Para o que me deu

Estou a fazer algo que não fazia há muito tempo: ler blogs. Foi uma constante diária desde 2003, quanto entrei no “meio” com A Peste – literalmente no meio; a moda tinha começado uns 2, 3 anos antes, e na silly season desse ano fora notícia, mas eu esperei até novembro para ter a certeza que não ia fazer merda – e depois ainda mais com o PF News, que obrigava a manter-me constantemente atualizado sobre novidades boas e más dos meios culturais, literários, audiovisuais e outros que tais. Em 2010, quando vim para o Brasil e deixei de escrever o PF News, deixei de ler blogs. E, não fosse ele, tê-lo-ia feito antes.

Em 2003-2004, havia uma discussão interessante sobre aquilo que se poderia escrever no blog. Este era o meio natural para se escrever sobre o quê, com que estilo, etc. Mas, uns 5 anos depois, com milhares de pessoas a produzirem diariamente milhares de carateres de forma espontânea numa espécie de esfera paralela a todas as restantes publicações que se faziam no mundo, parecia que os blogs já tinham tocado em tudo de todas as formas. Adolescentes a escreverem sobre política e pastilha elástica, políticos a escreverem sobre adolescentes e pastilha elástica, jovens guionistas a escrever sobre pastilhas elásticas e políticos e adolescentes. As possibilidades foram incontáveis; em 2008 pareceram já esgotadas.

A forma como a partidarização avançou também teve algo a ver com isto perder a graça. Por exemplo, quando o Aspirina B responde a João Galamba com a notícia “Portugal é o país da UE com mais progressos na educação”, toda uma série de dúvidas surge: como é que isto surge neste contexto de esgrima política?, como é que a notícia foi criada, quem foi a fonte?, com base em que estatísticas?, que confiança podemos depositar nessas estatísticas, nós, que sabemos que as contas oficiais são alteradas desde clubes de futebol de 3a divisão até aos governos que têm que se haver com os parceiros europeus?

O mundo onde os blogs eram o meio de comunicação sincero e fora do sistema por excelência voltou a ser aquele onde não temos nada em que acreditar. No 11 de Setembro, foram a solução. Hoje, são só mais uma parte do problema. E, ainda assim, estou a fazer algo que já não fazia há muito tempo: ler blogs. Louco, não?

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