Parar (1)

Foi há umas duas horas, mais ou menos, que acabou. Não quero comprar mais. Não sinto problemas físicos, mas estou um pouco cansado de estar dependente de uma substância. Já tentei parar antes; foi há um ano ou dois? Aguentei-me durante um mês, o semedão reduzido a uma vez por dia. Percebi que era possível e também que comprar é a fronteira do falhanço, muito mais do que pedir um ocasionalmente. Diminuir não funciona, isso eu já sabia: sempre que tentei, algo acontece, algum imprevisto e, de repente, lá regresso à mesma quantidade. Então, parei. É isto parar? Parece mentira, mas tenho os Morphine a tocar na janela ao lado. Sinto-me nervoso, a boca seca, e o chá gelado não parece resolver. Tenho um trabalho do mestrado por acabar, mas é como se tivesse tomado uma injeção de Maluquinol e não consigo parar de olhar para as coisas à minha volta, uma após outra, como se tivessem uma importância singular recentemente adquirida: olha um sofá; olha uma televisão; uma mesa; uma bola antiestresse. Tudo pode ser um pretexto para fazer outra coisa, ser outro, mas a minha vontade tem que ter algum significado contra o mundo. São 1h40 e está-me a apetecer um café: vou à padaria,  vou tomar um expresso, mas não vou comprar. Não posso comprar, e o jeito de me distrair vai ser olhar para dentro e entender o desejo e a falta e a dor. Se outros conseguem, eu também consigo.

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