A Garraiada de Coimbra

Talvez um dia, sim, tenha havido na tourada a beleza estranha e cruel de touro e homem dançando com a morte.

Não foi isso que vi em 98 ou 99, quando apanhei o comboio de Coimbra para a Figueira da Foz durante a Queima das Fitas e fui à Garraiada.

Na época, ainda havia “novilhada”: um pobre indivíduo de roupas paramentadas tentava provocar um touro magro até que este se aproximasse para ter ferros cravados no lombo.

Nenhum parecia ter muita vontade de estar ali, mas o público aplaudia a cada farpa espetada.

O touro desorientado, como um refém a quem mandavam atacar o captor só para poder ser agredido na volta.

Depois, mandaram um tourinho mais magro ainda para os estudantes pularem em volta e provocarem. A garraiada propriamente dita, ou uma sequência bêbeda e triste de palhaçadas aborrecidas.

Das coisas mais miseráveis que assisti na vida.

Saí antes de acabar e nunca mais voltei.

Nos anos seguintes, continuei a apanhar o comboio sonâmbulo para a Figueira.

Dormia na praia, queimava o rosto, comia gelado e voltava para Coimbra à tarde. Era ótimo.

Desde então, às vezes me intrigo com o absurdo que era pedir para manter certas “tradições” em Coimbra, não só porque ninguém tem obrigação de perpetuar uma tradição de que não gosta, mas também porque se vai descobrindo como cada uma dessas tradições foi um dia cuidadosamente inventada, construída e ficcionalizada.

Amanhã os estudantes de Coimbra têm a possibilidade de acabar com este espetáculo de trampa.

Seria bom que o fizessem.

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