O poema novo que disse no Slam Lx na semana passada

Eu sou um homem de metáforas
Perdido nas diásporas
Tudo o que digo
Pode ser mal entendido
Tudo o que faço
Pode ser um embaraço

Um dia, disse a uma amiga
“Dás-me frio na barriga”
E ela, agradecida,
Ofereceu-me a perseguida
Mas não era frio de paixão
Era só indigestão

Há pouco, a moça do bar
Fixou em mim o olhar.
E perguntou “queres gelo?”. Não era feia
E falei de mamilos e nove semanas e meia
Porque a mente não me pára
E ela atirou-me o gelo à cara

Eu sou homem de metáforas
Hipérboles e anáforas
Aquilo que falo
Será burro ou cavalo.
E acostumei-me, de murro em murro,
A passar de cavalo pra burro.

Quando ligo a televisão
E vejo o estado da nação
No Parlamento
Não sinto qualquer sofrimento.
Enquanto tomam conta de nós
Não precisamos levantar a voz

Tudo está bem
Não olhes para além
Deixa-te ficar onde estás
As coisas não são más.
Tens a vida assegurada
Não te incomodes com nada.

Sou um homem de ironias
Sarcasmos e alegrias.
Entende-me quem quiser,
O resto só se puder.
Não confundam a minha voz,
Ela é minha, ela é nós.

Eu sou um homem de metáforas,
Digo palavras tão ásperas.
Vagueiam entre o bem e o mal
Como o pecado original
E vêm plenas de prazer
Doam a quem doer.

Eu não sou quem aqui está
Neste palco, pessoa má
Ou boa, depende da perspectiva.
Eu não sou da gente ativa
Que faz o mundo funcionar
Com o Excel a dar e a dar.

Eu sou dali atrás,
Só no escuro estou em paz
E sozinho é que me encontro
Me defino ponto a ponto.
Eu não sou eu.
Eu não sou eu.

Poema de ler baixo

entre o que vês e dizes
não existe nada
és simples e sem malícia
não sabes nada
de computadores
não temes pedir
ajuda a estranhos

entre o que vês e dizes
não há teias ou
imundície há só
o que és e aquela
transparência
do que é real
e luz

entre o que vês e dizes
sorris porque
achaste enfim quem
te matasse a fome

fizeste um sanduíche
com minhas palavras

e comeste-me
a vergonha.

Sério, você estuda na Usp?

Um poema novo que li ontem no ZAP!.

Sério, você estuda na Usp?
Eu estive na Usp já
olhando as árvores tapar a estrada
cheia de carros parados por onde
os líderes médicos doutores futuros desse país e além fronteiras
derramavam seus excessos
porque os banheiros estavam fechados
e eu pensando
“estou vendo os futuros líderes desse país e além fronteiras
mijando e cagando e vomitando
indefesos como eu fui
nus como eu já estive
quando há muito tempo eu pensava ainda
que o futuro é previsível e eu
sou mais que um joguete
bola de gude invisível
atirada das mãos do acaso”.

Que legal, você estuda na Usp.
Como você sabe, né
Como você olha com olhos que sabem
toca com mãos que sabem
fala com boca que sabe enquanto
teu corpo se esparrama pela terra
e faz malabares com fitas noturnas
alguém te pôe na boca o remédio da alice
és a melhor pessoa do mundo
teus olhos brilham
tu sorris
podemos ser diferentes
essa noite
do que somos no resto do tempo
podemos nos ver um no outro como quem se olha num lago e sabe
que as ondas vão e vêm distorcendo-nos como pensamentos
e talvez amanhã acordemos
e te sintas vulnerável no silêncio
que nos cobre
no lençol
que nos cobre
sempre o mesmo lençol que me cobre
sempre e cobre e sobe sempre
mais alto até me tapar completamente
e estares
vulnerável no silêncio e nua e eu
indefeso sem segredos
sufocado
e teu

Mas eu sou só este momento
dente de leão transformado a cada golfada de vento
e você estuda na Usp
és mais o que vais ser do que aquilo que és
teu futuro é grande
e eu não caibo na mesma sala que ele
tens muito para fazer na vida
tens uma orientação política de esquerda a alimentar
com o dinheiro que toda semana teu pai dá
e anos até descobrires que nada no mundo é bonito
ou bondoso e tua vida é só a estrada possível
por entre árvores cruéis de carne e sangue
e gigantes cínicos falando merda
por isso fala coração fala
amanhã combinamos algo
não te preocupes
sucesso
combinado
e até mais

Retrato do artista enquanto Zapeão


Foto de Tide Gugliano
Fazer crescer uma cena nunca é tarefa fácil, ainda para mais se estivermos a falar de algo que, pura e simplesmente, não existe. Apesar do tamanho e do cosmopolitismo de São Paulo, o slam só começou a ser organizado enquanto tal (poesia + performance + competição) há cerca de três anos, quando a Roberta Estrela D’Alva organizou os seus comparsas do Núcleo Bartolomeu de Depoimentos, ali pertinho da Pompéia. Como o mundo é um penico, a Roberta é amiga desde a infância do Newton Cannito, um dos maiores responsáveis pela minha vinda para o Brasil, e, interessada pela proposta dos Social Smokers, aproveitou os conhecimentos comuns para meio que se auto-convocar para nos acompanhar quando a banda esteve no Brasil em Novembro do ano passado. Foi então que conheci o Núcleo e o ZAP!, a noite de slam mensal que eles organizam. Já lá tinha ido uma vez, mas só como jurado – fiquei na mesma mesa de um gaúcho e, curiosamente, éramos sempre os dois a dar as notas mais baixas, o que nos fez temer pela nossa integridade física face ao pessoal da Zona Leste. Ainda bem que poesia é amizade. Mas aconteceu que, na última quinta feira, deu-me uma vontade de fim de tarde de ir à competição e, contra todas as minhas expetativas, a noite acabou comigo a ser o Zapeão, ao mesmo tempo que a Roberta Estrela D’Alva sacava o terceiro lugar na Copa do Mundo do Slam em Paris. Ganhar é sempre bom, mas os minutos em que ouvi a poeta e atriz Ana Roxo fazer este poema foram o momento de slam ou recitais ou saraus ou leituras públicas ou seja lá o que for que mais me emocionaram na vida. Por isso, deixo-o aqui, desejando uma vida longa ao ZAP!

Comecei a escrever aquele texto triste

talvez não seja triste ou não tão triste
quanto deveria ser um texto sobre eu e você
talvez só seja assim, melancólico
com medo do sofrimento
que viria, e veio devagar
começa assim de repente
meio no meio de uma tarde chuvosa e com enchente
depois tem um espaço onde cabe o silêncio
e por onde podem escorrer umas lágrimas
não tem fluxo o texto
começa de supetão
e para um tempão num vácuo
depois fica bonito a beça
eu falo de cores que eu conheço e queria te contar
conto de coisas que vi e vivi
e te faço convites incríveis
descrições inimagináveis de lugares em que estive sozinha
falo de montanhas que são ondas, deuses hindus, mitologias inventadas
animais fantasiosos, deuses pagãos, sagas heróicas,
dançarinas de vários braços, de um homem com três bocas cantantes
do dia em que o capeta me paquerou
e de como os deuses as vezes descem a terra e brincam com a gente
conto quase tudo de impensável
e nessa parte eu te impressiono.
Depois vai ficando mais cafona,
porque meu repertório não é tão bom assim.
Mais pra frente fica triste e bonito de novo.
Eu vou dizendo que te amo de vários jeitos
primeiro clichês e mais pra frente novos,
que nem aquele dia
que eu disse eu te amo só com o olho,
no meio de uma frase e você não esperava
(porque eu passei grande parte da nossa história
inventando jeitos diferente de dizer eu te amo
então nada mais justo do que colocar isso naquele texto)
Coloco um mar no meio, pra deixar mais água
e nessa hora fica feio, um pouco infantil
eu me fragilizo muito e digo
que foi tudo culpa minha
como se a culpa existisse mesmo e eu acreditasse nisso
mas é só pra você se impressionar de novo
e ficar mais um pouco do meu lado.
Mas nem assim adianta
você parte mesmo assim
e talvez até por causa disso
(no final dos meus textos você sempre vai embora)
mas aí no texto eu minto
dizendo te dei um mais beijo
e disse tchau com muita dignidade
(e não chorei nem fiquei aflita
nem me joguei no chão
e quis tomar formicida)
ou talvez eu coloque uma piada
não sei, eu ainda não terminei o texto.
Mas acho que no fim
eu saio com uma desculpa esfarrapada
dizendo por exemplo
que eu ainda não terminei.

Poema contra a crise

Há quem diga que a poesia não resolve nada,
Há quem diga que a poesia não é prática.
Mas eu vou resolver esta crise
Com poesia matemática!

O primeiro verso vai custar-lhe mil euros!
O segundo verso vai custar-lhe dois mil euros!
O terceiro verso vai custar-lhe uma participação numa empresa sediada no off-shore da Madeira!

O quarto verso vai custar-lhe uma citação na revista Ler!
O quinto verso vai custar-lhe uma citação no Jornal de Letras!
O sexto verso vai custar-lhe uma citação pelo Tribunal de Contas para um processo que não terá quaisquer efeitos práticos!

O sétimo verso vai custar-lhe uma casa de banho no Palácio de Belém!
O oitavo verso vai custar-lhe uma casa de banho no palácio de um barão de droga colombiano!
O nono verso vai custar-lhe uma casa de banho no Ministério da Cultura de Manuel Maria Carrilho!

O décimo verso vai custar-lhe o tecido das cuequinhas de Angela Merkel!
O décimo primeiro verso vai custar-lhe a tenda que Muammar Kadhafi usou quando veio a Lisboa!
O décimo segundo verso vai custar-lhe a barraca que o FMI vai armar neste país!

O décimo terceiro verso vai custar-lhe uma linha (de coca) a grande velocidade e um aeroporto que não ota nem desota!
O décimo quarto verso vai custar-lhe o ouro do Brasil!
E o décimo quinto verso vai custar-lhe todas as derrapagens nas obras públicas nos últimos dez anos!

Há quem diga que poeta é pobre,
Há quem diga que poeta é mau,
Mas eu com este poema
Acabei de salvar Portugal!

Lido pela primeira vez no slam da iniciativa Poesia Monumental, no dia 5 de Abril na Galeria Monumental, no Campo dos Mártires da Pátria nº 101. O evento termina hoje às 22h, com o concerto dos Social Smokers.