SPOILER: Napoléon (1927)

  1. Demorei uns três dias vendo esse épico incrível de Abel Gance. Já tinha ouvido falar muito (Marc Cousins não escondeu a sua admiração por ele em História do Cinema), mas não é sempre que uma pessoa se predispõe a enfrentar cinco horas e meia de filme. Felizmente, a sua estrutura em episódios facilita as interrupções.
  2. A câmera não está só em movimento: ela está livre, documental, subjetiva, sempre disposta a quebrar a encenação e a hagiografia. Vemos estes momentos e pessoas como se os víssemos hoje no Jornal da Noite.
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  3. Abel Gance gaba-se de seguir os registros históricos nas falas e de filmar nos próprios locais da Córsega onde sucederam as cenas retratadas. Num momento de arrojada meta-temporalidade, vamos da placa que diz “Aqui morou Napoleão” para a janela onde ele se debruça. É exatidão histórica, mas também é vaidade!
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  4. A primeira parte, no colégio, faz pensar como os franceses sempre souberam criar grandes personagens infantis. Dos ombros deste jovem Napoleão já espreita Antoine Doinel.
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  5. Artaud, o dramaturgo da Crueldade, interpreta Marat, o super jacobino. Melhor casting, impossível. Aliás, Marat usa uma estola de oncinha, Danton parece um Robert Smith gordo e Robespierre é elegante e usa uns belos óculos escuros: se não fossem revolucionários, seriam uma banda indie.
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  6. O Napoleão das pinturas românticas é invencível e gigante. O de Gance é frágil e magoado. Mais antiherói do que herói, pálido, esquálido e andrajoso, lembra-me Samuel Fuller justificando Lee Marvin para o papel de Sargento em The Big Red One: “porque ele parecia a morte”. Ainda assim, se o filme tivesse sido feito hoje, arrisco dizer que o ator principal Albert Dieudonné logo viraria garoto-propaganda de alguma marca de roupa.
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  7. Gance filma forte e feio, com muita câmera móvel, documental. Sabem Saving Private Ryan? É isso aí. Ele usa frequentemente planos subjetivos, e muito durante as cenas de batalha, colocando o espectador ao nível dos soldados na confusão e sujeira. Isto 66 anos antes do game Doom e 90 antes de Dunkirk fazer o mesmo utilizando o som. A sequência de Toulon, filmada à chuva, seria gloriosa por si só.
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  8. Abel Gance, o próprio diretor, interpreta “a figura mais temida do Terror: Saint-Just”. Lembram o que eu falei de vaidade? Ahahah
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  9. Acho que só vemos Napoleão sorrir de verdade quando se apaixona por Josefina, e esse é talvez o segmento menos inspirado de todos. Seria demais esperar que “a figura mais temida do Terror” filmasse o Amor tão bem quanto filma a Guerra.
  10. Quando Napoleão entra na sala deserta da convenção e é assaltado por visões dos fantasmas da Revolução, algo fica claro: ele é uma personagem com o corpo no presente, a memória no passado e os olhos no futuro. É como se a História tivesse passado por ele, não o contrário.
  11. Napoleão diz aspirar por um futuro em que as batalhas sejam vencidas sem canhão ou baioneta. É uma fala compreensível 9 anos depois da Primeira Guerra Mundial, mas tristemente fadada ao fracasso 12 anos antes da Segunda.
  12. Também é curioso ver esta figura, que provavelmente se sentiu exilada a vida inteira, falando da utopia de uma Europa-pátria, onde os seus cidadãos se sintam em casa seja qual for o lugar específico dela onde se encontrem. Claramente, o Reino Unido não viu este filme muitas vezes.
  13. Gance sentiu a necessidade de filmar a grande sequência final em tela panorâmica. Só havia um probleminha: em 1927, não havia Cinemascope, Panavision ou qualquer outro desses formatos que, segundo Fritz Lang, só serviam “para filmar cobras e funerais”.
    Gance foi engenhoso e gravou com 3 câmeras acopladas, cujos positivos exibiu na estreia em 3 projetores colocados lado a lado. Os distribuidores que vieram depois, claro, não tinham muita vontade de comprar projetores a mais por causa de um único filme, por isso, reeditaram e jogaram fora a película de que não precisaram. Só graças ao trabalho do grande historiador e restaurador Kevin Brownlow é que hoje podemos ver essa sequência como o cineasta a concebeu.
    Tecnicamente, é um triunfo. Porém, ao expandir o enquadramento, perde-se o poder do corte e o ritmo fica a milhas da sequência da batalha de Toulon.
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    Gance claramente entendeu isto e não perdeu muito tempo com as batalhas panorâmicas, logo seguindo para transformá-las num tríptico com imagens independentes, em que aplica tintura e faz desembocar – claro! – na bandeira de França!
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  14. Gance pode ter só conseguido fazer um filme dos 6 que pretendia sobre a vida de Napoleão, mas não se esqueceu de deixar a sua assinatura no último plano. Merecido, mas, ó, homem vaidoso, viu!
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