Red Hot Chili Peppers em São Paulo, ou o turista rock

Sabem aquela coisa de turista e viajante serem diferentes? O turista frequenta, o viajante está. O turista quer conforto, o viajante quer experiências. O turista passa férias, o viajante passa riscos. Etc, etc, já entenderam. Basicamente, ponham um japonês de máquina fotográfica ao lado do Bill Bryson e está feita a distinção.

Ia mostrar agora a batalha de lama durante o show dos Greenday no Woodstock de 94, mas não simpatizo especialmente com Greenday, porque acho que eles castraram o rock e foram o peido que espoletou essa série de bandas de pop proto punk que andam por aí aos caídos, como os Blink 182. Por isso, vai o vídeo de Primus do mesmo festival.

httpv://www.youtube.com/watch?v=IaCXxqRNNcc

A espiral confusa e autofágica que o público faz e o fato de estarem pouco a cagar-se se a lama os suja desde que estejam no meio desse círculo moshante quase xamânico era normal. Grunge, início da era Clinton, anos de escuridão republicânica, extravasar a depressão criada pela felicidade synth pop dos anos 80.

Agora, vejamos este vídeo do show de ontem dos Red Hot Chili Peppers em São Paulo.

httpv://www.youtube.com/watch?v=V2J3Iz6aMJo

Este vídeo foi tirado da área VIP. Só por si, já é uma descoberta do caralho. A ideia que um dia um promotor de concerto pensou, “se nós criarmos uma área cercada à frente, conseguimos meter lá toda a gente que está disposta a pagar mais do dobro do bilhete normal só para ter esse conforto, para tirar fotos e ouvir melhor o som”, foi tão boa como se Van Gogh tivesse cortado a orelha para ficar mais bonito. Rock é liberdade e energia – não é a porra de uma grade que te impede de ir para onde queres e te dá mau som se estiveres mais atrás. A ideia de um show como experiência terminou. Parece que vendemos uma simulação do que o rock foi em pílulas leves que qualquer um pode tomar, em vez do real deal.

Mais: contem o número de pessoas que estão a gravar o show com o celular/câmera. Dezenas. E isto só na área VIP. Eu, que estava na pista comum com o povo que só pagou 200 reais, queria moshar. Moshei pela primeira vez aos 15 anos em Vilar de Mouros. Cheguei a casa com a cara coberta de pó, funguei uma mistela negra durante 3 dias, mas, porra, senti-me vivo. E ontem mesmo os putos fixes com metade da minha idade que estavam ao meu lado só mosharam um bocadinho, durante a By The Way. Nem na Give It Away arrancou grande coisa. Ao menos não gravaram nada com o celular.

Ou seja: de 94 a 2011, alguma coisa aconteceu que transformou os ouvintes de rock em turistas de rock e tornou os Red Hot Chili Peppers, que no Woodstock de 99 foram acusados de incitarem ao estupro de mulheres e invasões e destruição de propriedade só por terem tocado a “Fire” do Jimi Hendrix, num espectáculo em que não se participa, antes se fotografa a partir da pista VIP. Um espectáculo equilibrado, em que se sabe o que vai ter, e que não é mau, mas não surpreende. Porque não tem descontrolo. E o descontrolo importa muito nestas coisas.

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