem o poder de decisão do povo nordestino. Um minhoto levanta-se à noite com insónia e pensa “o que me apetece é um leitinho e uma fatia de broa com presunto”. Um trasmontano levanta-se à noite e pensa “o que me apetece é encher uma barriga de porco com carne e osso, deixá-la a defumar vinte dias, cozê-la duas vezes durante três horas e comê-la com vagens que ficaram um dia de molho antes de serem cozidas e alouradas”. Poder-se-ia chamar-lhe teimosia. Eu chamo-lhe resiliência.

Seja como for, um abraço e muita força para o meu amigo. Fico ansioso por provar essa iguaria um dia e espero sinceramente que ninguém lhe chame preguiçoso por decidir comer as cascas com os feijões ainda dentro.

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