Sobre o fim do mundo

Não sei se viram. Viram? Era 1h21 em Portugal. Por acaso, estava lá fora a fumar um cigarro e vi. As nuvens do céu abriram-se e deu para notar as estrelas brilharem. Geladas, definitivas, como sempre. Dei um trago do cigarro. Uma mancha rosa ocupou a estratosfera e cobriu as estrelas, como se as visse através de uma cortina. E, de um momento para o outro, desapareceu. Não a mancha rosa – ou não só a mancha rosa. As estrelas, as nuvens, a lua. Tudo sumiu. O céu esvaziou-se, perdeu o sentido, deixou de ser. E eu, que estava por baixo dele, perdi-me do que fui.

A brasa chegou ao filtro e queimou-me o dedo. Eu gemi de dor, baixei o olhar, soltei o cigarro. E, quando olhei de novo, tudo estava normal: as estrelas nos seus lugares, a mortiçar o mundo com luz triste. As nuvens, prestes a avançar contra elas. E a lua, grande e intata, sendo lua, como sempre.

Não sei se viram o mundo acabar ontem. Viram? Ele acabou. E depois voltou ao que era. Um palco, um campo, uma casa. E, ao mesmo tempo, nenhuma dessas coisas.

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