Impressões da Vila Madalena

Imagem gentilmente roubada daqui.

Até ontem, estive a morar na Vila Madalena, graças àquilo que se pode chamar uma coincidência feliz. A amiga de uma amiga decidiu viajar pela Europa e precisava de alguém para ficar na casa dela. Como ela partiu precisamente no dia anterior ao da minha re-chegada a São Paulo, eu acabei por ser o corpo presente que substituiu o corpo ausente dela.

A minha mãe não gostou quando lhe disse que ia morar na Vila Madalena. Talvez eu não lhe devesse ter dito, quando ela ouviu esse bairro ser mencionado numa novela, que era uma zona de bares e vida noturna. Como eu nunca tinha saído de casa à noite – nunca, em momento algum da minha vida – ela tinha razão em preocupar-se. Curiosamente, a minha passagem pela Vila prova a bela e contraditória natureza humana: durante o meu mês lá, não saí para os bares que povoam a região uma única vez, a não ser para comer alguma coisa e beber uma cervejinha na Mercearia São Pedro, que é o único boteco no mundo onde é possível comer-se um bauru ao mesmo tempo que se ouve Leonard Cohen. Ou seja, é o único boteco do mundo onde ao mesmo tempo apetece encher o estômago e cortar os pulsos.

Morei na parte alta da Vila, muito próxima da Heitor Penteado. O meu prédio estava rodeado de parquezinhos pequenos e muito verdinhos e casinhas com piscinas e pessoas que faziam as suas corridinhas ao fim da tarde ou no fim de semana com os cãezinhos ao lado levados pelas trelas e que faziam os seus cocozinhos na rua e algumas pegavam os cocozinhos que os cãezinhos cagavam com uns saquinhos e essas pessoas era boas pessoas, mas as outras que não pegavam não eram. Também não foi boa pessoa o motorista de ônibus que uma noite, depois do trabalho, não parou apesar de eu lhe ter acenado, obrigando-me a esperar uns 40 minutos pelo ônibus seguinte e tirando-me a vontade que levava de cozinhar. Graças a ele, experimentei pela primeira vez a sensação do criador romântico/pós-industrial de aquecer uma sopa de tomate Campbell’s e comê-la. Considero que a lasanha de peito de peru da Sadia devia ter merecido mais a atenção dos artistas pop.

Tive uma colega de casa, que quase nunca estava lá, o que era espectacular, porque assim podia fazer coisas loucas como ver o Comédia MTV nas alturas e comer sopa de tomate da Campbell’s sem que alguém saudável me viesse meter juízo na cabeça e dizer “olha lá que isso vai-te fazer doer a barriga”. A sopa, não a Comédia. A Comédia é o melhor programa de humor do Brasil em ex-aequo com as entrevistas da Funérea e, quanto muito, vê-la nas alturas só me faria dor de ouvidos. Mas, voltando, a minha colega era muito boa pessoa e ensinou-me, entre outras coisas, qual a configuração ideal de um pano de prato. Agradecer-lhe-ei para todo o sempre, se bem que continue a não entender muito bem porque é que um trapo limpo não poderia servir para uma emergência.

Enfim, tudo o que é bom tem o seu fim. Tal como a Grécia, a amiga da amiga vai sair da Europa amanhã e reclamar a propriedade do imóvel. No entanto, fica aqui a devida vénia: acho que nunca estive num banheiro tão requintado numa casa particular, nem no Brasil nem em lugar nenhum. Com azulejos vermelhos, uma bancada larga e claridade abundante, foi um regalo tomar banho e fazer tudo o resto lá. Ele era tão bom que toda a gente o devia apreciar. Por isso é que não me importava nada quando os vizinhos se punham à janela a olhar para mim todo pelado. Como se diz na minha terra, o que é bom é para mostrar – e aquele banheiro era realmente ótimo.

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