As pastilhas elásticas portuguesas

Sempre que se regressa à terra natal, presta-se especial atenção a tudo aquilo que há de diferente ou de novo. Porém, é difícil encontrar coisas que juntem as duas características. Por exemplo, a demissão de Governos é sempre diferente – mas já não é novo. O reequilíbrio de poderes na Assembleia da República será novo – mas não diferente.

Na minha busca-expresso pelo novo e diferente da Tugalândia, acabei por encontrar um elemento que reúne as duas características a um ponto no mínimo surpreendente: as novas pastilhas elásticas. A primeira que experimentei foi a Chiclets Ice Citrus Crush.Com esta pastilha, a Cadbury Portugal (dona das marcas Chiclets e Trident) tenta o que provavelmente muitos no reino do pastilhiquismo já tentaram e nunca conseguiram: simular o sabor daqueles limões velhos e bafientos que caem para trás da arca congeladora (talvez daí o “Ice”) e só se vão apanhar depois de ganharem uma camada entre o verde e o esbranquiçado e um vívido cheiro a coisa pouco saudável. Chiclets Ice Citrus Crush é diferente, sim, mas será novo? O sabor cítrico tem sido, apesar de tudo, uma constante nas pastilhas elásticas, estando só um patamar abaixo dos clássicos Spearmint e Peppermint. Porém, o elemento “Ice” aqui chama a atenção para uma tendência recente de que a nossa próxima pastilha é um exemplo perfeito.
Adoraria ter estado na reunião de marketing que decidiu o nome desta pastilha. Na generalidade, é “cocktail”; na especificidade, é “daiquiri”; e na pentelhice é “frozen”. Das duas uma: ou no laboratório de sabores da Chiclets eles têm um sabor “gelo”, o que me parece francamente assustador; ou eles não têm nada disso e o “frozen” é trapaça. Seja como for, não deixa de ser um sabor interessante e que chama a atenção. A ideia, afinal de contas, é meritória: substituindo os verdadeiros daiquiris, a Trident permite que os seus consumidores deixem de gastar tempo a comprar rum, açúcar e limão e o gastem no que realmente importa, como mastigar sem engolir.

Confrontados com as inovações de marketing dos comparsas da Chiclets, os senhores da Trident foram obrigados a deitar a toalha ao chão e reconhecer que chegáramos ao abismo, ao verdadeiro “fim da história” fukuyamaico do pastilhiquismo. A situação era grave: não havia mais sabores. Já tudo fora vendido, já tudo fora anunciado. Nenhum fruto tropical desconhecido teria poder suficiente para vender, nenhuma nova mistura de sabores seduziria um público saturado. Como resolver isto? E então uma mente revoltada e cansada por estar a ter ideias até às 4h da manhã sem poder ir para casa genialmente disse: “passamos a vida a dizer ao consumidor o que vai provar. E se por uma vez, e se só por uma vez não disséssemos nada?!” E toda a gente aplaudiu. Assim se criou a Trident Senses Mega Mystery.

Há quem diga que os sabores são laranja e piña colada. Outros dizem que começa por saber a lima, no meio é morango e no fim é ananás. A mim parece-me haver algo de tangerina por ali. Mas a verdade, a grande verdade, é que isso não importa mesmo muito. As Trident Senses Mega Mystery provam algo que toda a gente sabe, mas tem vergonha de dizer: pastilhas elásticas, refrigerantes, rebuçados, o objectivo de tudo isso é meter o máximo de açúcar possível dentro do consumidor. E, ainda que a Trident o substitua por aspartamo, com este golpe eles enviaram uma mensagem muito directa: “o sabor? Que se lixe o sabor!”. Obrigado, Trident. Graças a ti, o mundo é um bocadinho menos hipócrita.

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