Viver de pé ou morrer ajoelhado?

Como imigrante no Brasil, há vários meses que reflito sobre o modo como esta eleição deveria influenciar a minha permanência aqui.
Depois dos resultados do primeiro turno, a resposta ficou clara.
A partir de amanhã, darei início ao processo de pedido de igualdade de direitos e deveres, que me permitirá votar e participar plenamente na vida política deste país.
Isso significa perder o direito de votar em Portugal, o que muito me custa.
Porém, considero que escolher o modo como vai ser gasto o dinheiro dos meus impostos e manter a cabeça erguida contra simpatizantes de tirania é mais importante ainda.
Imagino que alguns de vocês pensaram que estava anunciando a minha partida.
Também vejo muitos brasileiros, gracejando em desespero, que perguntam qual o melhor país para se exilar.
Mas Jair Bolsonaro, o círculo que o rodeia e os esbirros que o apoiam não me dão medo.
Imagino que a maioria dos seus eleitores votaram nele mais por acharem que ele seria o melhor candidato contra o PT do que por concordarem com as ideias do ex-deputado e que inúmeros nem saibam muito bem no que estavam votando.
Eu não perco a esperança nesse povo desesperançado. Porquê?
Nasci no sexto ano da democracia portuguesa.
Não tive que combater numa guerra.
Nunca fui denunciado ou vigiado pelas minhas opiniões (ao contrário do meu avô, agricultor, sem filiação partidária durante a ditadura e, ainda assim, fichado na polícia política).
As coisas que escrevo nunca tiveram que passar por censura, prévia ou posterior.
Ao longo dos meus 37 anos, 8 dos quais morando no Brasil, vi governos com que concordei ou não dando-se bem ou mal.
Mas eu nunca vi tamanha glorificação de políticos que se aproveitam das liberdades democráticas para apelar ao saudosismo por tempos obscuros, ao elogio de torturadores e ao insulto mais sujo.
Acima de tudo, nunca vi tamanha concentração de incompetência, falta de preparo para lidar com os problemas de um país e slogans vazios de conteúdo ascender à primeira linha do debate político.
Eu não tenho nenhum problema em ver políticos de quem não gosto subir aos lugares de poder (os amigos brasileiros poderão pesquisar “Cavaco Silva” para entenderem).
Mas há não gostar e não concordar, e depois há considerar que alguém não preenche as condições mínimas para ser um representante político numa sociedade democrática, quer pelas posições que defende, quer pela incapacidade de construir uma visão com pés e cabeça para o país que pretende governar.
Fazer frente a isto é um dever ético fundamental do cidadão, esteja ele no poder, na oposição, num cargo eleito ou, simplesmente, participando da vida pública do seu país.
Emiliano Zapata disse “prefiro viver de pé a morrer ajoelhado”. É um lema pelo qual gosto de pautar a minha vida. Levantar a cabeça faz-nos chegar à luz. Baixá-la leva-nos às trevas.
E ninguém me vai fazer descer até as trevas.

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Porque eu, português no Brasil, disse #elenão

Apesar de ainda não votar no Brasil, é aqui que eu pago os meus impostos. Por isso, preocupo-me com a forma como eles serão gastos e que tipo de governos eles estarão apoiando.

Sempre considerei Jair Bolsonaro um mal necessário: a personagem bocuda que fala frases de efeito machistas, racistas e fascistas e, assim, consegue o voto da extrema-direita, fazendo-a jogar pelas regras da democracia.

E não entendo haver quem acredite que ele é mais do que isso, mesmo depois de ele se ter candidatado à Presidência construindo a imagem de ser o homem de que o Brasil precisa.

Ele não tem méritos enquanto militar, além de querer explodir banheiros da Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais para subir o seu soldo.

Um parlamentar que aprova dois projetos de lei em 27 anos de congresso não demonstra ter a articulação necessária com o Legislativo para ser um presidente competente.

O candidato já disse que nunca foi corrupto porque era do “baixo claro”. Ou seja, um político pouco importante, sem influência, que não valia a pena comprar. Mesmo assim, ao longo da sua carreira política, ele conseguiu trazer três dos seus filhos para a política e multiplicar o patrimônio familiar de forma incrivelmente suspeita. Contratou a sua atual mulher e, em um ano de serviço, quase triplicou o salário dela. Paga uma funcionária doméstica com dinheiro público. Tem um irmão que é funcionário-fantasma de uma assembleia legislativa e que é doador da sua campanha.

O candidato diz não saber nada de economia e deixar esses assuntos para o seu assessor e futuro ministro da Fazenda, Paulo Guedes. Mas Paulo Guedes é um liberal, e o seu chefe é um populista. A confusão entre os dois nas últimas semanas sobre a pauta absurda anunciada por Guedes não prenuncia um grande desenvolvimento para o país.

O seu programa de governo é uma mistura desconchavada de lunatismo e de autoritarismo, de obsessão com o exército e a polícia, de intervenção governamental na vida privada. Além disso, o candidato desconsidera as suas frases ofensivas do passado e do presente como piadas, exageros mal entendidos. As suas frases futuras serão legendadas para saber o que deve ser levado a sério?

Sem nem entrar no mérito das propostas que gosta de lançar com fala grossa e alta, Bolsonaro comprovadamente não tem a competência para as cumprir, a postura de quem deve ocupar o mais alto cargo de uma nação nem a idoneidade de quem, como ele diz, quer combater a corrupção no Brasil.

É por isso que eu não quero que ele gaste o dinheiro dos meus impostos.

E é por isso que eu disse #elenão.

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A Croácia é nazista?

Há uma coisa que me inquietou durante a Copa, que foi a insistência em dizer que os jogadores e a presidente croata eram fascistas e nazistas. Eu já estive na Croácia. Achei um lugar muito bonito e com pessoas muito simpáticas. Vi muitos sorvetes e nenhuma suástica. Depois de ver o seguinte vídeo, pesquisei o que queria ter pesquisado semanas atrás.

PRÉVIAS
O lixo do passado caiu forte nalguns lugares.

Uma vez vi um documentário chamado What Our Fathers Did: A Nazi Legacy, sobre dois filhos de criminosos de guerra nazistas.

Há uma sequência que foi particularmente reveladora: um deles vai a uma festa de aldeia na Ucrânia onde o pessoal fazia uma reconstituição das Wafen SS. Tipo Meu Querido Mês de Agosto, mas com suásticas.

Sempre tinha pensado os nazistas como invasores. Foi a primeira vez que percebi que há gente que os associa a libertação e independência, principalmente quando comparados com os comunistas que vieram depois.

Imagino que isso, misturado com os nacionalismos exaltados com a guerra da Jugoslávia, deu uma bela duma salsada.

(aliás, se tiverem estômago, vejam A Serbian Film e curtam a metáfora sobre a insustentabilidade da vida após uma guerra civil)

Uma maravilha, a confusão que o lindo do século XX deixou pelos Balcãs e Leste Europeu, né?

SOBRE O VÍDEO E AS ACUSAÇÕES

O HDZ, partido da presidente, não é exatamente de extrema direita. É um partido de democracia cristã, tipo CDS-PP em Portugal ou – surpresa! – o Democracia Cristã no Brasil. Isso não é grande coisa, mas também não é lá essas coisas (coisas nazistas, bem entendido).

A Croácia é um regime parlamentarista, então, a presidente não terá tido grande responsabilidade no péssimo tratamento dos refugiados. Nem sei se ela ratifica as leis do governo. É verdade que este também é HDZ e que governa em aliança com partidos mais nacionalistas e radicais.

Porém, a Croácia não é de todo um país entregue à direita: a coligação do SPD (o maior partido da oposição, continuação da antiga Liga dos Comunistas e que estava no poder antes) perdeu por uns meros 3 pontos.

Curiosamente, o senhor do SPD, de esquerda, só perdeu porque foram vazados uns áudios dele numa reunião com veteranos de guerra a dizer que a Bósnia não é um país de verdade e que os sérvios são lamentáveis.

(repito: salsada, salsada)

Sobre a bandeira, eu até fui pesquisar quando isso começou a aparecer, mas, parafraseando o Trumpa, acho que é fake news.

A bandeira da Croácia nazista tinha sobreposto o “U” da Ustase.

Essa da foto parece-me mais a que eles adotaram em 1990, imediatamente após a queda do comunismo e logo antes da independência, e era a bandeira da oposição ao comunismo no exílio. A bandeira atual é uma atualização dessa. É verdade que o brasão é semelhante, mas também é verdade que esse brasão já era croata vários séculos antes de Hitler ser bebê.

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A minha conclusão é que a Croácia é claramente um país com uma série de contradições agudas após guerras e totalitarismos vários, que deram em nacionalismos exacerbados e políticos que se aproveitam deles.

Nazista e fascista, não me parece.