Sobre American Horror Story (aviso: contém spoilers)

A quarta temporada de American Horror Story terminou e só serviu para me confundir mais em relação à série. De todas as que sigo, é a que me deixa mais indeciso quando alguém me pergunta “Gostas?”.

Os criadores e showrunners são o Ryan Murphy e o Brad Falchuk, autores do Glee.

O piloto da série era confuso e com um ritmo nervoso que não favorecia a série em nada. Foi dirigido pelo próprio Murphy, e ainda bem que depois vieram outros diretores e, quem sabe, outros roteiristas, com visões que acrescentaram valor à original.

A série ganhou mais suspense e menos choque, mais gestão da tensão e menos explosões de adrenalina, mais atenção ao subtexto (uma família disfuncional) e menos ao “supertexto” (uma casa assombrada).

A primeira temporada terminou ok, e a segunda, no manicômio, foi a melhor de todas, com um ambiente tensíssimo, uma curva muito bem amarrada e a clarificação de um dos elementos que mais me divertiu na série: um delírio sobre as convenções do gênero, misturando serial killers, médicos doentios, nazis, zumbis, et’s e possessão satânica numa única história.

Quando a segunda temporada terminou, tinha AHS lá no alto. Mas, com a terceira, tudo se desmoronou.

Ela começou como a jornada de uma menina, uma “coming of age story”.

Depois, a Jessica Lange, e a sua batalha com Angela Basset, tomou a dianteira.

Mas aí aconteceu a disputa entre as bruxas novinhas sobre quem viria a ser a nova bruxa mega master blaster, e as personagens principais começaram a matar-se e a voltar à vida e a morrer outra vez a tal velocidade que eu deixei de me importar. Queria mesmo era que aquilo acabasse o mais depressa possível.

No meio daquela salganhada, tudo podia acontecer. E não de um modo entusiasmante, como aconteceu na s02 de Twin Peaks antes de sabermos quem matara Laura Palmer, mas como aconteceu depois de sabermos, ou seja, um sentimento de “qualquer coisa pode tanto acontecer que me estou a cagar para o que acontece”.

Para mim, o último episódio não foi uma conclusão. Foi uma eutanásia.

Esperei a quarta temporada com curiosidade. Ela seria a que viria clarificar todas as minhas opiniões, facilitar a minha decisão e juízo sobre a AHS. Mas não foi isso que aconteceu.

Ela começou bem. Apesar de ter dado muito foco nas gêmeas siamesas no primeiro episódio (parecia que ia ser a história da relação entre elas e a Jessica Lange), isso acabou por se perder. Como acabámos por entrar num coletivo, com mais personagens boas e fortes, acabei por não dar muita importância, mas isso começa a parecer um traço do AHS: entrar no universo e abstrair-se de uma linha principal.

Ou seja, como se os criadores estivessem a insistir no que foi o erro da terceira temporada para transformá-lo em marca estilística, com a correção de expandirem o universo e não fecharem simplesmente as personagens dentro de um casarão a matarem-se umas às outras.

Houve coisas ótimas.

Ambientar o freak show nos anos 50, em puro conflito com o mainstream americano de classe média suburbial.

Os pseudo clips de músicas que só apareceram depois do período de tempo retratado, como David Bowie ou Fiona Apple.

O igualmente atraente e repelente Dandy, que deu à série o melhor monólogo que ela já teve:

This body is America. Strong, violent, and full of limitless potential. My arms will hold them down when they struggle. My legs will run them down when they flee. I will be the US steel of murder. My body holds a heart that cannot love. When Dora died she looked right into my eyes and I felt nothing. The clown was put on Earth to show me the way. To introduce me to the sweet language of murder. But I am no clown. I am perfection. I am greatness. I am the future, and the future starts tonight.

E houve coisas terríveis.

A canção dos Nirvana que parece ter levado os autores a dizerem “fomos longe demais, isto não é Glee”, porque os momentos musicais sumiram depois disso.

As surpresas sobre a moralidade das personagens, que cheiram mais a preguiça de as pensar do que à criação de uma ambiguidade que nos deixe na expectativa.

E, de novo, tantas personagens a ganharem protagonismo e a morrerem pouco depois (o que foi aquele ventríloco do Neil Patrick Harris?) que eu fui para o episódio final de novo sem grande entusiasmo e prontinho para desistir de AHS.

E a verdade é que duas coisas aconteceram nele que me desconcertaram.

A performance final da Jessica Lange, cantando Heroes do Bowie, fechou a curva da personagem dela na perfeição.

Ela mesma já não era o freak recém chegado do Life on Mars, mas a conquistadora vitoriosa da psique americana, que invadia semanalmente através da televisão.

Aí AHS reclamou de novo, e sem hesitar, o seu lugar como comentador da cultura popular dos EUA.

Mais importante, o massacre a sangue frio de Dandy no freak show parece quase auto-satírico, como se os próprios autores nos estivessem a dizer “as nossas personagens morrem do nada, porque a América mata a sua cultura do nada quando já não precisa dela”.

Se o corpo de Dandy é a América, o vazio moral que o espetador sente quando vê uma personagem morrer é semelhante, não só ao vazio moral dele quando mata, mas também ao de quem apaga do mapa aquilo de que já não precisa em vez de construir a partir dele.

Uma coisa eu consigo dizer: o que falta a AHS é coerência.

Tem-lhe sido muito difícil concentrar-se numa linha narrativa, e sofre com isso.

No melhor, as suas digressões são extraordinárias; no pior, causam-nos indiferença.

Mas – e esta é a minha grande dúvida – e se suscitar essa indiferença perante o aleatório das vidas e mortes das suas personagens for a forma de a série nos acusar a todos de sermos cúmplices de uma cultura que banaliza a vida e a morte como mais um fait-divers, mais uma nota de rodapé no jornal, mais um minuto de televisão preenchido?

Se assim for, essa será a ironia máxima.

A série que começou por assumir os clichês do horror e que depois os misturou com prazer e humor acaba por dizer que a verdadeira “história de horror americana” não é a da violência ou da morte, mas a da sua redução ao zero e ao absurdo.

Mas será que é isso?

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