Coisas do Brasil: catupiry e chocolate


Aprende-se na catequese e na igreja e nos vídeos do padre Marcelo Rossi que Deus é diferente, porque é omnipotente, omnisciente e omnipresente. Das primeiras caraterísticas, não tenho muito a dizer. Mas na terceira, no Brasil, ele não tem o primeiro lugar indisputado. Duas coisas estão, se não mais, pelo menos tão presentes na vida neste país: o catupiry e o chocolate.

Há dois momentos na vida de um homem: antes de ele saber o que é catupiry e depois. A coisa parece respeitável de início. Uma espécie de creme de queijo, um pouco à la Philadelfia, mas sem sabor sintetizado, inventado por um italiano em Minas Gerais há 100 anos. Um amigo mais velho disse-me que o catupiry não é assim tão antigo na sua ubiquidade. Foi só nos últimos 20 anos que a hotelaria descobriu todo o seu potencial e o começou a utilizar em tudo o que é possível. Hambúrgueres, sanduíches, tortas, pizzas, coxinhas e todo o tipo de salgados, acompanhamento em dezenas de pratos, doces e sobremesas várias. A sofisticação das casas vê-se no fato de utilizarem “o verdadeiro Catupiry” ou só um sucedâneo e “com ou sem” catupiry é uma pergunta da praxe em qualquer lugar que venda comida. Ou seja, no Brasil há toda a comida, por um lado, e, pelo outro, há catupiry. Ele é um continente à parte. Se fosse um país, era a Austrália.

Foi numa novela brasileira que ouvi pela primeira vez a expressão “chocólatra”. Era uma dona de casa loira que, se me lembro bem, enganava o marido. E, se é verdade que nunca deixará de haver maridos cornos, também o chocolate não vai abandonar o Brasil tão cedo. O brigadeiro é o doce nacional por excelência; comer brigadeiro de colher (que todo mundo come da mesma panela, juntando o prazer do chocolate e do açúcar ao da saliva dos amigos e colegas de trabalho) é um ato comunitário só comparável à matança do porco. Bombons aparecem do nada, como os ratinhos que dantes se pensava nascerem em caixas fechadas com palha dentro. Brownies são devorados diariamente pelas ruas. Há quem não tome café, mas não abdique do cupcake depois da refeição. E os cardápios de sorvetes afixados em padarias têm uma monotonia cromática tão forte de cacau que os designers gráficos devem odiar fazê-los. Não é o etanol que faz o Brasil mexer-se. Não é o samba ou o futebol. É o chocolate.

A minha pergunta é: porque é que o catupiry e o chocolate nunca se encontraram. Talvez numa pizza, algum dia, alguém o tenha feito. Talvez um dia um molho de chocolate tenha caído sobre uma torta com catupiry, alguém provou e disse “hmmm, que bom, descobri algo novo”. Se isso aconteceu, eu quero saber. Contem-me. Pode ser que façamos negócio.

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