Roupa e velhice

Há já algum tempo que não fazia férias. Mentiria se dissesse que não gosto nada disto e estou louco para voltar para o trabalho. Mesmo morando no Brasil e tendo de aproveitar para fazer férias em Dezembro, quando a temperatura lá faz o corpo pedir praia e eu lhe acabo por dar frio. Mesmo assim.

Férias servem para descansar, mas eu acho que elas também servem como momentos de reflexão, bons para pensar no que se fez no antes e como se fará o depois. Gosto, por exemplo, de pegar em projetos criativos pessoais e dar-lhes um avanço. “Dar-lhes um avanço”, claro, significa ficar a ruminar na meia dúzia de palavras que neles posso escrever enquanto, na verdade, estou é a mudar o design deste site e a comer sandes de chouriço. Mas valeu a pena, já viram que bonito ficou? (burp)

Outra coisa que gosto de fazer nas férias é aproveitar para me incomodar com aquelas coisas com que raramente me incomodo. E uma delas é roupa.

Cabe dizer que eu odeio roupa. Mais precisamente, odeio prová-la, comprá-la, vesti-la, lavá-la, pendurá-la, passá-la e, quando ela já está gasta, pensar em como me devo ver livre dela. Sou daquelas pessoas que nunca vê nada de que gosta e, quando a necessidade de se cobrir aperta, entra numa loja, compra tudo do que precisa e sai de lá a correr enquanto se chicoteia nas costas. Foi precisamente isso que aconteceu hoje. Mas, no meio do processo descobri algo que me fez sentir velho, resmungão e machista. E tudo no exíguo espaço duma Modalfa. Sim, sou um mãos-largas.

Como qualquer pessoa que anda muito ocupada a tentar salvar-se da influência corruptora do mundo, desconhecia o meu número de calças, por isso, tive de provar dois ou três até perceber qual encaixava melhor. Nesse processo, descobri que a Modalfa vende três tipos de calças: as normais (“straight”), as estreitas (“skinny”) e as mais largas (tenho mais que fazer que lembrar-me do nome destas também, tá?).

Eu já vira pessoal a usar calças skinny e, normalmente, é tudo gente muito hipster e que, claramente, não se está a tentar salvar da influência corruptora do mundo. Mas nada me poderia preparar para o que se seguiu. Inconsciente do poder destrutivo do objeto, levei um modelo para experimentar. Enfiei-as pelos pés, puxei-as para cima e, apesar de nada acontecer na cintura, a barriga da perna sofreu tal pressão que parecia que estava a fazer de Martim Moniz contra a tíbia e o perónio. De certa forma, sentia que estava a vestir uns collants, mas uns que pudessem ser usados num manicómio para restringir os movimentos dos pacientes que teimassem em fugir. Uns collants de forças para o louco que, esta tarde, na Modalfa de Monção, fui eu.

E aí veio a parte machista da história: pensar que aquela merda não é roupa que um homem deva usar, porque um homem tem que poder estar confortável para andar à porrada sair a correr de lojas de roupa enquanto se chicoteia nas costa. Além do mais, que raio de resultados se pode conseguir numa contagem de espermatozóides depois de anos a usar aquelas proto-ceroulas-mais-desconfortáveis-de-sempre?

E a parte de se sentir velho e resmungão: a geração antes da minha queixava-se que nós ouvíamos música alta demais e não nos sabíamos vestir. Já a geração mais nova do que eu parece que ouve música feita por e para caniches cor de rosa e gosta de andar de colhões apertados. Isto demonstra uma grande inconsciência: ainda vão vir aí muitas manifestações e os governos não se vão deixar intimidar por pessoal a andar como pinguins. Não me conformo.

7 comentários sobre “Roupa e velhice

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