Acidentes

heitor penteado, ao lado do martelinho de ouro: um anão acende um cigarro.

Poderia ser um poema surrealista ou as palavras de um louco. Mas foi isso que eu vi: na avenida Heitor Penteado, junto a uma oficina chamada Martelinho de Ouro, um anão acendia um cigarro enquanto franqueava o portão de uma casa. Isto me importa porquê? Uma das citações que tenho no meu perfil do Facebook é de uma carta que W.H.Auden escreveu a Frank O’Hara, onde ele o aconselha e ao John Ashberry para terem “atenção àquele que é sempre o grande perigo de qualquer estilo ‘surrealista’, nomeadamente o de se confundir autênticas relações não-lógicas, que causam espanto, com as acidentais, que causam uma mera surpresa e, no final, cansaço”. Mas os acasos como o do anão lembram sempre que o surrealismo é diminutivo de super-realismo – a realidade vista de tão perto que a perspetiva se perde e ficamos apenas com isso mesmo: a realidade em macro, sem foco, bruta e absurda. As cabeças com flores no casamento do rei. O elástico que abraça um lápis. A madeira na perna de Roberto Carlos. Tudo no mundo pode ser revelação de deus ou do diabo. Estas palavras também.

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