Retrospectiva, 2 de 2: as melhores coisas que li online em 2012

2012 foi o ano em que me lembrei que o meu Kindle estava mesmo a calhar para ler textos longos. Não falo de livros ou jornais – para esses já sabia que era bom – mas mesmo daqueles que se encontram na Internet durante o dia, que não se podem ler no momento e que não se querem esquecer mais tarde.

Daí, foi só um passo até encontrar o aplicativo Send To Kindle (aqui na versão Firefox, mas também há para o Chrome), que, com uma configuração mínima, permite enviar os textos para o aparelho com um só clique. Quando, por essa mesma altura, descobri também os sites LongForm (meu preferido) e LongReads, que se especializam em reunir ligações para, lá está, artigos longos, a desgraça foi total.

Este texto será longo. Se você tem um Kindle, siga os passos que descrevi. Vai-me agradecer no fim.

Ter algumas das melhores peças do jornalismo mundial, de graça e rapidamente, num aparelho que anda sempre comigo é como ter uma revista personalizada que se está sempre a atualizar. A maioria dos artigos que incluo aqui veio do LongReads e do LongForm, mas também li muitas coisas do Público, da Folha e do BoingBoing, blog que acompanho há anos e que, por mim, já tinha ganho o Pulitzer vinte vezes.

OS ARTIGOS
2 Good 2 Be 4Gotten: An Oral History of Freaks and Geeks

JAMES FRANCO: I was interested in the writing, so after hounding Judd and Paul they said, “You want to see how it’s written?” They took me into Judd’s office, and they wrote a scene right in front of me, just improvising as the characters out loud. That was really important for me.

Andava na universidade quando a Sic Radical fez uma maratona de Freaks and Geeks. Não sabia nada da série, mas, durante dois dias, não saí da frente da TV. Ver gajos que admiro como Judd Apatow, Jason Segel e James Franco a falar de uma das coisas que mais gostaram de fazer na vida é um luxo.

With Friends Like These

DAVID SCHWIMMER: I thought it was significant for us to become a mini-union. Because there began to be a lot of decisions that had to be made by the group in terms of publicity. That was actually a by-product of how the impulse originated, which was from my ensemble theater.

Ao longo da vida, já conheci pessoas que reverenciavam Friends. Também conheci outras que odiavam a série. E todas eram respeitáveis. Para mim, Friends é uma boa – sublinho o “boa” – sitcom de fim de tarde na RTP2 e não mais do que isso. Mas o seu impacto cultural foi muito grande e as personagens tornaram-se símbolos dos diferentes tipos de jovens adultos. Aqui, os atores e criadores falam sobre a génese, produção e final do programa.

‘I Pretty Much Wanted to Die’

The biggest problem with the show was the audience would want the characters to get off the island. How do we defuse that desire?

Lost levou para as networks clássicas o padrão que a HBO estava a impor como a “Nova Televisão”. E é uma lição para qualquer roteirista que a ideia original tenha vindo de um executivo.

I Was an A-List Writer of B-List Productions

Sholokov, Shakespeare, Campbell: such was my considerable range as a screenwriter for hire. Nowadays when I open a green envelope, it feels less like reaping a reward than confronting a feverishly hardworking and naively idealistic ghost of myself.

Outra lição para roteiristas: é possível ser um escritor apaixonado de qualquer coisa – mesmo de subprodutos televisivos de que ninguém se vai lembrar.

Neil Gaiman: Keynote Address

People keep working, in a freelance world, and more and more of today’s world is freelance, because their work is good, and because they are easy to get along with, and because they deliver the work on time. And you don’t even need all three. Two out of three is fine. People will tolerate how unpleasant you are if your work is good and you deliver it on time. They’ll forgive the lateness of the work if it’s good, and if they like you. And you don’t have to be as good as the others if you’re on time and it’s always a pleasure to hear from you.

Um discurso do escritor britânico numa cerimónia de final de curso. Em 2012 li discursos de formatura do David Foster Wallace, do Aaron Sorkin, do Steve Jobs… são sempre inspiradores e interessantes, mas este é aquele de que gostei mais, quanto mais não seja porque qualquer pessoa que trabalhe ou já tenha trabalhado como freelancer entenderá as palavras aqui em cima como absolutamente corretas.

Teller Reveals His Secrets

Magic is an art, as capable of beauty as music, painting or poetry. But the core of every trick is a cold, cognitive experiment in perception: Does the trick fool the audience?

Teller é um filósofo da magia. No palco ou na televisão, ele é mudo. Mas, quando decide falar, todos o deviam ouvir.

Daddy: My Father’s Last Words

“Love!” he said with each point of his finger. “Love! Love! Love! Love! Love! Love!”

No final deste texto, tinha os olhos cobertos de lágrimas. É tudo.

My Father’s Fashion Tips

Make sure to splash some cologne on your privates—that’s another thing.

Um artigo ótimo da GQ onde um jornalista fala da sua relação com o pai através dos conselhos de beleza que este lhe dava – e como eles sobrevivem, ou não, na velhice.

Minha dor não sai no jornal

Eu era fotógrafo de O Dia, em 2008, quando fui morar numa favela para fazer uma reportagem sobre as milícias. Fui descoberto, torturado e humilhado. Perdi minha mulher, meus filhos, os amigos, a casa, o Rio, o sol, a praia, o futebol, tudo.

A liberdade de imprensa no Brasil e no mundo é um tema que sempre dará muito que falar. Este é um caso extremo, e a ser lembrado sempre que tivermos que provocar a coragem – e nunca o medo.

The Most Amazing Bowling Story Ever

One man, an opponent of Fong’s that evening, calls it “the most amazing thing I’ve ever seen in a bowling alley.” Bill Fong needs no reminders, of course. He thinks about that moment—those hours—every single day of his life.

Já seria difícil pensar que poderia ficar agarrado a um artigo sobre desporto, mas nunca na minha vida imaginei que não poderia largar um texto sobre bowling. Um magistral exercício de narração, e atiro uma bola de metal à cabeça do primeiro que me disser o contrário.

The Savage Eye: Aesthetics After 9/11

Apparently, even the severe-clear horrors of 9/11 weren’t immune to the Stepfordization all around us — the replacement of the immediate by the mediated, the physical thing by its filmic image.

Lembrei-me muito deste texto há semanas, quando a fotografia no New York Post do homem empurrado para a linha de metro foi notícia. A fotografia, mais do que o homem.

Hard Core

He couldn’t stay aroused. Over the course of the tryst, I trotted out every parlor trick and sexual persona I knew. I was coquettish then submissive, vocal then silent, aggressive then downright commandeering; in a moment of exasperation, he asked if we could have anal sex. I asked why, seeing as how any straight man who has had experience with anal sex knows that it’s a big production and usually has a lot of false starts and abrupt stops. He answered, almost without thought, “Because that’s the only thing that will make you uncomfortable.” This was, perhaps, the greatest moment of sexual honesty I’ve ever experienced—and without hesitation, I complied.

Não sei porquê, comecei a ler esta reflexão sobre as ligações entre pornografia e a vivência social convencidíssimo que não a iria querer acabar. Mas, no final, sabia que tinha acabado de ler o melhor texto sobre sexo dos últimos tempos.

Club Unicorn: In which I come out of the closet on our ten year anniversary

This is the post where I tell you that I, Josh Weed, am homosexual.

Um mórmon declara-se homossexual para o mundo, escrevendo um artigo no seu blog junto com a sua mulher de há dez anos, com quem continua casado e que não tem intenções de abandonar, trair ou deixar de se relacionar sexualmente. Confusos? Eu também fiquei, e a melhor coisa do texto é como ele parece ouvir as perguntas que vão surgindo na nossa mente e as responde.

10 Timeframes

I’ve been talking for around a minute now. If this speech was a century long we’d be ending the first decade. If it were the 20th century we’d be thinking about getting a telephone installed and wondering if we should trade in our horse for a car. Depending on where we lived, of course.

O que é o Tempo, e quantas acepções podemos ter sobre ele?

The Most Dangerous Gamer

This is what makes Blow’s games so remarkable: at great personal expense, in ways no other developer has even attempted, he struggles to communicate a deeply authentic vision of the meaning of human existence.

Não é normal, mesmo na imprensa da área, ler sobre criadores de videogames que invocam para si, quer queiram quer não, uma qualidade de “autor”, transportando para os seus jogos as suas reflexões sobre a vida e o mundo. Talvez seja porque não há muitos. Pelo menos, este é um deles.

E, SÓ PARA ACABAR…
Descobri o Diário do Centro do Mundo através um texto magistral sobre o candidato Celso Russomanno que circulava pelas redes sociais aquando da campanha para as eleições municipais. Russomanno estatelou-se nas eleições, mas o Diário ficou-me. Acho que algum do melhor jornalismo em português está a ser escrito hoje lá. Um elogio a Paulo Nogueira por levar este projeto para a frente.

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