Por que me marquei como seguro no desmoronamento do prédio em São Paulo

Hoje de manhã, depois de um prédio a menos de 2km da minha casa ter incendiado e caído, marquei-me como seguro na funcionalidade que o Facebook disponibiliza nesses casos. Estou a começar uma gravação, então tinha que trabalhar durante o dia e, como moro num continente diferente do da minha família e de muitos dos meus amigos, não queria que ninguém ficasse preocupado desnecessariamente e a mandar-me mensagens que não conseguiria responder.

Pela tarde, uma colega comentou que estava rolando uma discussão no Facebook sobre quem desnecessariamente se estaria marcando como seguro, numa espécie de reflexo torto do perene divórcio litigioso entre as classes sociais do Brasil. Quando cheguei a casa, apercebi-me que vários amigos meus tinham entrado nessa batalha também.

Há uma guerra cultural neste país e no mundo e todos somos soldados nela. Faz todo o sentido que uma tragédia entre na cultura e, por consequência, na guerra cultural.

Os posts não me incomodaram nada, nem julgo quem os escreveu. O impulso que me fez marcar-me como seguro foi íntimo e, considero, mais importante do que a significação cultural do ato. Ou seja: alegremente aceito a acusação de ridículo se esse é o preço de fazer um parente ou amigo dormir mais descansado.

“Ah, Jorge, mas tudo bem, você mora no centro, tem a família longe e tal. E quem mora em Moema e tá se marcando como seguro falando que é para os amigos no estrangeiro?”

Até pode ser, mas é verdade que a notícia do desabamento do prédio passou em todo o mundo, como, ao longo dos anos, também passaram em todo o mundo notícias de atentados em Paris, em Londres, terremotos, inundações, derrocadas.
Ao longo do tempo, vi amigos e familiares marcarem-se como seguros num monte de coisas, morassem perto ou longe dos locais dos desastres – porque quem pode dizer se eles não estavam no local do desastre na hora em que ele aconteceu?
Outros simplesmente postavam mensagens como “gente, não se preocupem comigo, está tudo bem” ou compartilhavam um vídeo de gatinhos.
Qualquer uma destas coisas me deixava mais tranquilo. A ausência de notícias e movimentos fazia-me pensar que poderia ter mais uma campa a visitar.
Nenhum tipo de mensagem me pareceu eticamente mais ou menos correta do que a outra.

Mas isso, realmente, não importa nada. Importante é que, no meio disso tudo, não se esqueçam que há pessoas a precisar de ajuda. Por favor, façam o que for possível. Fui há pouco no Paissandu levar comida, roupa e mantas. Fui guiado pelos orientadores no local para uma família de umas cinco pessoas que estavam num colchão no chão. Talvez fizessem parte do pérfido sindicato do crime que o nosso prefeito diz que residia no prédio, mas, entre duas crianças e três adultos com o rosto marcado pela preocupação com o dia de amanhã, não me pareceu.

Sei que também estão recebendo doações na rua Benjamim Constant 170 e, a partir de amanhã, na sede do PSOL, na Alameda Barão de Limeira 1412. Comidas não perecíveis, mantas e produtos para bebê (fraldas, mamadeira, etc) parecem ser as prioridades.

Termino dizendo que, quando voltei, olhei para o lugar onde até ontem havia um prédio. Na frente do céu recortado, ainda pairava no ar a poeira do concreto, que caía sobre quem perdeu tudo o que tinha na derrocada. Em quem passava, aquela ausência impunha a memória da morte, da perda e um silêncio respeitoso.

Não são necessárias cruzes ou monumentos: hoje aquele espaço vazio é luto.

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Alckmin

Alckmin diz no Twitter:

Curiosamente, eu não discordo de Alckmin.

Eu adoraria que o dinheiro de meus impostos fosse poupado em excrescências e usado para ter educação, saúde e segurança públicas incríveis.

Mas o que sei é que, quando esse papinho neo-liberal começa, está implícita também a ajuda aos amigos empresários, os mesmos que vão financiar a campanha e esperam leis amigas.

Isso fica ainda mais claro no trecho de vídeo que não é transcrito, em que Alckmin gonga a “partidarização das agências reguladoras”.

Alguém duvida que “partidarização”, no caso, significa apenas “partidarização por outro partido que não o nosso” e que, uma vez chegando lá, as cabeças dos outros cairão para serem substituídas por cabeças ligadas ao PSDB ou distribuídas pelos amigos do Congresso?

É muito fácil falar de mãos invisíveis quando há uma mão pública bem visível te carregando.

8 coisas sobre Marielle

1. A munição usada para matar Marielle veio de um lote vendido à PF de Brasília em 2006.

2. Soubemos que a Polícia Militar tem essas balas desde que foram usado pelos PMs que cometeram a chacina de Osasco em 2015.

3. Essas balas ficaram só com as forças da PM? Foram desviadas para milicianos?

4. É imprescindível sabermos se os mandantes da morte de Marielle são de estruturas regulares policiais, políticas ou do crime organizado.

5. Seja quem for esse mandante, parece claro que Marielle morreu por defender os indefesos e os direitos humanos devidos a todos.

6. Não pode ser pura coincidência seu assassinato com balas de um lote que já foi usado por policiais militares numa chacina poucos dias após denunciar brutalidades da Polícia Militar em Acari.

7. O Estado falhou em dar a uma representante política dos cidadãos mais pobres a proteção que ela merecia.

8. Marielle foi assassinada com balas que um dia foram compradas com o dinheiro de seus impostos.

Sobre Marielle

Não há eufemismo possível: Marielle Franco foi executada.
Fora nomeada relatora da comissão de acompanhamento da intervenção federal semanas antes e criticara a brutalidade do 41º batalhão da PM em Acari dias antes.
Então, a PM como órgão, o 41º batalhão ou, quem sabe, as milícias que tomam conta de certas zonas do RJ aparecem como primeiras suspeitas. Não me surpreenderia.
Há também quem sugira que ela teria sido alvo do crime organizado, em reação à sua posição na comissão da intervenção, o que seria cruelmente irónico, já que ela era contrária à mesma.
Confesso que acho um pouco estranho o caso.
Marielle, do que se sabe, nunca sofrera ameaças e, como vereadora, não me parece que estivesse numa posição suficientemente alta para fazer alguém se sentir ameaçado.
Mesmo que isso tivesse acontecido, o que vemos é usarem os parentes, dizerem algo como “se você não parar, matamos sua filha”.
Será que o assassinato fora encomendado para outro político? Não sei.
Será que a loucura crescente do Rio levou a isto? Não sei.
O que sei é que, se hoje é possível matar políticos desta forma no RJ, fica provado que a intervenção federal do exército realmente não serve para mais nada a não ser importunar moradores e salvar a face de Temer depois do fracasso da votação da Previdência.
Chegamos no cume da montanha de discórdia e sanha que começou com o impeachment da Dilma e cresceu com a Lava Jato e só posso esperar que Marielle seja a mártir que vai fazer todos pararem e refletirem.
Mas não estou otimista.

Defeitos do Brasileiro: A Elite

Nesta série, analiso os pequenos grandes defeitos que descubro em vocês, meus amigos brasileiros. Vocês são um povo extraordinário e fascinante tanto nas qualidades quanto nas mazelas, mas quero debruçar-me sobre estas últimas, porque quem quer saber de qualidades, não é mesmo? Não estou jogando pedras, porque, como todos, sou pecador e também porque não quero: acredito sinceramente que, melhor do que ser perfeito, é ser deliciosamente imperfeito. 

Como diz Eduardo Bueno no seu ótimo canal Buenas Ideias, o que se segue está cheio de generalizações. Mas, como de boas especificações está o inferno cheio, espero que me perdoem.

Os meus anos no Brasil ensinaram-me que sempre que a elite brasileira espreita por cima dos muros de seus condomínios privados para dizer alguma coisa é geralmente digno de nota.

Não por boas razões, é claro.

Por “elite”, não quero dizer grandes pensadores, artistas ou políticos, mas aquela alta burguesia mesmo, que, no seu faustiano caminho para o topo, parece ter prometido a Mefistófeles não só entregar a alma no final da viagem mas também despojar-se de todo e qualquer bom senso no caminho.

Mefistófeles terá dito Mas, olhe, não é realmente necessário, só para ouvir Não, Mefistófeles, se é para fazer isso, vamos fazer a sério. Toma meu bom senso aqui e vamoquevamo.

E Mefistófeles aceita, relutante, e, ao virar da esquina, joga o bom senso da elite brasileira no lixo, porque já é tão pequeno e pouco impressionante que não vale a pena levar para casa nem tentar vender na Santa Efigênia.

Talvez por isso a elite brasileira seja responsável por tantas e tão estranhas afirmações, daquelas que nunca se espera ouvir de ninguém.

Metrô do lado de casa? Não queremos.

Ciclofaixas tirando espaço aos carros? Nunca.

Dar mais dinheiro à cultura, aos museus, ao teatro? Imagina.

Não gostamos de quem está na presidência, vamos quebrar a normalidade democrática? Conta comigo.

O apego da elite brasileira ao seu carro estupidifica ao ponto de fazer pensar se ela não terá uma freudiana inveja de taxista.

O “público” em “transporte público” assusta-a.

A ideia de classes menos abastadas se movimentando, ameaçando a chiqueza esterilizada de seu bairro, ameaça-a.

Abrir o conhecimento, a cultura, a educação e o discurso deixa-a insegura.

Um representante político eleito por uma maioria à qual ela não pertence é um alvo a abater.

Portanto, a observação levou-me à conclusão sofisticada que a elite brasileira é burra e sabe-o.

Em vez de se educar, abrir a cabeça e, aceitando a sua situação privilegiada, ajudar a sociedade como um todo a avançar, prefere sonegar impostos e manifestar-se contra tudo aquilo que pode expô-la e as suas fraquezas ao opróbrio e ao reconhecimento da sua íntima inferioridade.

É como se os muros e o arame farpado de que se cerca não servissem para a proteger, mas para a esconder.

Fascinada com os paramentos e os chapéus que vê em suas televisões turbinadas quando príncipes ingleses se casam, sente-se de qualidade inferior e culpa o seu país pelos seus próprios defeitos.

E o mais fascinante é como, nesse ímpeto de autoproteção, ela, que ascendeu com o dinheiro, inventou uma identidade de classe que mantém além do dinheiro.

Já conheci moradores da Vila Nova Conceição que quebraram e viviam com menos dinheiro do que terá, por exemplo, o dono de um boteco de Taboão da Serra, mas, ainda assim, falavam com condescendência da “gente feia da periferia”, com quem evitavam contato além da babá ou da doméstica, certamente devidamente uniformizadas ou, se preferirem, “diferenciadas”.

As elites do antigamente, dos tempos que a Globo gosta de mostrar nas novelas das seis, tinham uma espécie de código de honra aristocrata.

Aqueles que, por obra e graça dos reis, deus e nossa senhora, tinham herdado uma posição, propriedades e rendimentos conexos e, por isso, se consideravam superiores à plebe, consideravam que fazia parte de sua posição de vanguarda social ser mecenas de teatros, artistas, organizar saraus e dar esmola para alimentar a mente e o corpo da turba obscurecida.

Como disse no início, com certeza generalizo.

Ser rico não é crime no presente e no passado muito aristocrata terá cagado para o que se esperava dele.

O argumento é apenas que, se você fosse aristocrata, era esperado de você mais do que a simples prática do escrotismo, do alheamento e da mediocridade.

E o mais fascinante é que, a partir do momento em que a classe do topo fixa essas características definidoras de si mesma, as pessoas que querem chegar ao seu nível adotam-nas para, um dia, quem sabe, serem também aceitas no clube, espalhando assim o escrotismo, o alheamento e a mediocridade por toda a sociedade como uma dengue que não precisa de aedes aegypti.

A elite gosta de imaginar o Brasil como um grande trem em que ela está na frente, puxando vagões que diz serem pesados, lentos e preguiçosos.

Mas eu tenho certeza que é a locomotiva que é fraca.

Defeitos do Brasileiro: O Pequeno Poderoso

Nesta série, analiso os pequenos grandes defeitos que descubro em vocês, meus amigos brasileiros. Vocês são um povo extraordinário e fascinante tanto nas qualidades quanto nas mazelas, mas quero me debruçar sobre estas últimas, porque quem quer saber de qualidades, não é mesmo? Não estou jogando pedras, porque, como todos, sou pecador e também porque não quero: acredito sinceramente que, melhor do que ser perfeito, é ser deliciosamente imperfeito. 

Dizia Dalberg-Acton que todo o poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente.

O brasileiro médio parece ter absorvido muito bem essa sentença e, por isso, contenta-se em ser apenas pequenamente corrompido ao conquistar um pequeno poder.

Não falo daquela conhecida e feia corrupção política, do troca-troca e rouba-rouba e pega-pega. Dessa vocês já estão fartos de saber.

É mais aquela corrupção estilo Sassá Mutema, do homem bom que vai dando pequenas e saborosas dentadas na sua moral até que dela não reste mais do que um miserável e triste toco.

Falo do síndico do prédio que quer porque quer aumentar o condomínio de todos para instalar uma tela LCD no elevador que anuncie as notícias do dia e a previsão do tempo que vocês acabaram de ver no Wifi de casa.

Falo do porteiro que, com um singelo olhar, já decide que um visitante não é bom o suficiente para alugar um apartamento no prédio e que nunca deixará um entregador de pizza entrar na portaria, mesmo que lá fora comecem a chover canivetes com as pontas viradas para baixo.

Falo do funcionário de repartição que te faz esperar porque não gostou da tua cara.

Falo do administrador de grupo de Facebook que adora impor aos seus membros as regras e castigos que defecou numa noite solitária do mesmo jeito que o Dr. Moreau impunha as suas às criaturas da ilha.

(há que considerar a leve diferença de que o administrador bloqueia e o Dr. Moreau matava. Mas acho que deu para entender o argumento).

Num país tão grande, surpreende que tanta gente adore conquistar o seu pequeno espaço para brincar de pequeno ditador ou, melhor, de pequeno bundão.

Eu sei que a atitude tem a ver algo com os grandes bundões do passado e presente, que chegaram e chegam com pessoas e armas (principalmente com armas), disseram e dizem “isso agora é meu” e levaram e levam.

Mas a bundice alheia não deve motivar bundice própria, amigos.

Não é porque o António Conselheiro perdeu o arraial que você tem que transformar o seu próprio quintal em sertão.

Aí, você pode dizer “se não gosta, não é obrigado a ficar no prédio/grupo/mesa do bar”, mas não seria melhor para você mesmo respirar um pouquinho e considerar o outro?

Amargura no coração mata mais do que não ter poder, amiguinho.

Que o diga Getúlio Vargas, suicidado com uma amarga bala.

Dilma andou de bicicleta na calçada


Dilma não é uma presidente competente. Ou melhor, não é uma política competente. Ela sabe resistir, mas não é ágil. Foi reeleita por um triz, não soube lidar com um Congresso adverso, não conseguiu impor políticas, perdeu eleitores, autoridade e voz.

Nada disso é base para um impeachment.

Estamos acostumados a ouvir falar em impeachment de políticos quando eles cometem abusos latentes de poder, como sonegação de dados, corrupção, apropriação indevida de bens públicos. As chamadas “pedaladas fiscais” de Dilma, por muito que sejam expedientes irregulares para lidar com um desequilíbrio nas contas públicas – do qual, diga-se, ela é responsável -, parecem uma desculpa esfarrapada para a oposição derrubar um partido que está há 14 anos no poder. É um pouco como se a presidenta fosse pega andando de bicicleta na calçada e castigada com uns meses de prisão. A pena não combina com a violação, e quem contesta o impeachment percebe isso muito bem.

Chamar o impeachment de golpe é exagerado. O processo está a seguir como deve, com o STF dando chicotadas regulares ao Congresso. Mas o mérito dele é, sim, errado. A oposição recorreu a ele como se fosse mais uma arma do arsenal, e não a bomba atômica que ele realmente é, o que revela também que ela é tão incompetente fazendo política quanto a presidente.

Ninguém sai bem deste processo. Ele é a prova de que os políticos brasileiros vivem numa redoma, jogando o seu jogo sem pensar em quem os elegeu e, até, no futuro do próprio jogo. O precedente aberto vai paralisar os próximos presidentes, temerosos de que qualquer ato de gestão possa vir a ser interpretado como uma irregularidade e castigado por um Congresso recheado de deputados calculistas e mais preocupados com o que podem ganhar do que com o futuro do país. A menos que o sistema político brasileiro seja reformulado de cima a baixo, isso vai irremediavelmente acontecer.

E há uma outra questão, mais imediata, a pensar: o dia seguinte. Pouco depois de eu ter chegado ao Brasil, Tiririca foi eleito deputado, e lembro-me da enorme polêmica que se criou sobre se um palhaço mereceria ser deputado. E os suspeitos de corrupção, Temer e Cunha – eles merecem ser presidentes? Onde está essa polêmica então?