O tempo e o homem

O programa do Jô passa. Um ator fala sobre ter trabalhado numa ilha grega porque faltavam homens para a agricultura e ele acabou contratado. Ele não é o que fez aquela série em Portugal com a Tônia Carrero? Já não me lembro, não o reconheço mais. Não interessa. São Paulo está cheia de luzes de Natal, o que me faz sentir ainda mais calor e me deixa sempre meio tonto. As árvores aguento. Até os gorros aguento, porque eles ficam no topo da cabeça para a foto, tiram-se depois e pronto. Mas as luzes e as figuras de Pai Natal e as renas, isso faz-me sempre suar mais. Semana passada a temperatura andou pelos 40º aqui e no Rio – lá sempre mais quente, mas lá há praia e blablablá. O ator no Jô tem o cabelo comprido. Ele não parece ter calor, mas também já ouvi dizer que há quem goste de baixar muito a temperatura nos estúdios. Talvez o do Jô seja assim. O da Xuxa, acho, é muito frio, um gelo mesmo, talvez para não atrapalhar as danças e tudo o mais com manchas de suor.

Pergunto-me se faço bem em escrever isto, se a temperatura em estúdios deve ser tabu para roteiristas. Disseram-me que Angola agora em Portugal é um assunto tabu. Agora poderia falar de bullies, mas não gosto dessa palavra e prefiro falar em brutos. Há dias em São Paulo um rapaz começou a ser chateado por duas bestas num carro enquanto subia uma rua da Vila Madalena a pé. As bestas chamaram-lhe viado, o rapaz respondeu e, por aquilo que entendi, mandou-os à merda, o que, na minha opinião, é muito justo. Os gajos saíram do carro e deram-lhe uma carga de porrada. Partiram-lhe a cara, ficou com os olhos pisados e a testa aberta. Primeiro fiquei a pensar no que leva duas bestas a querer sair de um carro para malhar num homem por gostar de outros homens. E depois pensei que o que o rapaz fez é o que todos deviam fazer aos brutos desta vida: mandá-los à merda e levar a porrada que for preciso.

Lembro-me do meu avô. Disse-me para não me meter em pancadaria, mas, se algum dia me viessem bater, que eu desse também. O rapaz homossexual foi bem mais homem do que as bestas que lhe deram porrada. E assim eu penso: o que deve ser um homem? Eu acho que, se as mulheres se discutiram e se decidiram no século XX, agora é o momento de o homem se discutir e se decidir também. O que é um homem, penso. E só uma resposta me parece possível: um homem tem que ser um guardião sério daquilo que acha justo. Isso não significa ser conservador. Significa pensar sozinho o que acha que o mundo deve ser, saber aplicar o peso e a medida certos para o conseguir e assumir as consequências das suas ações. Isso vai desde mudar uma lâmpada em casa até andar à porrada porque não quer ser pisoteado, ou desde trabalhar nas colheitas de uma ilha grega com escassez de braços até ajudar os filhos a educarem-se.

Um homem tem que fazer o mundo continuar a funcionar para ajudar o mundo a ir para a frente. Por alguma razão os gentlemen aprendiam boxe.

Anúncios

Um comentário sobre “O tempo e o homem

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s