Enquanto lucubro, penso:

Há tempos, uma amiga disse-me que esperava que eu não me tornasse cínico. Está muito difícil controlá-lo. Tenho ao mesmo tempo uma confiança muito grande nas pessoas e uma certeza inabalável que elas são incapazes de não errar. Ao longo do tempo, fui trabalhando esse desejo, como vi o David Lynch dizer uma vez que sabe que uma escultura está pronta porque sente-o nas pontas dos dedos. Eu fui trabalhando esse desejo e expetativa até uma condição em que esse erro me aparece carinhoso, do tipo “que carinhosa, esta pessoa, não conseguiu manter a pila dentro das calças e fodeu a cena boa que tinha” ou “que querida, esta pessoa, encheu-se de dívidas e agora vai redescobrir que a natureza humana não é muito melhor do que a da lama” ou “que carinhosa, esta pessoa, fez um casamento e um bebé porque achava que queria ser igual à amiga e agora já olha para o marido e para o filho com ar de quem quer estar longe, longe, longe”. Ou seja, não tenho fé nenhuma em ninguém. Ao mesmo tempo, adoro toda a gente. É divertido.

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