SPOILER: Limite (1931)

A princípio, temia falar sobre cinema brasileiro, porque isso significa admitir o meu desconhecimento de grande parte da cinematografia do meio onde trabalho. Mudei de ideias. Primeiro, porque esta é uma viagem de conhecimento – que não deve ser confundido com o autoconhecimento da moda; esse é circunscrito a nós mesmos, o que me parece um campo bastante limitado. Segundo, porque imagino que muito boa gente (excluindo os meus bons amigos bacharéis da ECA-USP) também não viu as obras de que vou falar aqui.


A pergunta surgiu-me: devo assistir estes filmes antigos como um espectador da época em que eles saíram ou como eu, JV Nande, vivo décadas depois e com uma cultura visual completamente diferente? A primeira hipótese seria impossível para mim. A segunda, injusta para os filmes. Então, tento fazer as duas coisas: contextualizá-los no tempo do mundo e da arte, sim, mas sendo fiel ao meu gosto. Afinal, sou cinéfilo, não professor.


Li um pouco sobre Limite antes de o ver, mas expressões como “proto-imagem”, “estado amorfo fluido” ou “cérebro-câmera” não me entusiasmaram por aí além.


À primeira vista, ele me lembra muito A Concha e o Clérigo: plástico, cheio de fundidos, enquadramentos fora do comum, o espectador sendo convidado a construir o significado do filme. O ritmo é lento, bem mais lento do que o dos filmes mudos sobre que escrevi até agora. Nota-se a sua intenção de fazer arte pela arte e os poucos recursos com que foi filmado. Talvez o título seja uma piada com o tamanho da produção.


Em todos os sentidos, este é um filme experimental, porque faz experiências com a linguagem cinematográfica, mas também porque Mário Peixoto experimenta o cinema. O fotógrafo Edgar Brasil parece livre para fazer o que quer, e os seus travellings e planos picados e enviesados lembram o que, menos de uma década depois, Orson Welles, suposto admirador, faria no cinema americano. Porém, às vezes, parece que o filme nos diz “olha eu filmando isso aqui, que legal!”, ou porque nos quer fazer ter a noção da câmera ou porque o câmera padecia de TDAH.  Veja-se este plano, por exemplo, a que gosto de chamar “mas que linda florzinha!”.

 


Limite tem 87 anos, a mesma idade de Fernando Henrique Cardoso e de Paulo Maluf. Todas as pessoas que nele aparecem e que o fizeram estão mortas.  Porém, digam lá se esta rapaziada não parece os vosso amigos hipsters com um belo filtro Moon por cima.

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O cinema é uma arte de fantasmas. Ou, como melhor diria André Bazin:

Essas sombras cinzentas ou sépias, fantasmagóricas, quase ilegíveis, já deixaram de ser tradicionais retratos de família para se tornarem inquietante presença de vidas paralisadas em suas durações, libertas de seus destinos, não pelo sortilégio da arte, mas em virtude de uma mecânica impassível; pois a fotografia não cria, como a arte, eternidade, ela embalsama o tempo, simplesmente o subtrai à sua própria corrupção.


Pergunto-me se, surgido em plena ditadura Vargas, Limite não terá um viés político. De qualquer forma, o sentimento que nele domina parece-me endêmico no Brasil: neste país gigante, as pessoas sentem-se presas e sem escolhas perante um destino do qual não conseguem escapar. Será que os amigos de Mário Peixoto entenderam isso na primeira sessão do filme? Ou será que saíram sem terem entendido absolutamente nada e falando para o diretor Nossa, muito bom, que filme maravilhoso você fez?


Se há um defeito que se poderá apontar a Limite é que ele é visualmente repetitivo. Um nadica de nada, assim. Não precisamos ver o mesmo plano duas, três, quatro vezes para entender o que ele quer dizer. Não precisamos de tantos cactos para espicaçar nossa curiosidade. Não precisamos de planos intermináveis das ondas do mar para sacar que está sendo tratada a transitoriedade do humano em contraste com a violência perene da Natureza (quem falar que Mangaratiba, onde o filme foi gravado, é uma das suas personagens principais não vai ganhar o prêmio de Frase Mais Original e/ou Menos Óbvia do Ano).  Limite é como um amigo teimoso que suportamos para ouvir a novidade interessante que ele tem para nos contar.


Não sei se é devido à Depressão americana ou ao avanço dos fascismos, mas sinto nas obras deste período um pessimismo enorme. Em Limite, uma mulher que foge da prisão e uma esposa que abandona o marido abusador ganham o prêmio de ficarem presas num barco com um homem cuja amante morreu. Já ouvi histórias mais alegres. Aliás, um dos livros que mais me fez rir na vida chama-se Três Homens e Uma Canoa.


Dá para entender a importância de Limite, uma obra tão sensível, pessoal e delicada, para o cinema brasileiro, principalmente pelos caminhos que abriu. Glauber Rocha e o Cinema Novo não teriam sido o que foram sem ele. Faz todo o sentido que a Abraccine o tenha colocado em primeiro lugar na sua lista dos 100 melhores filmes brasileiros.

Ainda assim, gostava que alguém me dissesse que, na época em que foi gravado, já havia protetor solar, porque, se não havia, coitadinhos desses atores…

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Sobre Marielle

Não há eufemismo possível: Marielle Franco foi executada.
Fora nomeada relatora da comissão de acompanhamento da intervenção federal semanas antes e criticara a brutalidade do 41º batalhão da PM em Acari dias antes.
Então, a PM como órgão, o 41º batalhão ou, quem sabe, as milícias que tomam conta de certas zonas do RJ aparecem como primeiras suspeitas. Não me surpreenderia.
Há também quem sugira que ela teria sido alvo do crime organizado, em reação à sua posição na comissão da intervenção, o que seria cruelmente irónico, já que ela era contrária à mesma.
Confesso que acho um pouco estranho o caso.
Marielle, do que se sabe, nunca sofrera ameaças e, como vereadora, não me parece que estivesse numa posição suficientemente alta para fazer alguém se sentir ameaçado.
Mesmo que isso tivesse acontecido, o que vemos é usarem os parentes, dizerem algo como “se você não parar, matamos sua filha”.
Será que o assassinato fora encomendado para outro político? Não sei.
Será que a loucura crescente do Rio levou a isto? Não sei.
O que sei é que, se hoje é possível matar políticos desta forma no RJ, fica provado que a intervenção federal do exército realmente não serve para mais nada a não ser importunar moradores e salvar a face de Temer depois do fracasso da votação da Previdência.
Chegamos no cume da montanha de discórdia e sanha que começou com o impeachment da Dilma e cresceu com a Lava Jato e só posso esperar que Marielle seja a mártir que vai fazer todos pararem e refletirem.
Mas não estou otimista.

Defeitos do Brasileiro: A Elite

Nesta série, analiso os pequenos grandes defeitos que descubro em vocês, meus amigos brasileiros. Vocês são um povo extraordinário e fascinante tanto nas qualidades quanto nas mazelas, mas quero debruçar-me sobre estas últimas, porque quem quer saber de qualidades, não é mesmo? Não estou jogando pedras, porque, como todos, sou pecador e também porque não quero: acredito sinceramente que, melhor do que ser perfeito, é ser deliciosamente imperfeito. 

Como diz Eduardo Bueno no seu ótimo canal Buenas Ideias, o que se segue está cheio de generalizações. Mas, como de boas especificações está o inferno cheio, espero que me perdoem.

Os meus anos no Brasil ensinaram-me que sempre que a elite brasileira espreita por cima dos muros de seus condomínios privados para dizer alguma coisa é geralmente digno de nota.

Não por boas razões, é claro.

Por “elite”, não quero dizer grandes pensadores, artistas ou políticos, mas aquela alta burguesia mesmo, que, no seu faustiano caminho para o topo, parece ter prometido a Mefistófeles não só entregar a alma no final da viagem mas também despojar-se de todo e qualquer bom senso no caminho.

Mefistófeles terá dito Mas, olhe, não é realmente necessário, só para ouvir Não, Mefistófeles, se é para fazer isso, vamos fazer a sério. Toma meu bom senso aqui e vamoquevamo.

E Mefistófeles aceita, relutante, e, ao virar da esquina, joga o bom senso da elite brasileira no lixo, porque já é tão pequeno e pouco impressionante que não vale a pena levar para casa nem tentar vender na Santa Efigênia.

Talvez por isso a elite brasileira seja responsável por tantas e tão estranhas afirmações, daquelas que nunca se espera ouvir de ninguém.

Metrô do lado de casa? Não queremos.

Ciclofaixas tirando espaço aos carros? Nunca.

Dar mais dinheiro à cultura, aos museus, ao teatro? Imagina.

Não gostamos de quem está na presidência, vamos quebrar a normalidade democrática? Conta comigo.

O apego da elite brasileira ao seu carro estupidifica ao ponto de fazer pensar se ela não terá uma freudiana inveja de taxista.

O “público” em “transporte público” assusta-a.

A ideia de classes menos abastadas se movimentando, ameaçando a chiqueza esterilizada de seu bairro, ameaça-a.

Abrir o conhecimento, a cultura, a educação e o discurso deixa-a insegura.

Um representante político eleito por uma maioria à qual ela não pertence é um alvo a abater.

Portanto, a observação levou-me à conclusão sofisticada que a elite brasileira é burra e sabe-o.

Em vez de se educar, abrir a cabeça e, aceitando a sua situação privilegiada, ajudar a sociedade como um todo a avançar, prefere sonegar impostos e manifestar-se contra tudo aquilo que pode expô-la e as suas fraquezas ao opróbrio e ao reconhecimento da sua íntima inferioridade.

É como se os muros e o arame farpado de que se cerca não servissem para a proteger, mas para a esconder.

Fascinada com os paramentos e os chapéus que vê em suas televisões turbinadas quando príncipes ingleses se casam, sente-se de qualidade inferior e culpa o seu país pelos seus próprios defeitos.

E o mais fascinante é como, nesse ímpeto de autoproteção, ela, que ascendeu com o dinheiro, inventou uma identidade de classe que mantém além do dinheiro.

Já conheci moradores da Vila Nova Conceição que quebraram e viviam com menos dinheiro do que terá, por exemplo, o dono de um boteco de Taboão da Serra, mas, ainda assim, falavam com condescendência da “gente feia da periferia”, com quem evitavam contato além da babá ou da doméstica, certamente devidamente uniformizadas ou, se preferirem, “diferenciadas”.

As elites do antigamente, dos tempos que a Globo gosta de mostrar nas novelas das seis, tinham uma espécie de código de honra aristocrata.

Aqueles que, por obra e graça dos reis, deus e nossa senhora, tinham herdado uma posição, propriedades e rendimentos conexos e, por isso, se consideravam superiores à plebe, consideravam que fazia parte de sua posição de vanguarda social ser mecenas de teatros, artistas, organizar saraus e dar esmola para alimentar a mente e o corpo da turba obscurecida.

Como disse no início, com certeza generalizo.

Ser rico não é crime no presente e no passado muito aristocrata terá cagado para o que se esperava dele.

O argumento é apenas que, se você fosse aristocrata, era esperado de você mais do que a simples prática do escrotismo, do alheamento e da mediocridade.

E o mais fascinante é que, a partir do momento em que a classe do topo fixa essas características definidoras de si mesma, as pessoas que querem chegar ao seu nível adotam-nas para, um dia, quem sabe, serem também aceitas no clube, espalhando assim o escrotismo, o alheamento e a mediocridade por toda a sociedade como uma dengue que não precisa de aedes aegypti.

A elite gosta de imaginar o Brasil como um grande trem em que ela está na frente, puxando vagões que diz serem pesados, lentos e preguiçosos.

Mas eu tenho certeza que é a locomotiva que é fraca.

Defeitos do Brasileiro: O Pequeno Poderoso

Nesta série, analiso os pequenos grandes defeitos que descubro em vocês, meus amigos brasileiros. Vocês são um povo extraordinário e fascinante tanto nas qualidades quanto nas mazelas, mas quero me debruçar sobre estas últimas, porque quem quer saber de qualidades, não é mesmo? Não estou jogando pedras, porque, como todos, sou pecador e também porque não quero: acredito sinceramente que, melhor do que ser perfeito, é ser deliciosamente imperfeito. 

Dizia Dalberg-Acton que todo o poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente.

O brasileiro médio parece ter absorvido muito bem essa sentença e, por isso, contenta-se em ser apenas pequenamente corrompido ao conquistar um pequeno poder.

Não falo daquela conhecida e feia corrupção política, do troca-troca e rouba-rouba e pega-pega. Dessa vocês já estão fartos de saber.

É mais aquela corrupção estilo Sassá Mutema, do homem bom que vai dando pequenas e saborosas dentadas na sua moral até que dela não reste mais do que um miserável e triste toco.

Falo do síndico do prédio que quer porque quer aumentar o condomínio de todos para instalar uma tela LCD no elevador que anuncie as notícias do dia e a previsão do tempo que vocês acabaram de ver no Wifi de casa.

Falo do porteiro que, com um singelo olhar, já decide que um visitante não é bom o suficiente para alugar um apartamento no prédio e que nunca deixará um entregador de pizza entrar na portaria, mesmo que lá fora comecem a chover canivetes com as pontas viradas para baixo.

Falo do funcionário de repartição que te faz esperar porque não gostou da tua cara.

Falo do administrador de grupo de Facebook que adora impor aos seus membros as regras e castigos que defecou numa noite solitária do mesmo jeito que o Dr. Moreau impunha as suas às criaturas da ilha.

(há que considerar a leve diferença de que o administrador bloqueia e o Dr. Moreau matava. Mas acho que deu para entender o argumento).

Num país tão grande, surpreende que tanta gente adore conquistar o seu pequeno espaço para brincar de pequeno ditador ou, melhor, de pequeno bundão.

Eu sei que a atitude tem a ver algo com os grandes bundões do passado e presente, que chegaram e chegam com pessoas e armas (principalmente com armas), disseram e dizem “isso agora é meu” e levaram e levam.

Mas a bundice alheia não deve motivar bundice própria, amigos.

Não é porque o António Conselheiro perdeu o arraial que você tem que transformar o seu próprio quintal em sertão.

Aí, você pode dizer “se não gosta, não é obrigado a ficar no prédio/grupo/mesa do bar”, mas não seria melhor para você mesmo respirar um pouquinho e considerar o outro?

Amargura no coração mata mais do que não ter poder, amiguinho.

Que o diga Getúlio Vargas, suicidado com uma amarga bala.