Elegia a Albert Camus

albert camus

Perguntaram-lhe se era um intelectual de esquerda, e ele respondeu, “Não sei se sou um intelectual. Quanto ao resto, sou de esquerda, apesar de mim e apesar da esquerda.”
(…)
Durante a guerra de 1954 a 1962 na Argélia, Camus recusou escolher entre os árabes argelinos, cujos direitos ele defendia com frequência, e a sua própria gente, os pieds noirs europeus. (…) Depois da cerimônia do prémio Nobel na Suécia, ele foi abordado por um jovem argelino a quem respondeu, num ataque de indignação “Eu acredito na justiça, mas defendo a minha mãe antes da justiça”.
The Irish Times

Por acaso, há dois dias comecei a reler coisas sobre Camus e, numa daquelas coincidências boas (para não dizer incríveis), reparei que 7 de Novembro – amanhã! – é o centenário do nascimento dele.

Albert Camus foi provavelmente o autor que me marcou mais na vida. Li “O Estrangeiro” na idade certa, aos 16 ou 17 anos, na esplanada do antigo café das Termas em Monção. Enquanto os emigrantes temporariamente retornados aproveitavam as férias de Verão nas mesas ao lado, eu enchia o livro de notas, sublinhados e dobras (e, claro, espreitava-lhes as filhas). Como disse aqui, no primeiro e mais duradouro blog que tive, batizado com o título de outra obra dele:

Nunca tão claramente (ou mesmo nunca mais) um livro me transformou (…), no sentido de que o meu pensamento, a minha ética, tornaram-se outros depois de o ter lido. (…) Eu fui para a universidade para ser um homem absurdo – ou seja, tentei reflectir na minha vida o que tinha lido (…) e por isso é que “O Estrangeiro” é o livro da minha vida. Apropriei-me dele quando tentei aplicar o seu “programa” a ela e isso nunca mais voltou a acontecer com outro livro, por falta de disposição e porque, se calhar, a própria vida só nos dá uma tentativa para que isso aconteça.

Não sei se estava a sucumbir a um resto de entusiasmo adolescente há dez anos quando escrevi isto. Por outro lado, entusiasmo nunca deixa de ser uma coisa boa. Acontece-me com Camus uma daquelas coisas mágicas e difíceis de acontecer com qualquer autor: uma identificação imediata com o que leio e com a pessoa por trás daquele texto, desconfiado de totalitarismos, defensor do justo, um pensador livre. Parece que ele me tira da cabeça pensamentos que não pensei, mas que estão lá, prontos para serem pensados. Todas as frases estão no lugar certo e escritas do jeito que devem ser escritas, sem nada a mais e sem nada a menos. E, depois, parece que ele está a escrever só para mim, como se os romances dele fossem cartas que só encontraram o destinatário quando eu as encontrei. A personagem Joseph Grand, d’A Peste, um homem cujo trabalho de vida é reescrever constantemente uma frase até ela ficar perfeita (“Por uma bela manhã do mês de Maio, uma elegante amazona percorria, numa soberba égua alazã, as áleas floridas do Bosque de Bolonha”), marcou-me tanto que passei a usar esse nome em fóruns de Internet, nicknames em sites, emails, etc. Às vezes havia quem pensasse que eu me estava a referir ao tamanho do meu membro sexual, mas, quando o mundo real acontecia, só o Camus me restava.

Nos teus 100 anos, Camus, eu agradeço-te, honro a tua memória e declaro a minha admiração. Espero um dia produzir alguma coisa que marque alguém tanto quanto o que tu escreveste me marcou a mim. Por enquanto, releio-te, agora e sempre.

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