O que eu não entendo

Moro no Brasil há oito anos, mas ainda não voto aqui. Cansaço de burocracias, por um lado. Medo de perder esse vínculo com o meu país natal, por outro.

Isso não significa que não acompanho a política brasileira. Acompanho, e com muita atenção. Mas, ainda hoje, há muitas coisas que não entendo.

Não entendo, por exemplo, a atribuição da culpa pela corrupção brasileira a um ou outro, como se não estivesse claro que há uma mamata instalada desde a Ditadura e que o “presidencialismo de coalizão” democrático foi baseado numa rede suprapartidária de favores, ajudas mútuas e acordos obscuros com o meio empresarial.

Não entendo que não se perceba que o impeachment que expulsou Dilma foi articulado por grandes corruptos, já julgados e condenados, e que certamente eles não o fizeram porque ela facilitava a sua ladroagem.

Não entendo quem não se ligou ainda que a contestação ao PT só veio depois do grande ciclo das commodities, quando muita gente viu minguar o dinheiro que até então lhe vinha facilmente para o bolso.

Não entendo como se fala tão pouco que Dilma foi a primeira a demitir pessoas como Antonio Palocci , Wagner Rossi ou Carlos Lupi após aparecerem as primeiras suspeitas de corrupção sobre elas.

Não entendo quem acusa o PT de “querer transformar o Brasil numa Venezuela” e esquece que os dois pés que legitimaram a Lava Jato – a lei da Delação Premiada e o fortalecimento da Polícia Federal – foram feitos do próprio PT, que também sancionou a Lei da Ficha Limpa.

Não entendo quem ostenta descaso e ódio por quem é mais fraco, mais pobre, diferente, quem celebra essa ostentação e quem faz dela bandeira política.

Talvez haja coisas que não sejam mesmo para entender. A memória das pessoas é curta. E eu sou naturalmente otimista. Quando, há 3 anos, escrevi um artigo de opinião no Diário de Notícias sobre a situação do Brasil, ainda nem tinha começado o impeachment, e eu acreditei muito na possibilidade de ele não acontecer. Aconteceu, e a estabilidade que tanto se esperava só foi sendo adiada e adiada, ao ponto de as instituições e a paz social parecerem às vezes prestes a entrarem em derrocada.

Quando estava no poder, o PT nunca me pareceu um partido tão de esquerda assim, mas mais um bloco abrangente que partia do centro-esquerda, com uma grande preocupação social. O crescimento econômico durante os seus governos foi uma benção e uma maldição. Com mais dinheiro entrando, e sem quebrar a tradição da roubalheira, mais dinheiro era pedido, distribuído e entregue. Não quebrar essa tradição foi culpa do PT, sim, e também de todos os políticos que passaram pelo poder nos últimos 30 anos. Devemos julgar um réu pelos crimes que cometeu – não pelos dos outros.

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Silêncio, movimento, o teu rosto

Os silêncios falam o suficiente. Os rostos que se viram para ti e pedem as tuas palavras também não se precisam abrir: as intenções deles são claras. Se dormiste pouco, essa é a hora de acordar.

Outra lição: se está difícil transportar a coisa para o lugar onde a queres, talvez seja melhor seres tu o que se mexe e ires até ela.

E outra: nenhuma pessoa ou browser de internet têm o direito de te obrigar a olhares para o teu próprio rosto.

A moral e o travelling de Kapò

Há já muito tempo que li a frase tutelar que Godard soltou num debate sobre Hiroshima Mon Amour, de Alain Resnais:

Um travelling é uma questão de moral.*

Pela mesma época, li a crítica devastadora de Jacques Rivette sobre um filme obscuro, curiosamente com a mesma atriz de Hiroshima Mon Amour:

Vejam em Kapò o plano em que [Emanuelle] Riva se suicida, atirando-se sobre o arame farpado electrificado: o homem que decide fazer, nesse momento, um travelling para reenquadrar o cadáver em contra-picado, tendo o cuidado de colocar a mão erguida num ângulo preciso do enquadramento final, esse homem só tem direito ao mais profundo dos desprezos.*

Foi preciso ler Serge Daney e mais algumas coisas para entender que o que estava em causa era a espetacularização da guerra e do Holocausto. Um movimento de câmera – que também é um reajuste do olhar do espectador – não vale apenas pela sua beleza, mas pela sua adequação ao que mostra. Kapò é um filme sobre um campo de concentração: será moralmente adequado embelezar o horror para fazer um enquadramento bonito? Disse Daney sobre o plano de Kapò:

[O travelling] quer ser belo, [mas] não é – ou, mais claramente, ele é belo, mas não é correto.*

Daney, porém, admite uma coisa: ele nunca viu o filme.

Serei eu o único a nunca o ter esquecido, apesar de nunca o ter visto? É que eu nunca vi Kapò mas, ao mesmo tempo vi-o. Vi-o porque alguém – através das palavras – mo mostrou.

Não tenho nada contra Daney, mas há anos que vivo com a curiosidade de ver o famigerado plano. Hoje, graças às maravilhas da Internet, matei essa pendência. Aqui está, para todos verem também.

Terror, campanha, amanhã

Disse há dias que o terror é teimosia. Mas, vendo Profondo Rosso, há algo mais. Nele trabalha-se a cor e fala-se do dentro e do fora, do perto e do longe, da música e do silêncio. E todos são teimosos. Mas será terror?

– Terror é esta campanha, que nos mata, nos trucida, nos tortura, nos condena para sempre.

Nem tenho tido muito tempo de prestar atenção. Gosto muito do meu trabalho. Ainda bem.

– O que importa é haver trabalho.

O que importa é haver vida. Nascemos pequenas bolhas neste mundo e, enquanto fazemos aniversários, teimamos em não ir.

– A vida será terror.

Então. Talvez não. E eu nunca disse que eles são uma e a mesma coisa. Qualquer drama é herói, objetivo, dificuldades; qualquer drama é teimosia. E eu não sei se slasher – ou até gore – é terror.

– Mas isso é muito subjetivo.

Sim.

– Devias mentir.

Será culpa da geração ou do Freddy Krueger? Preciso do sobrenatural ou da sua possibilidade. A violência incomoda. A distorção do corpo pode repugnar-me. Mas não me aterrorizam.

– E amanhã?

Amanhã…

Renoir, disfarces, pessoas

Há muito tempo que não via Renoir, e quis recomeçar por Les Bas-Fonds (1936) porque, no My Voyage to Italy, o Scorsese fala que foi um dos filmes em que ele foi assistido por Visconti, então um mero aristocrata entediado e sem saber o que fazer da vida. A amiga Coco Chanel apresentou-o ao diretor francês que, então envolvido com a Frente Popular, terá sido uma influência fundamental para que o conde se aproximasse do Partido Comunista e dos dramas dos trabalhadores, o que é sempre bom para quem vai fundar o Neo-Realismo.

Visconti não é creditado neste filme, tal como não o é em outros filmes que fez com Renoir. Provavelmente, ele foi mais uma espécie de estagiário, assistente pessoal ou simples penetra. Ainda assim, Les Bas-Fonds é interessante para qualquer pessoa que se interesse por ele, porque junta os dois universos que tratou na sua obra: o aristocrático e o proletário, que aqui corresponde a um lumpenproletariat de ladrões, bêbedos e prostitutas. Todos extremamente simpáticos, por sinal.

Apesar de Les Bas-Fonds ser uma elegia de quem tem pouco, ele não é um filme panfletário, mas uma fábula moral e humanista, que mostra que, com posses a mais ou a menos, somos todos muito parecidos e igualmente sujeitos tanto à perdição quanto à redenção. Toda a gente quer dinheiro, ninguém quer pagar o que deve e, pelo meio, salva-se quem rejeita a aparência e vale por si mesmo.

Esta cena incrível é bem expressiva disso (pulem para os 2min do vídeo). O Barão, que perdeu tudo no jogo, encontra Pépel na sua casa disposto a roubá-lo. Este é o mesmo Barão que, mais tarde, dirá Sinto como se tivesse passado a vida toda trocando de disfarces. Reparem na sutil troca de roupas, sugerindo que ele partirá para o último disfarce ou, quem sabe, se despir de vez.

O encontro de Gabin e Jouvet é histórico e os momentos em que eles contracenam são – não há outra palavra – uma maravilha. Aqui temos dois atores bem diferentes, mas que claramente estão adorando trabalhar juntos e fazem a sua arte como quem brinca. Diz Pascal Merigeau em Jean Renoir: A Biography:

gabin-jouvet

As duas personagens fazem um caminho sincero, e por isso nos agradam tanto. A câmera de Renoir é a ideal para estas figuras. Os seus atores enchem o quadro. A câmera segue-os, precisa deles. Veja-se a cena em que Pépel termina tudo com a sua amante: a forma como o enquadramento é construído a partir dos atores, como as pessoas no fundo enchem o quadro e somam uma serenidade cotidiana ao que poderia ser um simples pastelão melodramático.

O modo como Gabin interpreta este ladrão barato é incrível. Pépel é pobre e criminoso, mas honrado, um ser de valores sólidos, que atravessa a vida e os seus acidentes com uma consciência muito pacífica daquilo que é certo e errado. Ou seja, uma figura de essência chaplinesca. Por isso, não me surpreendeu nada que o final de Les Bas-Fonds invoque do de Tempos Modernos, que Chaplin lançara no início desse mesmo ano de 1936.

Tempo, baton, luz

Há anos que subo a rua do trabalho mais ou menos pela mesma hora, todos os dias. Muitas coisas mudaram. Restaurantes tornaram-se hamburguerias. Lugares mineiros tornaram-se lugares árabes. Um duo de irmãos sapateiros de Viseu veio e foi-se, mas não sem antes me ter feito um trabalho horrível num par de sapatos. O cabelo do manobrista do restaurante italiano está mais branco. O da pet sitter, há uns anos já que deixou de ser liso e cortado à chanel; hoje ela tem-no cacheado e preso num coque alto. Também já a vi passear mais cães ao mesmo tempo do que vejo agora. O problema será da crise ou da minha percepção corrompível?

***

Uma noite, quando eu ainda morava em Lisboa, fui ver o Greil Marcus na Cinemateca. Marcus escreveu um livro chamado Lipstick Traces, (Marcas de Baton na tradução portuguesa da Frenesi) que, ao situar o punk numa tradição cultural e filosófica que inclui o Letrismo, o Dadaísmo e o Protestantismo Radical do século XVI, mudou muito a forma como eu pensava o rock e um monte de coisas.

Nessa noite, ele foi apresentar o Great Rock’n Roll Swindle, ou seja, o documentário do Julien Temple sobre os Sex Pistols (não o mais recente; o outro), mas Marcus também conversou sobre outras coisas e outros filmes.

A dada altura, ele disse algo como Se gostaram do The Warriors, deviam ver o Streets of Fire, o grande filme rock do Walter Hill. Por isso, fui vê-lo logo no dia seguinte.

Streets of Fire está muito longe de ser perfeito e, no entanto, é inesquecível. Até hoje, não me saíram da cabeça esta cena e esta música, meio anos 80 e meio memória difusa dos 50, meio synth pop e meio The Crickets. O plano com o ligeiro tilt sobre o público no 1min, o vermelho e o azul no 1min15 (tão marcados que, por um momento, parece que a Diane Lane foi filmada na frente de uma tela verde), a entrada dos motoqueiros aos 2min54: é tudo uma bela lição sobre o uso da luz em cinema.

E, além disso, ainda me traz a memória da noite em que fui ver o Greil Marcus falar na Cinemateca de Lisboa.