Tudo é iluminado? O cara**o. Tudo é bem escuro.

1. Hoje, 13h30. O rapaz que traz o almoço aqui entregou-me um pequeno flyer do candidato a vereador que ele apoia. Eu disse que não votava no Brasil. Ele não é chato, não insistiu. Perguntou à recepcionista da produtora se já tinha candidato. Ela disse que já tinha e ele guardou o flyer sem reclamar. Eu perguntei-lhe porque é que ele apoia esse candidato. Ele respondeu “porque o caminho dele… é o meu. O caminho de Cristo”.

2. Ontem à noite, lendo o Público no Kindle antes de dormir. Do artigo sobre o apoio dos músicos portugueses às Pussy Riot, ficou-me na memória este depoimento:

Frágil, vocalista da banda punk Motornoise, acha que Portugal é “um país de manifestações no Facebook”. Lembra-se de “ver os milhares de pessoas que se juntaram para uma manifestação [‘Geração à rasca’], toda a gente ficou muito encantada com aquilo e a seguir mais nada”. “As pessoas não saem, não protestam, o Facebook para o português não podia calhar melhor”, conclui.

3. 27 de Julho de 2012. Um rapaz comum de 21 anos chamado Brett Cohen espeta uma partida monumental em Nova Iorque. Veste-se ao estilo ex-vencedor-do-american-idol e passeia-se pela baixa. Uns amigos fingem ser guarda-costas, entourage e fotógrafos, completando o disfarce. Os transeuntes caem que nem patinhos. As câmeras e os celulares disparam, as pessoas lembram os filmes em que o viram, as adolescentes gritam, um homem declara que adorou o seu último single. E Brett ficou calado enquanto deixava tudo acontecer à sua volta.
httpv://youtu.be/XYU1a0lTTTw

4. Julho de 1961. Inspirado pelo julgamento de Adolf Eichmann (o mesmo que levou Hannah Arendt ao conceito da banalidade do mal), Stanley Milgram começa uma experiência em Yale para avaliar até que ponto é que, perante uma figura de autoridade, alguém pode praticar atos contrários à sua consciência moral. Os testados tinham que dar choques elétricos de intensidade crescente a um sujeito, caso ele não conseguisse responder corretamente a uma série de perguntas. Era tudo mentira, mas os testados não sabiam. Se, incomodados pelos gritos de dor do ator, eles quisessem parar o teste, o investigador que os acompanhava diria só as seguintes frases nesta ordem:

– Por favor, continue.

– A experiência requer que você continue.

– É absolutamente essencial que você continue.

– Não há outra opção, você tem que continuar.

A experiência seria interrompida se ainda assim o testado ainda quisesse parar. Se isso não acontecesse, só terminaria depois de ele dar 3 choques de intensidade máxima, 450 volts. Os testados não eram indiferentes à suposta dor do sujeito: eles “suavam, tremiam, gaguejavam, mordiam os lábios, gemiam, cavavam as unhas na pele, e alguns até tiveram ataques de riso nervosos ou convulsões”. Mas, contra todas as expectativas de Milgram, 65% deles chegaram à carga máxima.

Não sei bem como, mas eu sei que estas coisas estão ligadas. Eu sei, eu sei, eu sei, eu sei, eu sei.

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