Tempo, Bernardo, Bach

Os historiadores dizem que há séculos longos e séculos curtos. Também os dias podem ser longos e curtos. O meu dia de hoje começou na noite de ontem. Poder-se-ia dizer que uma coisa é o que existe no mundo e outra o que existe nas nossas mentes. Mas dizer ‘dia’ é pensar naquilo que o ‘dia’ é. Quando, em algum momento, deixamos de pensar?

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O passado é também presente e futuro. Às vezes, o que parecia morto e enterrado apenas o parece. Para o mal, para o bem.

(já não falo sobre dias)

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Não, ‘mandar o Bernardo às compras’ não é uma gíria para transar em Portugal. ‘Afiambrar’, sim. ‘Pinocar’, com certeza. ‘Refustedo’, admito que mais do que uma pessoa o diga. Bernardos e compras, não.

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O período é enervante: decisões no horizonte, facadas no estômago e tanta coisa que deveria estar segura e não está. Para este tipo de momentos, recomendo Bach. Não florais, mas suítes. Esta não é nada obscura, acompanhou-me em vários alarmes matinais e proporcionou-me um momento cotidiano de grande beleza, quando começou a tocar enquanto eu corria no Minhocão e, de repente, era como se os telhados dos prédios flutuassem sobre mim e sobre o resto da cidade.

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Tempos Modernos, rolezinhos e o fim de Carlitos

Nos Tempos Modernos (Modern Times, 1936), os homens são gado.

Nove anos antes, Metropolis já falara das lutas sociais. A Grande Depressão ainda não tinha acontecido, mas a Alemanha pós I Guerra Mundial já sabia um pouco de greves e revoltas dos trabalhadores. Arrisco que o filme de Lang tenha sido uma influência para Chaplin, até porque não tenho visto muito mais filmes dos anos 30 que incluam conversas de Skype. Porém, repare-se como, em Lang, só o patrão vê o empregado, num plano inferior; e, em Chaplin, ambos se veem, mas ele prefere a perspectiva do empregado olhando o patrão sobre ele.

 

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Já tinha percebido em Luzes da Cidade, mas aqui é mais claro ainda: por resistir ao colocar som nos seus filmes, Chaplin parece ter sido um dos diretores que mais o pensou. Aqui, as falas vêm de gravações ou através de telas, nunca diretamente das bocas das personagens. Ou seja, ele coloca a palavra falada no cinema, a sua grande nêmesis, a assassina da sua pantomina, do lado das máquinas num filme em que as máquinas são fonte de todo o mal. Sutil, senhor Chaplin, mas direto.

O filme tem pedigree. Supostamente, Chaplin terá sido sensibilizado para a influência das máquinas na desumanização do trabalho pelo próprio Mahatma Ghandi. Pode-se argumentar se, ao associar a denúncia social ao seu melodrama habitual, ele não terá antecedido o neorrealismo sete anos antes do Ossessione de Visconti. Na verdade, a sua crítica às autoridades, representantes sérias da sociedade burguesa, acaba por encaixar na perfeição com o tema do filme. A mulher do pastor com gastrite tem algo do anticlericalismo de Buñuel. Carlitos nunca foi amigo da polícia, mas não me lembro de ele ter sido preso tantas vezes quanto aqui.

E o que falar da sequência da “invasão” noturna da loja de departamento, que tem ecos ainda hoje? Lembram dos rolezinhos, sobre os quais Eliane Brum escreveu tão bem?  Chaplin já está mostrando os excluídos da sociedade de consumo invadindo as catedrais desta. E brincar com o fogo desta maneira é como patinar ao lado do precipício.

 

Chaplin também achou aqui o lugar ideal para colocar algo que ele sabe fazer muito bem pelo menos desde The Gold Rush: filmar uma refeição. Primeiro, Carlitos é alimentado por uma máquina, e não consegue comer nada. Mais tarde, num belo contraponto, ele alimenta um trabalhador que, apesar de preso numa máquina, consegue assim almoçar. Ou seja, um homem sempre conseguirá ser alimentado por outro com boa vontade, apesar da máquina que o sufoca.

Além de ensaio sobre as dificuldades da classe trabalhadora após a Depressão, Tempos Modernos mostra ter uma importância íntima muito grande para o autor. Primeiro, porque é uma espécie de carta de amor à sua recém-esposa da época, Paulette Godard, com cuja personagem Carlitos se alia e tem momentos dignos de jovem casal apaixonado.

Depois, e apesar de tudo que se possa dizer sobre a personagem de O Grande Ditador, para Chaplin Carlitos acabou aqui. Dois momentos marcam esse fim: a primeira vez que ele fala – sem nada dizer, mas fazendo todo mundo rir…

…e o final, que rima com o de O Circo, com a diferença que, desta vez, Carlitos vai acompanhado e sorrindo.

Chaplin, com 47 anos, deixou Carlitos marchar em direção ao horizonte para, finalmente,  o nome do diretor não ser ofuscado pelo da personagem. Bela forma de ilustrar uma virada na obra.

Filmes, comida, dúvida, cura

Comparado com os giallo jovens e intensos do Argento, os de Mario Bava parecem adaptações classiconas de histórias da Agatha Christie. Mas que fotografia, que direção de arte! Um Visconti do terror.

Já Um Lugar Silencioso, nhec, parece uma adaptação caladinha de Jurassic Park.

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No restaurante, disse ao garçom que tentei uma adaptação caseira de uma sobremesa deles, mas troquei o requeijão de corte por queijo coalho e, em vez de uma chapa simples, coloquei manteiga para conseguir a casquinha crocante. Ele riu e soltou um “a gente vai inventando”. Lembrei-me de Michael Pollan contar, no Cooked, que há quem opine que a humanidade não começou a cultivar cereais para comer, mas porque queria embebedar-se com cerveja. Associamos “civilização” com seres sábios e precavidos; talvez a devamos começar a associar com bêbedos epicuristas que foram inventando, sempre inventando.

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Na rua, uma mulher contava uma história a outra. Aí ela falou ‘Eu me mudei para essa casa e quem deu ela foi Deus!’. E eu falei ‘Duvido!!!’.

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Gente demais para a exposição na Pinacoteca. Fomos então passear no parque, e tirei uma foto com o Garibaldi.

Depois ouvi: If you slip going under/ Slip over my shoulder/ So just pull on your face / Just pull on your feet/ And let’s hit opening time/ Down on Fascination Street.

Matéria, História, Moby Dick

Lia Moby Dick. Melville falava sobre as antigas espécies de baleias. Pensei numa hipótese comprovável só por uma conta impossível: e se a vida, ou a matéria orgânica, for como a água e nenhuma se perder? E se o número de células vivas for o mesmo desde o início dos tempos, sendo elas só distribuídas e redistribuídas entre vegetais e animais?

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História é o conto da tensão. Interessam-lhe mais os Grandes Conflitos do que as Grandes Pazes. Enquanto os peixes do Padre António Vieira se perseguem, eles também avançam. Exceto um, que espera num consultório médico por um acompanhante obrigatório entretanto comido.

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Também de Moby Dick: “é necessário dar-se conta (…) de que os próprios deuses nem sempre são felizes.

Meteorito, sala de roteiro, chuva

Parece que, no Museu, pouco mais se salvou do que o Meteorito do Bendegó.

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Amigos, Recebi este texto agora, precisei compartilhar, junto com meus pêsames à todos nós, por essa perda imensa: "Queimamos o quinto maior acervo do mundo. Queimamos o fóssil de 12 mil anos de Luzia, descoberta que refez todas as pesquisas sobre ocupação das Américas. Queimamos murais de Pompeia. Queimamos o sarcófago de Sha Amum Em Su, um dos únicos no mundo que nunca foram abertos. Queimamos o acervo de botânica Bertha Lutz. Queimamos o maior dinossauro brasileiro já montado com peças quase todas originais. Queimamos o Angaturama Limai, maior carnívoro brasileiro. Queimamos alguns fósseis de plantas já extintas. Queimamos o maior acervo de meteoritos da América Latina. Queimamos o trono do rei Adandozan, do reino africano de Daomé, datado do século XVIII. Queimamos o prédio onde foi assinada a independência do Brasil. Queimamos duas bibliotecas. Queimamos a carreira de 90 pesquisadores e outros técnicos. O que arde no Museu é uma parte da história antropológica da humanidade. Da história científica da humanidade. Se eles pudessem, nos queimavam junto com as paredes do museu, com o prédio em si, com as salas de onde D. Pedro II reinou, com os corredores por onde transitaram os feitores da primeira constituição da república, se eles pudessem, nos queimavam. É imensurável o que perdemos. Eu tô engolindo o choro. 'Todos que por aqui passem protejam esta laje, pois ela guarda um documento que revela a cultura de uma geração e um marco na história de um povo que soube construir o seu próprio futuro'. Era isso que vinha escrito no chão, frente ao Museu Nacional." Rui da Cruz Jr – Servidor do museu

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Já não é vermelho e liso como o vi há seis anos. Está escuro, coberto de cinzas. Cão assustado no meio das ruínas. Mas penso que ele veio do espaço e que, há muito tempo, ele incandesceu, parou, esfriou. Hoje, assustado, continua. Cão, altivo, presente, testemunha de todo o Tempo.

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Pouco se diz que salas de roteiro são abrigo na tempestade de horas e confusão. Talvez nem todas sejam.

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Choveu hoje, mas não chegou para nos lavar.

(diário)

Durante a Segunda Guerra Mundial, a filha de Freud foi detida e interrogada pelo regime nazista. Forçado a assinar um documento declarando que ela não havia sido maltratada, Freud adicionou a ironia: “Recomendo encarecidamente a Gestapo a todos”.

Na Itália, durante trinta anos, tiveram os Bórgia, guerra civil e terror. Mataram por nada, mas produziram Miguel Ângelo, Leonardo da Vinci e o Renascimento … Enquanto na Suíça, praticavam a fraternidade: durante 500 anos conheceram a democracia e a paz, e produziram um relógio que faz cucu!

O museu ardeu, roubando a memória de todos, e a minha também.