Ontem à noite

httpv://www.youtube.com/watch?v=bgdy8OJ_tmM
Eu sonhei que ela sabia tocar piano. Enquanto coisas terríveis aconteciam no mundo, homens maus faziam maldades às bondades dos homens bons, ela sentava-se ao piano e tocava. Às vezes, duas pessoas com quem ela trabalhava sentavam-se ao piano com ela e tocavam as três juntas, uma delas murmurando qualquer coisa, como o Glenn Gould. Era Bach, via-se nisso e nas teclas que premiam, mas não conheço a canção.

Também sonhei com Cesariny e com versos breves com perguntas. Vi os versos, curtos e a terminarem com pontos de interrogação, a resposta imediatamente depois, mas eu não sei se alguma vez Cesariny escreveu um ponto de interrogação num verso. Assim de cabeça acordada, não me lembro. Mas no sonho ele fazia perguntas e dava as respostas, como uma conversa contigo mesmo que estás sempre a fechar e a recomeçar porque te lembras sempre de algo novo a perguntar. E eu apercebo-me agora que há pessoas que me lêem que não sabem quem é Cesariny. Cesariny é um poeta português, um dos que fez o Surrealismo, e que escreveu coisas como

Vem, Vulva antiqüíssima e idêntica
Vulva Rainha nascida destronada morta
Vulva igual por dentro ao silêncio, Vulva
Com teus pentelhos lantejoulas rápidas
No teu Ôlho franjado de infinito.

no Virgem Negra, um livro que se propõe explicar Fernando Pessoa às criancinhas, mas também escreveu

Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício

em You Are Welcome To Elsinore. Elsinore era o castelo do Hamlet, mas nem toda a gente se lembra. Nem eu me lembro às vezes. Quando atuei no São Luiz agora da última vez que estive em Portugal, mesmo na véspera de voltar para o Brasil, só o JP Simões se lembrava. E por acaso não sei se o JP Simões sabe tocar piano, acho que nunca o vi tocar piano. Talvez uma vez, em Coimbra, a tocar a Living Room. Será? Seja como for, não era Bach, esse era outro sonho e uma outra pergunta. Este texto é a resposta.

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