O que pensei enquanto assistia o filme proibido de Louis CK

hero_I-Love-You-Daddy-2017-2

I Love You, Daddy, escrito e dirigido por Louis CK, foi banido depois de o autor ter sido levado pela enxurrada de denúncias de 2017.
Estas são as coisas que fui pensando enquanto via.

(tem spoilers)

1

É uma pena e também de uma ironia fatal que a carreira de CK tenha sido interrompida neste filme.
Por causa da revelação de suas perversões no mundo do espetáculo, é “cancelada” a obra em que ele analisa a possibilidade de um relacionamento puro (entre pai e filha)… no meio dos pervertidos relacionamentos do mundo do espetáculo.
Na verdade, a dado momento, é dito mesmo que toda a gente é pervertida.
Olhando as personagens, faz sentido.
Um diretor quase septuagenário de quem se desconfia ser abusador de menores.
Um ator que faz comentários sexuais inadequados o tempo todo.
Um roteirista apaixonado por uma atriz grávida que a dado momento lhe diz “você dormiu comigo para eu te dar o papel”, só para ela responder “não, eu falei que queria o papel só para dormir contigo”.
Lembra-me um ensaio sobre comédia que li uma vez.
Aparentemente, para os gregos antigos, a comédia, e não a tragédia, era a forma artística superior.
A tragédia era feita a partir da perspectiva humana (adoecemos, morremos), enquanto que a comédia correspondia ao olhar divertido dos deuses enquanto nos observavam lá do alto.
“Olhem esses tontinhos sendo perversos”, parece dizer CK.

2

CK adora os seus atores.
Ele adora colocá-los para falar, adora monólogos, adora dar-lhes espaço.
Isto leva-o a uma forma bem teatral, como se cada cena fosse uma desculpa para colocar os atores a contracenar nalgum canto (a cena da filha contando o encontro com o John Malkovich numa loja é bem revelador disso).
Se, em Horace and Pete, ele já tinha feito a ligação entre essa dinâmica e os formatos clássicos de televisão, neste filme ele recorre às convenções do cinema americano dos anos 40, ao mesmo tempo que invoca Lolita e Manhattan.
O seu repertório é maravilhoso.

3

Quem acha que a personagem da filha é um apenas um objeto bidimensional para o pervertido CK babar e fazer tarados como ele babarem deve esperar a maravilhosa cena em que ela conta a John Malkovich a sua experiência de spring break.

4

O que fez CK famoso foi a sua capacidade para falar sobre a sua vida privada com honestidade total.
É excessivo dizer que toda a sua obra deve ser vista através do filtro de desrespeito para com as mulheres, porque ela é muito mais do que isso.
As perversões de CK – cuja gravidade não vou discutir – existiram e, no momento em que o filme foi gravado, CK já tinha pedido desculpa a suas vítimas, mas continuava negando publicamente os seus pecados.
Sabendo isso hoje, é impossível não ver o filme com esse viés. Mas, como disse, ele é muito mais do que isso.
No mundo de CK, a humanidade é um caos e quase ninguém é inocente.
Quem é – e a personagem da filha é – deve ser protegida.
Por isso, estava todo errado o hype todo do tempo do escândalo, no seu tom de “oh, não, vejam como esse homem horrível fala de uma menina sendo abusada por um cineasta mais velho como se fosse uma coisa normal e compreensível”.
Não digo “errado” no seu julgamento moral, mas porque foge completamente do que o filme é e conta.
Primeiro, porque ficamos o tempo todo a avaliar se o abusador realmente abusa ou não.
Segundo, porque CK não faz apologia de nada, sendo, no máximo, reflexivo sobre agressões de que ele próprio um dia foi culpado.
Terceiro, porque o motor da história é, na verdade, a batalha pela inocência da filha, que o pai CK, quebrado pela vida, quer perpetuar, talvez para ele mesmo poder acreditar na bondade do mundo.
O fatalismo da história é o de que ele não pode querer isso ao mesmo tempo que pede que a filha se torne adulta – ou seja, plena de si mesma, com defeitos e feridas.
É como se o filme nos dissesse “sim, estamos todos fodidos e é por isso mesmo que não nos devemos importar”.
Dizer que não deveria ser assim, e que deveria haver um final com o castigo de quem se comportou mal, é defender que a finalidade última da arte é ser moralizante, e eu não concordo com isso.
A derradeira ironia do filme é essa.
Apesar de ser em preto e branco, ele diz-nos que nós, pessoas, estamos cheias de áreas cinzentas.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s