A vida depois da morte

Em momentos dolorosos, quando perco um familiar ou uma pessoa próxima, eu gostaria de acreditar que ela foi para um lugar bom. O fato de ter sido criado católico faz-me querer que ela esteja com as pessoas que ela amava falecidas antes dela, e que eu poderei encontrar todas à minha espera um dia. Essa imagem conforta-me e ajuda-me a superar o luto.

Mas eu não sei se será assim mesmo.

Eu penso que não existe um céu ou um inferno. Mas eu também penso que não se acaba tudo no momento em que expiramos pela última vez. Isso por duas razões.

A primeira é que nós deixamos algo. A história de escrever um livro, ter um filho, plantar uma árvore, por exemplo. Querendo ou não, esses são os três únicos jeitos em que conseguimos adicionar algo ao mundo. Principalmente nos dois primeiros: um que vai do imaterial ao material (um livro apela ao pensamento, que apela, de uma forma ou outra, à ação concreta) e outro que vai do material ao imaterial (gerar um novo corpo que incorporará um espírito). A nossa presença não se extingue no momento em que morremos e vai mudar o futuro por consequência.

A segunda razão é que o nosso corpo é material orgânico e, como todo o material orgânico, ele faz parte da Natureza. E como na Natureza nada se perde e tudo se transforma, ele também se vai transformar e alimentar o mundo. As células do nosso organismo perecido vão fermentar, carregar a atmosfera, transformar-se em árvores, em plantas. Estas vão alimentar animais, e estes vão alimentar outros animais, E estes um dia também vão deixar a vida e alimentar o círculo uma e outra vez, até ao infinito.

Por isto, nós acessamos a transcendência e a plenitude. Nós mesmos somos presente, passado e futuro. Existimos agora, incorporando tudo o que já viveu antes e em nós está aquilo que enformará o que vai existir depois.

Se isto não é vida eterna, eu não sei o que é.

Dito isto, acho que a verdadeira pergunta que se faz quando nos perguntamos sobre se há vida depois da morte é “até que ponto é que a consciência persiste depois da morte”. Ou seja, se nós continuamos a ter uma noção de nós mesmos depois que a nossa carne se extingue. Esta pergunta eu não sei responder.

De qualquer forma, acho que o envelope que aparece nesta cena é bem mais sério do que pode parecer.

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