O dia

Tinha reunião de manhã, acordei com um resfriado surpresa. Lá fora, enquanto comprava cigarros no boteco da esquina, percebi que não tinha o cartão do banco na bolsa. Paguei com dinheiro, voltei para o apartamento. Revirei coisas, não o encontrei. Fiz contas ao dinheiro que tinha, planejei só cancelar o cartão no dia seguinte se não o encontrasse à noite. Saí de novo. Passei pela farmácia, comprei paracetamol e gotas para o nariz. No caminho, uma montanha de pessoas por baixo do Minhocão, perto do Hirota. Expressões entre curiosas e consternadas. Um ônibus do lado, parado no corredor. Acidente? Talvez, se fosse avaria elas caminhariam até ao ponto seguinte para pegar outro ônibus, estava perto. Tentei olhar, mas tinha hora e a multidão era muita, não vi nada. Tive reunião, os olhos resfriados piscando. Fiz contas de novo, com o dinheiro vivo que tinha dava para almoçar e ainda conseguia esticar para o dia seguinte. Almocei. Disseram-me que morreu alguém por baixo do Minhocão, um homem, um ônibus. Pensei que passei pelo ônibus, pelas pessoas, pelo corpo que não consegui ver. O resfriado, os olhos piscando, o mau humor de sempre. Resfriado é a minha TPM. Voltei para casa ao fim da tarde, mais cedo do que o normal. No Minhocão já não havia pessoas, não havia corpo, a vida imparável doía. Um casal saiu da loja chinesa com a filha pequena, ela trazia um brinquedo brilhante na mão. Entrei em casa, o meu cartão estava caído ao lado do sofá. Os olhos piscando, lembrando: estás resfriado, estás vivo, estás resfriado, estás vivo, estás resfriado, estás vivo.

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